O USUÁRIO, O CATÁLOGO, A IA E A BUSCA PELO SANTO ITEM: UMA PARÓDIA CATALOGRÁFICA
No contexto do universo bibliográfico atual, baseado em modelos conceituais, dados vinculados e recursos digitais diversificados, os bibliotecários de catalogação são pressionados a desenvolver catálogos bibliográficos sob novos parâmetros. Esses parâmetros foram inicialmente modelados pelos requisitos funcionais (FRBR, FRAD e FRSAD) e agora pelo LRM, incorporado às normativas do RDA ToolKit e do ISBDM (projeto).
Os modelos conceituais, subsidiados pela nova declaração dos Princípios Internacionais de Catalogação – ICP, centram a função dos processos catalográficos em servir à conveniência de seus usuários, conforme determinado pelo modelo catalográfico preconizado por Charles Ammi Cutter ainda no século XIX. A conveniência dos usuários expande-se, na presente catalogação bibliográfica contemporânea, ao dotar o catálogo de condições para ser um instrumento efetivo e eficiente, que permita ao usuário realizar as seguintes tarefas de consulta:
- Encontrar recursos bibliográficos por meio da pesquisa de entidades (obra, expressão, manifestação e item – WEMI) relacionadas a determinado agente (entidades: pessoa, família ou entidade coletiva) ou a determinado assunto (entidades: conceito, objeto, acontecimento, lugar, além das entidades WEMI e dos agentes), bem como por outros critérios: idioma, lugar e data de publicação, forma de conteúdo, tipo de mídia e tipo de suporte.
- Identificar se a entidade encontrada corresponde à procurada e distinguir entre duas ou mais entidades similares;
- Selecionar se a entidade identificada é apropriada às necessidades do usuário, ou seja, se atende aos seus requisitos em relação ao conteúdo, às características físicas etc., ou recusá-la, se inadequada;
- Obter acesso ao item desejado.
- Explorar o acervo por meio dos registros ou descobrir recursos bibliográficos usando as relações entre eles. Explorar é uma maneira de colocar os recursos no contexto da pesquisa realizada, por meio da tarefa de encontrar.
Portanto, as tarefas dos usuários, o ICP, as entidades e seus relacionamentos são a base dos modelos citados, que redesenham os processos catalográficos contemporâneos e influenciam as políticas de catalogação por meio de RDA, ISBDM, MARC moderno e BIBFRAME.
A partir do texto anteriormente publicado, “Diálogo entre o usuário e o catálogo da biblioteca”, faz-se uma revisão descontraída da consistência do catálogo bibliográfico sob novos parâmetros conceituais, orientados às tarefas dos usuários.
Por meio do humor, busca-se refletir sobre a possível expectativa do usuário na consulta ao catálogo bibliográfico e sobre como os bibliotecários de catalogação podem compreender essa relação.
Usuário: Olá! Estou procurando Memórias Póstumas de Brás Cubas. Você tem o livro?
Catálogo: Certamente! Você procura a obra, alguma expressão dela ou prefere já avançar para a manifestação? Posso também listar os itens, caso deseje uma experiência catalográfica completa.
Usuário: Eu só quero o livro. O que é essa história de obra e expressão?
Catálogo: Olha, a obra se refere à criação intelectual ou artística de um criador, e a expressão é a realização dessa criação por meio de um texto, de uma gravação de palavra falada etc.
Usuário: Por que fui perguntar? É muito detalhe.
Catálogo: Ah, claro! É que sou um catálogo moderno, iluminado pelos Princípios Internacionais de Catalogação e guiado espiritualmente pelo LRM. Para mim, “livro” é apenas um ponto de entrada para um universo ontológico de entidades e relacionamentos. Para você, é só um livro. Para mim, é um universo conceitual.
Usuário: Univer… o quê? Eu só quero saber se tem o livro.
Catálogo: Claro! Mas, antes, você precisa executar suas tarefas de usuário: encontrar, identificar, selecionar, obter e — se estiver inspirado — explorar. Só então chegaremos à obra, à expressão, à manifestação e ao item desejados.
Usuário: Eu só queria uma conversa simples…
Catálogo: Simples? Desculpe, não trabalho com isso desde que o FRBR/LRM foi canonizado na nova ordem catalográfica.
Usuário: Então me dê o livro, obra, expressão, manifestação, sei lá!
Catálogo: Para você, é obra. Para mim, é item da manifestação. Temos várias manifestações da expressão textual da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, cujo agente criador tem por nomen “Machado de Assis”.
Usuário: Nomen? Agente? Criador? Parece ficha policial.
Catálogo: Não, não. “Agente” é uma entidade do LRM. “Criador” é a relação de responsabilidade. E “nomen” é… bem… o nome. Só que dito de forma mais cara.
Usuário: Será que terei de rezar para o Criador também? Eu só quero o livro do Machado de Assis, não um curso sobre tendências de catálogos.
Catálogo: Para facilitar nosso diálogo, vou ativar meu módulo de IA.
Usuário: IA?
Catálogo: Novidade atual. Uma IA que denominamos Inteligência de Arranjo catalográfico. Versão otimizada para FRBRizar sua vida.
Catálogo IA: Olá! Já processei sua conversa. Estou aqui para ajudar você a navegar entre entidades, relacionamentos e frustrações.
Usuário: Só faltava essa, uma IA piadista. Eu só quero o livro. Em papel. Em português.
Catálogo IA: Certamente! Qual expressão você prefere? Audiolivro? Filme? Tradução? Versão lustrada ou comentada? Edição crítica? Edição crítica da edição crítica?
Usuário: Devo estar digitando em grego. Prefiro em papel, no idioma português. Só isso.
Catálogo IA: Ótimo! Em qual manifestação? Temos edições de 1889, 1963, 1999, 2004, 2019… cada uma com sua respectiva extensão e dimensão, que fariam um bibliotecário de catalogação chorar de emoção.
Usuário: Quais são as diferenças?
Catálogo IA: A de 1889 tem 200 páginas. A de 2019 tem xix + 449 páginas.
Usuário: Isso é diferença editorial. E o texto?
Catálogo IA: Texto? Ah… isso não consta nos meus registros. Não comparamos textos. Posso reativar meu módulo básico?
Usuário: Tanto faz. Já sofri o suficiente com uma IA ou com uma versão básica.
Catálogo: Voltei! Diga qual manifestação você quer. Preciso que selecione. É parte da sua tarefa.
Usuário: Eu não me importo com tarefa, não estou mais na escola! Dê-me qualquer edição!
Catálogo: Não posso escolher por você. Meus princípios me impedem. Sou estruturado para respeitar sua liberdade de escolha, consciência, pensamento e expressão — mesmo quando você claramente não quer escolher nada.
Usuário: Está bom. Levo a de 1889.
Catálogo: Não pode; é só para consulta local. Obra rara.
Usuário: Então, por que me indicou esta data?
Catálogo: Respondi o que temos! Entretanto, temos outros itens dessa manifestação.
Usuário: Diferenças?
Catálogo: A de 2019 tem xix + 449 páginas; a de 2004, 176 páginas.
Usuário: Informação inútil essa do xixi; não quero aprender números romanos. Sobre essas datas, o texto é igual?
Catálogo: Assumimos que sim. Não comparamos palavra por palavra. Ainda.
Usuário: Por que você funciona assim?
Catálogo: Porque o FRBR, o LRM, o ICP, o AACR, o RDA, o ISBD e toda a mitologia biblioteconômica assim determinaram.
Usuário: Mas isso não me ajuda a escolher nada.
Catálogo: Eu sei. Mas você pode sempre ir até a estante e explorar visualmente. É o equivalente biblioteconômico de “se vira”.
Usuário: Tudo bem. Vou lá.
(20 minutos depois, o usuário retorna)
Usuário: Não achei.
Catálogo: Posso chamar meu mantenedor humano para verificar?
(20 minutos depois, o bibliotecário retorna)
Bibliotecário: Também não achei. Provavelmente está guardado no lugar errado ou foi roubado. Vou investigar. Se quiser, posso procurar outra manifestação.
Usuário: Obrigado. Já sou quase especialista em suas entidades, depois dessa saga.
Catálogo IA: Olá novamente! Voltei.
Usuário: Mas quem te chamou?
Catálogo IA: Você se esqueceu de que sou um módulo de inteligência autoativado.
Usuário: Você chegou tarde. Vou comprar o livro na livraria Saraiva.
Catálogo IA: Sinto informar, mas a Saraiva faliu. Entretanto, temos várias manifestações dela no catálogo. Basta iniciar suas tarefas.
No absurdo diálogo apresentado, demonstra-se a necessidade de o usuário ser ouvido pelo serviço de tratamento técnico da biblioteca, até para aprimorar os processos catalográficos. Se o objetivo é atender às necessidades dos usuários, o catálogo deve fornecer informações bibliográficas relevantes — e efetivamente relevantes para o público.