ARTIGOS E TEXTOS


MERCADO DE TRABALHO: O BIBLIOTECÁRIO EM SÃO PAULO

Vários aspectos sobre mercado de trabalho poderiam e mereceriam abordagens específicas:

- a situação atual do mercado quando comparado com o número de profissionais bibliotecários: todos estão empregados? Qual o número de desempregados?

- os espaços tradicionais (biblioteca pública, escolar, universitária e especializada) continuam sendo os únicos a absorverem a mão de obra bibliotecária. Esta afirmação é correta? Existem outras opções, desconhecidas ou ainda não aproveitadas? As livrarias e editoras; a administração cultural; os cursos de secretariado equivalentes ao 2o grau; o trabalho autônomo, enfim, o rol de possibilidades “alternativas” de mercado, continuam como meras possibilidades?

- o mercado em potencial ainda está ligado, quase que exclusivamente às bibliotecas e centros de documentação e/ou informação de empresas?

- a grande maioria dos profissionais bibliotecários atuam junto ao serviço público, como funcionários públicos concursados, sendo irrelevante o número daqueles que trabalham para a iniciativa privada. Esta afirmação é válida para todas as regiões do país?

- os bibliotecários estão atendendo, respondendo e satisfazendo à necessidade informacional, técnica e social do mercado de trabalho?

- o salário oferecido para o profissional bibliotecário é digno e reflete o grau de importância e necessidade social da profissão?

- o ambiente é adequado para que o bibliotecário possa desenvolver suas atividades?

- o fato de a profissão ser eminentemente feminina, traz conseqüências para o mercado e, principalmente, para o salário?

As muitas perguntas formuladas exigem respostas, embora estas nem sempre possam ser objetivas.

Falar, discutir e debater sobre o tema, exigiria dados quantitativos e qualitativos que demonstrassem a situação atual e possibilitassem, através de análises, um prévio conhecimento das demandas e necessidades futuras. Poucos são, no entanto, os dados disponíveis e, mesmo estes, em sua maioria, são limitados e defasados, além de apresentarem dados de pouca relevância.

Uma fonte passível de utilização, é o Relatório Semestral da Bolsa de Empregos da Associação Paulista de Bibliotecários e do Sindicato dos Bibliotecários no Estado de São Paulo. Através dela, pode-se responder, no âmbito do Estado de São Paulo e, em particular, da capital, a algumas das perguntas formuladas anteriormente.

Outras fontes, além de observações e experiências pessoais de bibliotecários, são normalmente utilizadas, embora tenham sua importância relativizada.

Dessa forma, tomando-se São Paulo como exemplo, é possível responder a várias das perguntas levantadas:

- a média salarial apresentada semanalmente pelo jornal Folha de São Paulo, para o bibliotecário, situa-se ao redor de CZ$ 190.000,00 (set./88) em empresas de grande porte. Deve-se, no entanto, analisar esse dado com profundas reservas, já que, em outras fontes, a média salarial indicada está além (publicações de algumas empresas especializadas) ou aquém (Bolsa de Empregos APB/Sindicato) daquela.

- utilizando-se o último relatório semestral da Bolsa de Empregos da Associação Paulista de Bibliotecários e do Sindicato dos Bibliotecários no Estado de São Paulo, evidencia-se uma quantidade de vagas consideravelmente maior do que o número de bibliotecários inscritos naquela Bolsa:

                 - empregos oferecidos –

                          - para profissionais: 150

                          - para estagiários: 38

                 - inscrições -

                          - bibliotecários: 80

                          - estagiários: 10

 

Convém lembrar que o total de bibliotecários inscritos não significa, necessariamente, o mesmo montante de desempregados, já que a Bolsa de Empregos atende apenas profissionais associados e que, quando estes a procuram para se inscreverem, o desemprego não é uma condição prévia e exclusiva.

Outro ponto que deve ser salientado é o fato de que a Bolsa de Empregos trabalha apenas com vagas que tenham sido oferecidas diretamente a ela pelas empresas, deixando para os próprios profissionais interessados o levantamento de vagas através de outros meios, como jornais ou empresas de assessoria de recursos humanos.

Considerando-se que os dados apresentados refletem uma situação parcial, é demasiadamente temerosa qualquer tentativa de generalização, embora, através de contatos, observações e experiências constantemente relatadas por profissionais, seja possível supor que, no momento, o mercado de trabalho esteja absorvendo a maioria dos profissionais bibliotecários. O desemprego que até há alguns anos (poucos) atrás, dificultava a inserção dos recém-formados no mercado de trabalho (1), estaria, dentro dessa suposição, em níveis mínimos.

O salário do bibliotecário, no entanto, continua sendo inferior ao da maioria das outras profissões liberais, tanto no serviço público (caso do Governo do Estado), como, principalmente, no setor privado. Mesmo com a deliberação de um piso salarial pelo Sindicato dos Bibliotecários - que, embora não sendo oficial, auxilia e colabora para o aumento da remuneração do profissional - a média efetivamente paga ao bibliotecário está muito abaixo do mínimo entendido como razoável para uma profissão reconhecida como de importância dentro da sociedade.

As empresas privadas no Estado de São Paulo, continuam oferecendo a maior parte das oportunidades de empregos. O número de concursos públicos diminuiu sensivelmente quando comparado com o crescimento do número de profissionais que anualmente ingressam no mercado de trabalho. A maioria das empresas ou mesmo órgãos públicos, atualmente, apenas contrata funcionários sob o regime da CLT. Esta afirmação também tem como base a observação e o testemunho, embora não deva, de maneira nenhuma, ser desprezada.

A partir da constatação anterior, pode-se - caso seja ela reconhecida como autêntica e válida - inferir que, hoje, não é possível reconhecer como absolutamente correta a afirmação de que a maioria dos profissionais bibliotecários atuam como funcionários públicos. O inverso pode ser considerado, para o Estado de São Paulo, como uma análise mais próxima da verdade, embora deva se reconhecer a dificuldade de obtenção de dados concretos que confirmem essa assertiva.

A situação do mercado de trabalho na área de atuação do bibliotecário parece ser promissora, ao contrário das perspectivas futuras do profissional. A frase pode parecer paradoxal e incoerente, mas reflete a realidade atual: embora o mercado de trabalho amplie suas oportunidades, oferecendo vagas para bibliotecários - o que demonstra um reconhecimento pela sociedade da importância e da necessidades da biblioteconomia - estes profissionais, em sua grande maioria, não estão aptos a desempenhar e responder, satisfatoriamente, às demandas desse mercado. Obviamente, as exigências do mundo atual em relação às informações, levam as empresas e os órgãos de pesquisa, principalmente “de ponta”, a recrutarem profissionais de qualquer área, desde que atenda às suas necessidades. Outros profissionais, que não o bibliotecário, estão ocupando espaço que deve ser do bibliotecário. Lembrando: esse espaço deve ser do bibliotecário, não por força de uma lei corporativista, não por um legalismo que cria uma reserva de mercado, mas por capacidade e competência desse profissional.

Reconhecer-se assalariado, funcionário e empregado; ter consciência da necessidade de uma atualização constante; saber-se isolado e procurar minimizar este problema, atuando junto aos órgãos de classe; acreditar na importância, no interesse e no valor social da profissão, são pontos indispensáveis para que o profissional bibliotecário possa ser absorvido por um mercado em crescimento e com infinitas perspectivas; caso contrário, o bibliotecário será substituído, acertadamente, por profissionais que supram as necessidades de informação da sociedade futura.

 

Nota

1 - ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Estudo de caso: mercado e salário. Palavra-Chave, São Paulo, n.4, p.13-6, maio 1984.

 

(Palestra proferida no VII Encontro Londrinense de Biblioteconomia e Documentação, realizado em Londrina, de 7 a 9 de outubro de 1988. Publicado nos Anais do evento, páginas 102-108)

(Publicado originalmente em: ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Sociedade e Biblioteconomia. São Paulo: Polis, 1997)

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Junior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.