ARTIGOS E TEXTOS


A INFORMAÇÃO IMPRECISA E A MORTE DO USUÁRIO

A informação é polissêmica, como é do conhecimento de todos da área. Os conceitos diferentes defendidos por muitos estão vinculados às concepções que cada um advoga. Apesar do entendimento sobre a informação possuir algumas bases teóricas mais aceitas, entre elas há nuances e mesclas que implicam em uma gama de olhares sobre ela, a informação.

Alguns desses entendimentos são mais aceitos e se constituem como sustentação da compreensão da área e, por essa aceitação, se revestem de um caráter hegemônico.

As compreensões da informação como solucionadora de problemas ou como se revestindo de uma materialidade tangível (embora a informação se materialize não de forma concreta e objetiva), atendem a necessidades, tanto no âmbito do fazer dos profissionais que atuam nas áreas da Ciência da Informação como no acadêmico, para a sustentação de determinadas afirmações presentes nas posturas definidoras dessas áreas.

Dentro desse entendimento, o conceito de informação não está, necessariamente, estipulado a priori na Ciência da Informação e também não é a partir dele que a área se constrói. Há concepções de informação que embasam a Ciência da Informação, mas, na medida em que a informação é polissêmica, o consenso tão procurado dentro dos vários segmentos do conhecimento humano não se concretiza, ou seja, há uma Ciência da Informação, mas que se divide em várias a partir dos conceitos de informação defendidos no âmbito de correntes existentes no interior da área.

Os conceitos diferenciados criam correntes que norteiam estudos e pesquisas e alimentam discussões epistemológicas. Há sempre alguns conceitos que se destacam, se afirmam como paradigmas e hegemonicamente traçam caminhos e destinos da área.

O embate entre os conceitos torna a Ciência da Informação viva e em constante construção. Mas, por outro lado, as concepções hegemônicas criam núcleos que as mantêm em destaque. Esses núcleos cobrem desde os que são convidados para avaliação de artigos para revistas especializadas; avaliação de trabalhos para eventos; avaliação de projetos para bolsas ou financiamentos; membros de bancas de qualificação e defesa de trabalhos de pós-graduação estrito e lato senso; bancas de seleção ou de progressão de docentes; convites para palestras em eventos ou em disciplinas, em especial, de pós-graduação etc.

A maioria desses espaços é constituído por pesquisadores que estão vinculados aos entendimentos hegemônicos da Ciência da Informação e, em sendo assim, mesmo que de maneira não consciente, são privilegiadas as concepções relacionadas a eles, reproduzindo tais entendimentos e cirando condições favoráveis para que eles se perpetuem.

Os que atuam com a mediação da informação se valem de um entendimento específico da informação que se sustenta, de maneira mais geral, em uma concepção social dela. Há uma corrente mais ampla que advoga um caráter social da informação, desvinculando-a de dois outros entendimentos, também gerais: o matemático e o sistêmico.

O entendimento nosso de mediação da informação é:

Toda ação de interferência – realizada em um processo, por um profissional da informação e na ambiência de equipamentos informacionais –, direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular ou plural; individual ou coletiva; visando a apropriação de informação que satisfaça, parcialmente e de maneira momentânea, uma necessidade informacional, gerando conflitos e novas necessidades informacionais. (ALMEIDA JUNIOR, 2015, p.25)

 

É possível destacar alguns pontos principais desse conceito, como a interferência, a apropriação, o processo, a ambiência de equipamentos informacionais, a ideia de satisfação parcial e momentânea e os conflitos. Em outros trabalhos esses itens foram discutidos mais extensamente, estando agora apenas arrolados para que tornem mais claras os embasamentos do conceito de informação que será apresentado a seguir. Vale apontar para o fato de que, nesse conceito, a informação é compreendida como causadora de dúvidas, de necessidades, de interesses, de desejos; criando conflitos, a informação coloca em questão as certezas presentes nos conhecimentos dos sujeitos e, assim, exige novos posicionamentos; a informação, dentro desse entendimento, não estabelece equilíbrios, mas, ao contrário, é base para desequilíbrios; é a partir dela que demandas serão formadas e todos os fatores apresentados acima apontam para uma informação que se constrói na relação e é dependente do sujeito informacional, embora também dependa de muitos outros personagens do processo de mediação. No diálogo do sujeito com o mundo ele se preenche de informações, ele se torna prenhe de informações.

Um ponto importante é a ideia de que nós não controlamos a apropriação das informações. Defendemos que a maior parte das informações que nos apropriamos dá-se de maneira inconsciente. Acreditarmos que temos o controle sobre as informações (seja interna ou externa) é negarmos a existência de interferências, quer propositais ou não, oriunda do produtor ou dos vários “terceiros” da mediação. É negarmos também as ideias sobre informações sub-reptícias ou todas as discussões presentes nos estudos da propaganda e publicidade.

Mais dois entendimentos devem ser aqui apresentados: a mediação da informação pressupõe que o conhecimento é construído individualmente, pelo sujeito informacional, mas sempre e necessariamente na relação desse sujeito com os outros e com o mundo. 

Essas compreensões sobre mediação da informação nos levaram a propor um conceito para a informação que se afinasse com todas as concepções expostas anteriormente.

Como afirmado no início deste texto, existem correntes que constroem bases teóricas que não se filiam às concepções hegemônicas e o fazem a partir de suas ideias e, em especial, do conceito de informação que formulam.

A partir da mediação da informação, assim, construímos um conceito de informação:

A informação, para mim, é uma construção, elaborada em um processo, constituída de ações, elementos, interferências, situações, interesses, embates e memórias, gerada pela explicitação de segmentos de conhecimentos e que, em um continuum, durante seu ciclo de vida, recebe significados e tende a criar conflitos nos conhecimentos e certezas supostamente constituídos. (ALMEIDA JUNIOR, 2019 – os negritos são do original)

 

O próprio autor afirma que esse é um esboço de conceito, estando ainda em construção.

Uma análise, mesmo que superficial, nos permite identificar semelhanças e relações entre os conceitos de mediação da informação e de informação. Alguns itens estão especificados e outros apenas sugeridos.

Além do que está exposto, outros tópicos devem ser elencados visando explicitar melhor a ideia de informação que defendemos.

Informação nunca é única. Quando o conhecimento explícito é exteriorizado – afirmação da literatura, em especial a que retrata os estudos de gestão da informação e do conhecimento -, ele se transforma em informação. Esse é o momento em que a informação é produzida. O conhecimento do sujeito informacional não é exteriorizado em seu todo, mas apenas uma pequena parte dele, entendida como estruturada de maneira adequada, coerente e organizada para ser disseminada. A informação, assim, não nasce isenta, mas carregada de significados, de entendimentos, de intenções. Muitas delas não são claras para o autor, mas estão incluídas no seio do que está sendo partilhado.

Nenhuma informação nasce isenta e nem o será no decorrer do seu ciclo de vida, uma vez que receberá significados em e de todas as instâncias e sujeitos com os quais terá relações.

A informação aparentemente nasce única, mas durante seu ciclo de vida se espraiará, se multiplicando, tornando-se várias informações, derivadas da informação inicial. A informação não é uma informação, mas informações geradas por uma informação.

A intencionalidade do autor ainda se faz presente, mas alterada por todas as interferências, não só de sujeitos, mas também de espaços, momentos, situações etc. O ciclo de vida da informação não é algo linear, pelo contrário, se constitui na própria construção da informação, em um continuum que a estrutura.

Dentro dessa concepção, a informação não é tão somente a informação, mas várias informações, dependentes, em última instância, do sujeito que dela se apropria.

O sujeito reconstrói, reedita a informação e a altera. Ele é coautor e imprimirá na informação, a partir de sua interferência, significados que a transformarão, quer superficial como profundamente.

A informação é resultado da mescla dessas interferências e, repetindo, se faz várias.

Várias são as características da informação conceituada dentro do olhar da mediação da informação. Entre essas características podemos e devemos incluir a sua imprecisão e a sua imperfeição. Mais ainda: a informação é incompleta, inquieta além de resistir a interferências. Atentemos: resistir a interferências não significa ser imune a elas, ao contrário, mesmo sustentando e defendendo os significados primeiros nela apostos – pois sua estrutura foi assim constituída – a informação vai absorvendo significados, produtos de interferências. Assimila significados, mas defende aqueles com os quais nasceu. Esse embate interno faz parte intrínseca da informação e a torna algo não facilmente compreensível, não facilmente inteligível.

Sob esse olhar, a imprecisão e a imperfeição da informação são passíveis de serem explicados e compreendidos. A informação, ou um segmento dela, ou uma de suas ramificações, transita com inúmeros significados incorporados em seu ciclo de vida que a torna mais palatável ou inteligível nos nichos do conhecimento humano pelos quais trilhou. Outros caminhos a tornam menos compreensível, pois os significados incorporados atendem a conhecimentos e entendimentos diferentes.

As lutas internas da informação a tornam imprecisa. Não possuindo uma materialidade física, ela não se apresenta – e vale a pena ratificar – como facilmente apreensível. Os referenciais do apropriador tornam a proximidade dele com a informação uma experiência única, mas é preciso não esquecermos que a construção do conhecimento se dá na relação e que esse conhecimento, embora diferenciado de sujeito para sujeito, se estrutura a partir de muitas outras relações com o mundo. Ainda mais: o conhecimento unifica e imbrica as vivências e os compartilhamentos e as disseminações formais tanto da ciência como dos pensamentos e reflexões produzidos pelos sujeitos e que circulam dentro e fora dos limites da academia.

Não há precisão na informação. Dessa forma, em todos os equipamentos informacionais, é impossível pretender veicular informações e entender que tal ação pode ser precisa ou, utilizando um termo que muito se emprega na área, eficiente e eficaz.

Outra característica da informação é ser imperfeita. Como vimos, ela não traduz de maneira objetiva, os significados, as ideias, as concepções, as propostas, os desejos e a ideologia do seu autor ou do seu produtor. Isso, claro, é proveniente, e sendo redundante, do fato de, em seu ciclo de vida, receber inúmeros significados, além de se multiplicar tornando-se várias informações. Se fosse material, coisificada, objetiva, palpável, tangível, provavelmente poderia ser apropriada de maneira idêntica por todos os sujeitos informacionais. Mas, como não possui ela essas características, a apropriação uniforme é uma impossibilidade.

Vale a pena afirmarmos aqui que não empregamos o termo “uso da informação”, mas o termo “apropriação da informação”. O motivo é que entendemos que o sujeito não faz uso da informação e, sim, do conhecimento alterado pela informação. A relação do sujeito com o mundo e com os outros – e, logicamente, com a informação – inclui não partes ou porções desse sujeito, pelo contrário, exige a participação de todo ele, assim como da informação e de todas as etapas que a constituíram. O momento da relação sujeito-informação não pode ser simplesmente destacado, analisado separadamente.

A informação é também incompleta e inquieta. Incompleta na medida em que está sempre por se completar, por se fazer. Assim como todo homem é inconcluso, é inacabado, a informação também o é.  

Tendemos a acreditar que a informação, ao contrário de antigas defesas, não desaparece quando altera conhecimentos, quando apropriada e quando cria conflitos. Ela se mantém latente, interferindo nas construções dos conhecimentos individuais, não esquecendo, mais uma vez, que essa construção, embora seja realizada pelo indivíduo, só pode se concretizar na relação dele com o mundo. No interior do sujeito informacional ela, a informação, continua interferindo nas discussões, nas reflexões do sujeito. Ela não é passiva, ao contrário, ela é inquieta, ela é o contradito, é o que balança o que já existe, é a contradição.

Aceitar essas características da informação implica em entendê-la como sempre em construção, como um constructo que se materializa, não de maneira tangível, durante a apropriação.

As áreas da Biblioteconomia e da Ciência da Informação se estruturam com base em determinadas concepções, em especial a organização do conhecimento, entendida por muitos – e com a qual discordamos -, como o núcleo duro dessas áreas. Outras concepções também estão presentes de maneira forte sendo algumas delas a recuperação da informação, a satisfação da informação e outras com menos ênfase, como a democratização da informação.

Novas propostas de estudos surgem buscando espaços nos interesses dos pesquisadores, como, hoje, a competência em informação, o comportamento informacional etc., mas todas elas se constituem a partir de um quase pressuposto que é a informação fechada, como um casulo que gesta um significado ou algo parecido e se colocado em questão, pode levar à destruição do que está sendo parido.

A ideia de protoinformação foi por nós construída para responder aos problemas enfrentados nos equipamentos informacionais.

Como organizar uma informação que é subjetiva, que não se materializa até sua relação com o apropriador? Como criar um repositório de informações se elas não podem ser manipuladas, se elas são incorpóreas? Como lidar com essas informações se elas são dependentes dos referenciais do apropriador? A “protoinformação” é assim entendida:

Dado que a informação não existe a priori e se constrói, em um processo, desde sua produção até sua apropriação (consciente ou inconsciente), os equipamentos informacionais e os profissionais da informação trabalham com uma informação latente, uma “quase-informação”, uma “talvez informação”. O termo “protoinformação” foi por mim gerado a partir desse entendimento. (ALMEIDA JUNIOR, 2015, p. 28)

 

Compreender as informações como fechadas, impossíveis de serem questionadas, aponta para um usuário para o qual é delegado apenas o direito de aceitar. O termo “transferência de informação” carrega essa noção, na medida em que evidencia a passividade desse usuário que simplesmente recebe uma informação dentro das concepções de quem a produziu e com base nos critérios dos que a disseminam.

Os equipamentos informacionais constroem seus acervos com base nos materiais que estão disponíveis, naqueles que o mercado editorial julga atender a determinadas exigências, em especial aquelas que se relacionam com a venda, com o lucro. As editoras precisam que os materiais sejam consumidos para que possam sobreviver. Não há incoerência entre esse objetivo e o sistema capitalista no qual elas estão imersas. Mas, tal situação não permite que segmentos e entendimentos de várias parcelas da sociedade possam ser publicados e disseminados.

Além disso, a construção do acervo é feita sob um prisma coletivo. Busca-se entender o interesse, a necessidade e o desejo coletivo da comunidade atendida. O discurso presente na organização do acervo acompanha um entendimento do conhecimento humano mais amplo, determinado pelos instrumentos e ferramentas de classificação e de catalogação e, por outro lado, pelo discurso específico estruturado pelos funcionários que atuam nos equipamentos informacionais. Junta-se a esses dois discursos um outro, o que é proveniente do mercado editorial, das academias e de outros espaços e instâncias, tanto formais como informais.

O Serviço de referência e informação tenta adequar a construção coletiva dos acervos aos interesses individuais dos que procuram os espaços informacionais, em especial as bibliotecas. Mas, em todos os fazeres dos equipamentos informacionais, quer explícitos ou implícitos, há interferências e elas, além dos próprios espaços, também geram significados para a informação.

Historicamente, o usuário sempre foi moldado pelos interesses das bibliotecas e precisou se adequar a eles para fazer uso desse espaço. Apesar de ser apresentado como foco das pesquisas e ações da área, o usuário apenas aparentemente é protagonista no âmbito dos estudos de informação e, também, nos equipamentos informacionais.

A relação entre a construção coletiva do acervo e a satisfação, mesmo que momentânea, das necessidades, interesses e desejos individuais, apresenta aspectos que, nas análises que desenvolvemos, apresentam contradições entre os discursos e as práticas.

Olhando especificamente para as bibliotecas, buscou ela preservar o conhecimento produzido pela elite de todas as épocas. Seu acervo foi composto  e construído com base na história oficial e pelo conhecimento aceito como verdadeiro por aqueles a quem lhes foi dado o direito de “falar” em nome de toda a  humanidade. O saber popular nunca teve espaço nesses acervos. E continua não o tendo. A preservação, dessa forma, desconsiderou o usuário, entendendo-o como mero receptor do conhecimento, da história e das informações armazenadas.

Hoje, apesar da justificativa de que a preservação tem um olhar sobre a memória que justifica sua existência, ainda se tende a seguir, na maioria dos equipamentos informacionais, as ideias determinadas como importantes para serem preservadas, vindas da elite, dos que produzem conhecimento distanciado dos interesses e necessidades da sociedade como um todo.

Se a informação é imprecisa, impossível de ser alcançada em sua totalidade, e, na medida em que as bibliotecas trabalham, hegemonicamente, com a ideia de que a informação é tangível e usável, o usuário pode ser, no discurso, o objetivo das ações delas, mas, na verdade, não o é na prática, por impossível inviabilidade.

Os estudos no âmbito da Biblioteconomia só se preocuparam, formalmente, com o usuário a partir dos últimos vinte anos do século XIX. Nessa época, a partir de uma proposta de Samuel Sweet Green, propõe-se a criação de espaço dentro das bibliotecas de atendimento específico do usuário, denominado de Serviço de Referência. Mais tarde, já no final do século XX, o termo informação foi acrescido, denominando esse espaço de Serviço de Referência e Informação. O usuário é estudado, especificamente, há menos de 130 anos. Melhor analisando, há bem menos anos do que isso, uma vez que a proposta de Green não foi aceita e implantada de imediato, ao contrário, até hoje muitas bibliotecas não possuem um Serviço de Referência em funcionamento de maneira adequada.

Poucas bibliotecas, até meados do século XX, atuaram norteando suas ações para os usuários. No entanto, mesmo elas, se defrontaram com muitos problemas, considerando que o número de usuários reais ou potenciais eram pequenos, em função, entre outros, do alto índice de analfabetismo da população. Superar o problema com o analfabetismo do texto escrito, empregando outros tipos de documentos e de suportes informacionais, como a imagem fixa, a imagem em movimento e o som, como fazemos hoje, era impossível naquele período, dado a inexistência dessa variedade de suportes.

Na década dos anos de 1940, estudos de usuários começam a ser utilizados, embora voltados para análise do acervo e dos serviços oferecidos pelas bibliotecas, ou seja, estudos de uso e não propriamente de usuários.

Com base em análises basicamente empíricas, as bibliotecas criaram um perfil ideal do usuário, mas não baseado em dados coletados em metodologias apropriadas. Esse usuário foi concebido naquilo que a biblioteca e os bibliotecários dele esperavam, não só na sua relação direta com os serviços oferecidos, com o acervo disponibilizado – aquele mesmo acervo com o qual o usuário não participou de sua construção – como também moldando suas necessidades, desejos e interesses informacionais.

O perfil ideal do usuário ainda vigora em muitos equipamentos informacionais e, partindo dessa afirmação, as demandas dele não são demandas oriundas exatamente das necessidades, interesses e desejos dele. As bibliotecas, mesmo que ingenuamente entendam satisfazer tais demandas, não conseguem, pois elas não são explicitadas por canais abertos para isso. O usuário é previamente concebido e os acervos e serviços oferecidos – estruturados com base em entendimentos coletivos – exigem que ele aceite e se integre ao que foi preconizado pela biblioteca.

Os usuários sempre se moldaram, por exigência das bibliotecas, aos acervos e serviços provenientes destas. E continuam se moldando, e continuam sendo levados a se moldarem. Ou se moldam ou não podem fazer uso dos equipamentos informacionais (e neste caso, estamos falando de todos eles).

A construção do acervo dentro dos moldes anteriormente apresentado e a exigência de que os usuários só façam uso da biblioteca aceitando e acatando a estrutura dela, exercendo pouca, ou quase nenhuma influência, leva-nos a afirmar que as necessidades, interesses e desejos dos usuários sejam construídos a partir do que é disponibilizado para eles. Não há, isso é certo, interesses, necessidades e desejos puros, provenientes apenas do que são oriundos dos usuários. A sociedade tem uma parcela grande de interferência nessa construção e, como vimos, a biblioteca também. Historicamente, o consumo mais coletivo deu lugar a um consumo individual, motivado pela necessidade de aumento de produção de mercadorias e sua consequente venda. Aparelhos de televisão, rádio, telefone, relógios etc., antes comprados para uso da família, agora estão disponíveis para utilização individual. A produção aumentou, o consumo aumentou e tais mercadorias passaram a ser entendidas como imprescindíveis para a vida.

Exemplos semelhantes aos elencados acima, embora sem a busca por individualizar o consumo, mas padronizá-lo, são os relacionados ao vestuário, carros, bebidas, comidas, música, locais de viagem, brinquedos etc.

Além deles, tudo que se refere à tecnologia também recebe forte apelo de consumo a partir da criação artificial de necessidades que novos produtos impõem.     

O discurso que aponta o usuário como sendo o objetivo último desses equipamentos, não se sustenta quando confrontado com a prática, com as ações e fazeres dos profissionais que atuam nesses espaços.

Pelo que vimos, o usuário sempre foi desconsiderado, sempre teve que se sujeitar, se adaptar, se adequar à biblioteca.

Assim, o usuário é sem ter sido. Ao que tudo indica, o usuário existe, sem nunca ter existido. O usuário está morto.

O problema se agrava quando nos utilizamos do acesso remoto às bibliotecas. De maneira próxima ao que acontece com o acervo físico, com o acervo presente nos espaços de acesso presencial da biblioteca, os repositórios, constituídos de documentos elaborados da mesma forma que os tangíveis, não abarcam todos os pensamentos dos vários segmentos da sociedade.

Essa situação, claro, também aponta para uma interferência de determinadas classes na disseminação de aparentes verdades, além de determinar quais os materiais a que a comunidade ao redor da biblioteca terá acesso. Os usuários devem se moldar ao que está disponível. Mais do que isso, as formas para que eles possam usufruir do conteúdo desses documentos, apesar de se valer de ferramentas e instrumentos diferenciados do acervo físico, também exigem conhecimentos específicos dos usuários e, de modo semelhante ao que já foi discutido aqui anteriormente, só possibilitam contato com os materiais virtuais se houver uma adequada estratégia de busca e conhecimento da linguagem artificial empregada pela biblioteca. Isso implica no necessário aceite das maneiras de organização da informação determinadas pela biblioteca.

Outros problemas também podem ser destacados, como, por exemplo, a diferença de linguagem das redes. Apesar dos materiais virtuais presentes nas bibliotecas não divergirem, ou divergirem muito pouco, dos materiais físicos – tanto no formato como na linguagem e na estrutura -, em breve, acreditamos, eles incorporarão a linguagem das redes. Nela, os textos devem ser curtos, com uma redação mais inteligível, com temas de interesse não só gerais, mas também de âmbito local (globalização/localismo). Por enquanto, no entanto, as bibliotecas ainda atuam quase que exclusivamente com materiais dentro das características tradicionais, elaborados utilizando a norma culta, a linguagem padrão.

Resgatando o que dizíamos sobre o Serviço de Referência e Informação, se a sua estrutura era – e continua sendo – aquém dos parâmetros entendidos como básicos e mínimos para o atendimento dos usuários, quando as ações empregam a tecnologia e a entrevista de referência – mesmo com a existência de recursos que ajudam, por exemplo, na antecipação das perguntas - deve ser à distância, o trabalho desenvolvido nesse setor da biblioteca é, na maioria delas, precário.

Os sistemas que utilizam a automação estão voltados para os trabalhos de organização da informação, ou melhor, da protoinformação; estão preocupados com o acesso dos usuários aos materiais do que com a apropriação da informação. Nessa ótica, o trabalho da biblioteca se restringe a possibilitar o acesso a materiais.

As discussões aqui levantadas são embrionárias, tendo suas dimensões apenas esboçadas

Falamos muito do usuário, mas tendemos a romantizar nossas ações, estudos e pesquisas sobre ele. O aceitamos, pensamos e o focamos apenas quando ele se adapta ao que nós temos a oferecer, quando ele aceita, passivamente, o sistema sugerido – ou imposto – pela biblioteca e, em última instância, por nós, bibliotecários. (ALMEIDA JUNIOR, 2021)

 

Estas (a informação imprecisa e a morte do usuário) são temáticas que demandam discussões e aqui estão expostas suas bases conceituais ou as que alicerçam as considerações defendidas.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Mediação da informação: um conceito atualizado. In: BORTOLIN, Sueli; SANTOS NETO, João Arlindo dos; SILVA, Rovilson José da (Orgs.) Mediação oral da informação e da literatura. Londrina: ABECIN, 2015. 

ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. O que é informação? In: Almeida Junior, O. F. Infohome [Internet]. Marília: OFAJ, 2019. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=1177

ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. O usuário está morto. In: Almeida Junior, O. F. Infohome [Internet]. Marília: OFAJ, 2021. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=1329

 

(Publicado originalmente em: Almeida Júnior, O. F. (2021). A informação imprecisa e a morte do usuário. In C. R. M. Lima et al. (Org.). Anais do 17º Colóquio Habermas. Rio de Janeiro: Salute, pp. 10-21)

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Junior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.