MOVIMENTO ASSOCIATIVO BIBLIOTECÁRIO: RUMOS
Inicialmente devemos pensar um pouco a respeito do que é hoje o movimento associativo brasileiro.
Basicamente, todas as profissões - e estamos aqui tratando especificamente das profissões liberais - dividem seu movimento associativo em 4 grandes grupos:
a) os Conselhos - após seu reconhecimento e conseqüente regulamentação, uma profissão pode e deve criar seus Conselhos, sendo um Federal - que determina os rumos dos trabalhos a serem desenvolvidos - e outros Regionais, cuja delimitação espacial segue as necessidades e/ou dificuldades de atuação. A principal função desses Conselhos é a de fiscalizar o exercício profissional, proibindo àqueles que não possuam formação adequada a prática de tarefas exclusivas dos portadores de um diploma específico daquela profissão.
b) o 2o grande grupo que forma o movimento associativo de uma determinada profissão é aquele que compreende as Associações de classe. Como tarefa principal, devem oferecer aos seus associados condições para uma real atualização profissional, buscando mais projetos e propostas para sua concretização. Podemos dividir este grupo em categorias, dependendo das relações existentes com os outros grupos. Por exemplo: as Associações Profissionais, as Associações de Ex-Alunos, entre outras, que possuem objetivos que as identificam com outros grupos do movimento associativo (essas Associações serão abordadas posteriormente). As Associações de caráter civil, são as que realmente caracterizam este grupo. Como dissemos, sua função primordial é atualizar os profissionais quanto às inovações ocorridas na área, bem como ampliar discussões referentes a aspectos polêmicos, propiciando a que um número maior de pessoas ofereça contribuições e participem dos delineamentos dos destinos daquela profissão.
c) os Sindicatos compõem o 3o grupo. Objetivando, prioritariamente, a defesa dos profissionais no que diz respeito a matérias trabalhistas, os Sindicatos, por força de um estatuto aprovado pelo Estado, desenvolvem outros trabalhos cujo mérito deve ser questionado na medida em que desvia e desloca os interesses reais de uma determinada classe, levando-as a considerar uma assistência médica, por exemplo, como mais importante do que as reivindicações trabalhistas.
d) o 4o grupo abrange aquelas entidades vinculadas à formação do profissional. Partindo dos Centros e Diretórios Acadêmicos, dentro do âmbito mesmo das faculdades - que poderíamos considerar como entidades periféricas do movimento associativo - e, até, entidades de caráter nacional que globalizam e procuram determinar os rumos, debates e discussões a respeito da formação de um profissional específico.
Com relação à Biblioteconomia - a área que realmente nos interessa de imediato -, o movimento associativo está assim constituído:
- 1o grupo: O Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB) e os Conselhos Regionais de Biblioteconomia (CRB);
- 2o grupo: a Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários (FEBAB) e as Associações de Bibliotecários, com abrangência estadual ou mesmo municipal;
- 3o grupo: o Sindicato dos Bibliotecários no Estado de São Paulo. Outros Estados como Paraná, Rio de Janeiro e, principalmente, Bahia, estão, no momento, em processo de criação de seus Sindicatos. Aqui, embora com alguns (grandes) problemas, podemos acrescentar as Associações Profissionais, ou seja, os Pré-Sindicatos;
- 4o grupo: a Associação Brasileira de Ensino de Biblioteconomia e Documentação; várias Associações de Ex-Alunos espalhadas pelo país e os Centros ou Diretórios Acadêmicos das Faculdades de Biblioteconomia.
Analisando a estrutura apresentada, percebe-se claramente que a maioria das entidades que compõem o movimento associativo bibliotecário brasileiro, está atrelada ao Estado. Esse vínculo, direito ou indireto, com o Estado, acaba por diminuir a força e a atuação dessas entidades. A burocracia e as exigências legais absorvem um tempo considerável das entidades, obviamente diminuindo o tempo dedicado para outras atividades.
Outro aspecto que pode ser claramente delineado, não só através da estrutura do movimento associativo, mas principalmente, da atuação das entidades que o compõem, é o apego ao corporativismo.
Enquanto Movimento Associativo, deveríamos estar pensando numa luta por melhores salários; por apresentar o profissional bibliotecário com nova imagem; por capacitar o bibliotecário, atualizando-o e oferecendo instrumentos adequados para que ele possa satisfazer as demandas do mercado, etc. No entanto, estamos preocupados apenas em retirar aqueles que não são formados, de seus cargos cujas funções são específicas do bibliotecário. Os melhores cargos na área de biblioteconomia, cargos de direção e decisão, estão sendo exercidos, muitos deles, por pessoas de outras áreas.
E as entidades bibliotecárias? Lutam desesperadamente para afastar esses indesejáveis usurpadores de cargos alheios, mas possuem meios, mecanismos e instrumentos legais efetivos para isso? Debatem-se e perseveram alimentadas por poucas e fortuitas vitórias. Devemos aceitar como profissionais, em nosso meio, desde que com um curso de pós-graduação ou especialização, aqueles que, mesmo não o sendo, exercem funções de bibliotecário?
A resposta é de vocês.
Os bibliotecários estão preparados para atender as demandas por informação, provenientes da sociedade atual?
A especialização, a educação continuada, a atualização capacitam o bibliotecário a satisfazer, adequadamente, todas as necessidades do mercado?
Infelizmente, muitos bibliotecários não estão preparados nem mesmo para desenvolver as funções mais corriqueiras de uma biblioteca.
É comum se apontar a formação como a única culpada por todos os males da profissão. Não podemos de forma nenhuma, concordar com essa posição. Aceitamos que a formação seja responsável por grande parcela dos problemas enfrentados pelos bibliotecários, mas, concentrar toda a culpa sobre ela significa, na verdade, procurar desculpas para justificar a sua própria falta de competência e capacidade profissionais.
Podemos dizer que muitos bibliotecários, talvez em quantidade maior do que gostaríamos, são medíocres. O termo é forte, mas real.
Retomando. Uma Associação deve atuar com base nos seguintes itens:
- Atualização profissional: cursos; edição de trabalhos; publicação de revistas, jornais e boletins; palestras, conferências, simpósios, congressos, etc.
- Luta pela profissão: divulgação da profissão (internamente, modificando a imagem que o profissional tem de si próprio; externamente, através de um marketing da profissão e do profissional, através de contatos com outras profissões e através da participação em eventos nacionais ou internacionais que tenham interesse direto para a profissão e/ou a sociedade)
- Defesa da profissão: lobby buscando criar uma defesa “legal”; atuação junto à comunidade procurando seu apoio, mostrando e tentando fazer com que ela reconheça no bibliotecário um profissional indispensável.
- Ampliação do mercado de trabalho: divulgação; estudos, debates, propostas e projetos procurando adequar a atuação do profissional ao mercado.
- Defesa do profissional: salário; mercado de trabalho; condições de trabalho; status e dignidade do profissional.
- Instrumentos e locais de trabalho: luta pelos espaços de atuação do profissional, procurando sua ampliação, bem como estrutura e verbas adequadas, etc.; oposição a qualquer tipo de censura à informação; colaborar na criação e desenvolvimento de novas técnicas que auxiliem o trabalho bibliotecário, apoiando e incentivando grupos de estudos e trabalhos.
- Integração com outras Associações, nacionais ou internacionais, vinculadas ou não à Biblioteconomia.
Outros itens poderiam ser acrescentados, mas seriam subdivisões ou especificações dos apresentados.
Para resumir, podemos dividir todas essas atuações em 4 grandes itens:
- Associação deve se preocupar:
- com o profissional;
- com os instrumentos com os quais esse profissional trabalha;
- com os locais em que esse profissional desenvolve suas funções e
- para quem esse profissional deve prestar seus serviços.
Com base nesses itens, podemos delinear a situação presente e os rumos que, a partir dela, podemos sugerir como indicados para a profissão e, obviamente, como norteadores para os futuros trabalhos das associações.
O profissional - Os bibliotecários ainda não estão conscientes de que são assalariados. A crença de que o trabalho com a cultura está acima das intempéries da vida mundana, continua imperando em nosso meio. A consciência de classe social é necessária para o reconhecimento das funções sociais do bibliotecário.
A especialização não só será, como já se tornou, imprescindível para que o profissional bibliotecário possa desenvolver e atuar de acordo e com base nos interesses e necessidades da sociedade.
Instrumentos de trabalho - Nossa profissão é reconhecida, entre os próprios bibliotecários inclusive, quase que integralmente como tecnicista. A função do profissional bibliotecário seria então, única e exclusivamente, aplicar determinadas técnicas sobre materiais bibliográficos, de forma a torná-los disponíveis e localizáveis dentro do acervo de uma biblioteca. Se, realmente, esse é o único motivo e a razão de ser do bibliotecário, nada nos resta a fazer senão iniciarmos os preparativos para os funerais da profissão.
Não nos parece incoerente, a utilização das mesmas e idênticas técnicas nos vários tipos de bibliotecas? Será que a força do “tecnicismo” embotou a capacidade de crescimento e lógica do bibliotecário, “burocratizando” a atuação profissional?
As novas tecnologias não estão contribuindo para tornar a população mais informada. Ao contrário, elas colaboram para a ampliação do fosso entre os que possuem e os que não possuem informação. Os novos instrumentos de trabalho são desconhecidos para a maioria da população e representam mais uma forma de opressão e dominação.
Locais de trabalho e usuário - Utilizando quase que exclusivamente livros, nós precisamos reconhecer que a missão da biblioteca não está sendo cumprida. Quando 75% da população é composta de analfabetos e semi-analfabetos, a insistência em trabalhos apenas com a leitura, demonstra claramente quais são os objetivos, as metas, os alvos e, principalmente, a ideologia que permeia a prática bibliotecária.
Os interesses e necessidades de informação da população, estão escamoteados sob o peso da retrógrada instituição chamada bibliotecas; pela cortina representada por usuários alfabetizados e iniciados no assim entendido salutar hábito de leitura; por bibliotecários envolvidos e absorvidos pela rotina que entorpece, isola e cega.
Outros tantos fatores poderiam ser aqui arrolados, mas seria desnecessário fazê-lo, já que não exigem muitos esforços para serem reconhecidos.
Identificar as necessidades e demandas futuras, representa delinear a situação presente e, para isso, é preciso que o profissional bibliotecário não esteja amarrado e preso a uma posição estática, calcada apenas no passado.
(Palestra proferida em 12 de março de 1990, em evento promovido pela Associação Profissional dos Bibliotecários de Sergipe)
(Publicado originalmente em: ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Sociedade e Biblioteconomia. São Paulo: Polis, 1997)
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