A BIBLIOTECA UNIVERSITÁRIA COMO MEDIADORA DA INFORMAÇÃO
O tema mediação da informação faz parte de minhas preocupações acadêmicas e profissionais há algum tempo. Meu primeiro contato com o campo de trabalho, ainda como aluno do curso de Biblioteconomia, foi em uma biblioteca universitária e, mais, junto ao serviço de referência. Após formado - e depois de ter prestado um concurso interno -, passei a atuar como bibliotecário na mesma instituição, embora não mais com as atividades de atendimento direto com os usuários. Enquanto muitos ansiavam por deixar o trabalho no serviço de referência, minha preocupação (e constantes tentativas) era o oposto. Três anos depois, voltei a ocupar um cargo no serviço de referência; cargo esse que me permitiu implantar muitas e, algumas, ousadas ideias.
Paralelo aos interesses provenientes da atuação profissional, um outro tema exigia leituras e reflexões: a relação entre a biblioteca (que hoje incluo entre os equipamentos informacionais) e a sociedade. Meus primeiros textos versavam sobre essa temática. Biblioteca e sociedade ocupavam meus estudos e pesquisas em um âmbito mais geral, propiciando teorias e concepções para atender aos questionamentos em uma esfera mais específica: aquela com a qual lidava cotidianamente, ou seja, a relação informação - usuário.
Apresentei essa pequena e rápida biografia profissional e acadêmica, com o intuito de evidenciar que há uma interação entre as discussões teóricas e a prática profissional. Teoria e prática se mesclam, se imbricam e são interdependentes. Não há uma sem a outra. Ambas determinaram os meus caminhos de vida que enveredaram, com meu consentimento, para a docência. À prática docente se incorporou a pesquisa - mais formal - e, de ambas, surgiu meu olhar interessado e preocupado, primeiro, com o serviço de referência e informação e, depois, com a mediação da informação.
Os textos acadêmicos sempre começam conceituando os termos considerados mais importantes. Neste caso em específico, o termo a ser conceituado é "mediação da informação", uma vez que o público participante do evento é composto de profissionais que atuam no âmbito das bibliotecas universitárias.
Desde 2001 coordeno projetos de pesquisa que têm como objeto a mediação da informação; de início, voltada para o fazer do profissional da informação; em seguida, direcionada para analisar e estudar as linguagens presentes nos suportes com os quais lida esse profissional e, agora, defendendo o retorno das discussões sobre a importância da leitura para a apropriação da informação.
Dos vários resultados, das várias inferências que as pesquisas permitiram, e que conseguimos, evidenciar - todas, lógico, balizadas por nossas reflexões -, é possível destacar um conceito para a mediação da informação
toda ação de interferência – realizada pelo profissional da informação –, direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular ou plural; individual ou coletiva; que propicia a apropriação de informação que satisfaça, plena ou parcialmente, uma necessidade informacional. (ALMEIDA JÚNIOR, 2009, p.92)
Dois pontos devem ser destacados desse conceito: a ideia de interferência e a de apropriação.
A interferência se posiciona de maneira contrária ao discurso e à ação do profissional da informação, na medida em que o senso comum desse profissional, passivamente aceita e acata a existência de uma neutralidade em seu fazer, de uma imparcialidade que a concepção da interferência contesta e derruba.
Por sua vez a apropriação se apresenta como oposta à ideia de uso da informação. Defendo que não usamos a informação, mas o conhecimento modificado pela informação. Esta tem uma vida efêmera, existindo apenas entre o momento da relação entre o usuário e o suporte informacional e a apropriação da informação.
A apropriação pressupõe o entendimento, a compreensão da informação. Não basta, dessa forma, o acesso meramente físico ao documento, ao suporte, é preciso que haja uma interação de fato entre o usuário e a informação.
Aceitando tais ideias, originam-se delas dois grandes entendimentos:
- o usuário é, realmente, o objetivo principal de todas as ações desenvolvidas pelos equipamentos informacionais, na medida em que é ele quem determina se algo é ou não informação;
- sendo o usuário quem define a existência da informação, todos os trabalhos desenvolvidos pelos profissionais da informação atuam com algo que não é, em última instância, informação.
Nós, profissionais da área, trabalhamos com algo que ainda não é informação - pois ela só será assim entendida pelo usuário -, trabalhamos com uma "quase-informação", com uma "talvez-informação" ou, como passei a denominar, uma "proto-informação".
Para os trabalhos nas bibliotecas universitárias, essas concepções exigem discussões sobre conceitos sedimentados e ancorados mais em ações do que em teorias; essas ideias devem dirigir nossas preocupações para o nosso fazer e, em especial, para o usuário que atendemos. Ele não fará uso da informação, mas integrará tal informação em seu conhecimento, alterando-o, transformando-o, modificando-o.
A informação não é algo concreto, objetivo; não pode ser entendida a priori; ao contrário, a informação é subjetiva, é impalpável. Em outro momento, enfatizei esse caráter da informação, afirmando que elas "são registradas, mas não permanentes; são fluidas, evaporantes, translúcidas; impalpáveis, embora concretas; não consumíveis." (ALMEIDA JUNIOR, 2004).
Em todo o fazer do profissional que atua em bibliotecas universitárias, deve estar presente a preocupação com a mediação da informação que, deve-se aqui enfatizar, não ocorre apenas no serviço de referência e informação, mas em todos os espaços nos quais os trabalhos desenvolvidos pelas bibliotecas universitárias são divididos.
Pretendemos iniciar uma reflexão que traga as concepções da mediação da informação para o âmbito, para o espaço, para o mundo das bibliotecas universitárias e dos profissionais que nelas atuam.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Implicações entre formação e objeto da área de informação. VII ENCUENTRO DE DIRECTORES, 8. Y ENCUENTRO DE DOCENTES DE ESCUELAS DE BIBLIOTECOLOGÍA Y CIENCIAS DE LA INFORMACIÓN DEL MERCOSUR, 6. 30 de agosto a 01 de setembro de 2004, Mar del Plata, Argentina. Anais... Mar del Plata, 2004. Publicação em CD-ROM.
________. Mediação da informação e múltiplas linguagens. TENDÊNCIAS DA PESQUISA BRASILEIRA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO. v.2, n.1, p.89-103, jan./dez. 2009.
(Fonte: A biblioteca universitária como mediadora da informação. II Encontro dos Bibliotecários da Rede de Bibliotecas da UNESP. Local: São Pedro – SP. Data: 23 de fevereiro de 2010).
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