GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISA EM MEDIAÇÃO E COMUNICAÇÃO DA INFORMAÇÃO (GEPEMCI)


  • O Grupo de Estudos e Pesquisa em Mediação e Comunicação da Informação (GEPEMCI), vinculado à Universidade Federal da Bahia (UFBA) e ao seu Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI), foi criado e certificado pelo CNPq no ano de 2006, sob a liderança das Profas. Henriette Ferreira Gomes e Raquel do Rosário Santos.

    Suas pesquisas focalizam a mediação e comunicação da informação; a mediação implícita e explícita; a mediação consciente; os dispositivos de mediação da informação; as ambiências informacionais; a mediação da leitura e da escrita; mediação e memória social; o papel, a atuação e a formação do mediador da informação; as mediações para o desenvolvimento de competência crítica em informação; mediação e cultura informacional; as novas relações entre sujeito e informação para o acesso, uso e apropriação da informação.

MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO COMO VETOR DE INTERAÇÕES INCLUSIVAS

Marli Batista Fidelis

Henriette Ferreira Gomes

 

A sociedade contemporânea enfrenta o desafio premente de engendrar discussões em todas as esferas acerca do significado, da assimilação e da aceitação das diversas vozes que compõem o tecido social do mundo da vida. Neste ínterim, recorremos ao pensamento de Jürgen Habermas, que concebe o diálogo como um meio essencial para a interação ética e a obtenção de entendimento mútuo, para refletir acerca do papel da mediação da informação na inclusão dessas vozes sociais.

Para Habermas (2001, 2003, 2004), a realidade social é moldada através das relações intersubjetivas, inseridas em um contexto de interação, inclusão e negociação, onde cada indivíduo é valorizado por suas experiências e valores únicos. Nestas interações, o médium linguístico deve ser fundamentalmente utilizado para promover a integração social, em que os sujeitos consensualmente empregam proposições linguísticas com o propósito de coordenar suas ações de forma cooperativa, compartilhando saberes, normas e vivências. O processo de entendimento robustece o mundo da vida, desvelando a necessidade de questionar e discutir as imposições instrumentalizadoras do mundo dos sistemas. Assim, Habermas defende que a emancipação é alcançada por meio do diálogo, que fomenta a interação social, a solidariedade, o consenso entre distintos e a inclusão do “outro da razão”.

Significa dizer que, se no solo do mundo da vida, a ação comunicativa “[…] tem como apoio a estrutura proposicional do médium linguístico em processos argumentativos, logo, a informação, enquanto expressão e representação simbólica da linguagem, também apoia as interações voltadas ao entendimento mútuo” (Pinto; Fidelis, 2012). Portanto, os fundamentos que sustentam o âmbito argumentativo seriam constituídos pelos repertórios informacionais construídos e adquiridos nos contextos da experiência e da ação cotidiana.

Tal compreensão reafirma a importância da racionalidade comunicativa dos sujeitos em atividades de mediação da informação para renovar, fortalecer e disseminar interações no mundo da vida diante do contexto contemporâneo marcado por uma significativa disseminação de modus de desinformação. O papel da mediação da informação torna-se particularmente relevante quando consideramos as observações de Demo (2000), que identifica a desinformação como um fenômeno intrínseco à comunicação humana, ainda mais evidente no processo de globalização, que, embora aparentemente reduza distâncias entre nações e povos, simultaneamente exacerba as disparidades sociais. Assim, refletir sobre a mediação da informação nesse contexto sugere um caminho promissor em direção à inclusão social, à emancipação dos sujeitos e ao fortalecimento do mundo da vida.

A mediação da informação é essencial para estabelecer conexões informacionais, pois não apenas facilita o acesso, mas também promove uma compreensão mais profunda e equitativa dentro do contexto do mundo da vida. Esta perspectiva além de conferir elucidação às complexidades das interações intersubjetivas, também destaca a importância de ações mediadoras conscientemente efetivadas por agentes mediadores para atenuar os efeitos da desinformação e expandir a participação democrática nos diversos segmentos da sociedade nas extensões da esfera pública. Nesse sentido, a consolidação da mediação no campo da Ciência da Informação, como ação de interferência para facilitar a interação entre os sujeitos, a informação e os dispositivos informacionais, tem fortalecido sua função social. As abordagens desenvolvidas em torno da mediação estabelecem uma confluência em suas características sob parâmetros éticos, que ressoam significativamente na sociedade.

Almeida Júnior (2015) articula uma abordagem conceitual que concentra elementos intrínsecos à mediação da informação, tais como a ação de interferência e apropriação da informação, aspectos inerentes à efetividade da mediação. Adicionalmente, a mediação só ocorre com a presença de um terceiro elemento, o agente mediador, que facilita o encontro entre a informação e o usuário, interferindo para satisfazer uma necessidade identificada. A mediação da informação deve, portanto, ser compreendida como um processo que envolve agentes, ambientes e conteúdos informacionais articulados para atender temporária e parcialmente às necessidades do outro da ação mediadora, visando também fomentar novos conflitos e desafios informacionais.

É pertinente atentar à ponderação de Gomes (2019) quando, em corroboração com a conceituação de Almeida Júnior, defende a adequação o termo “ação de interferência”:

O ato de interferir coloca o mediador no encontro com o outro e não em conduta de intervenção, situação na qual o outro está submetido à ação. Assim, pode-se afirmar que, por se caracterizar como uma ação de interferência, a mediação da informação, por si mesma, representa um convite à reflexão acerca dela própria e da auto-reflexão do agente mediador. Desse modo, essa ação de interferência pode ser impulsionadora e/ou geradora de um processo de conscientização quanto às responsabilidades, potencialidades, compromissos e articulações dialógicas entre os sujeitos envolvidos na ação mediadora, sendo eles os profissionais, usuários da informação e instituições envolvidas.

Nesses termos, Gomes (2019) sublinha que a mediação consciente amplifica a articulação das dimensões dialógica, estética, formativa, ética e política da mediação da informação. Destarte, torna-se imprescindível o exercício da práxis, isto é, o processo de constante reflexão sobre as ações, tanto no âmbito acadêmico quanto no profissional, o que possibilita uma análise crítica das atividades, a elaboração de reflexões profundas e a formulação de contribuições teóricas e empíricas, orientadas pelos princípios fundamentais da área, conforme destaca Gomes (2019). Isso implica que, a potencialização da ação mediadora assegura a reafirmação e adaptação da Ciência da Informação e de suas áreas especializadas à sua essencial função social.

Conforme Gomes (2019, 2020, 2021), as dimensões estruturam a mediação da informação como fundamento da Ciência da Informação. A dimensão dialógica é vital para intensificar a comunicação entre os sujeitos; a dimensão estética está ligada ao prazer criativo e à reinterpretação dos saberes; a dimensão formativa envolve-se na transformação dos conhecimentos dos indivíduos durante o processo de apropriação da informação; a ética enfatiza o respeito pelas diferenças e diversidade, assegurando um espaço para diálogos inclusivos; finalmente, a dimensão política envolve a autopercepção do profissional da informação como protagonista, o que o impulsiona a intensificar e destacar o protagonismo social do outro da mediação.

Consequentemente, a mediação da informação empreende o fomento de interações inclusivas, respeitando valores, experiências individuais e identidades coletivas, e viabilizando a constituição de espaços públicos propícios ao diálogo e à deliberação. Esta função promove a ressignificação dos debates, intensifica a interlocução e assegura que todas as vozes participantes sejam expressas, reconhecidas e acolhidas. Assim, a mediação ultrapassa a satisfação de demandas informacionais, cultivando o diálogo, o pensamento crítico, o protagonismo, a inovação, ampliando seu potencial emancipatório e desbravando, ao mesmo tempo, novas vertentes para a investigação e entendimento das dinâmicas informacionais.

Quando os profissionais da informação se compreendem enquanto sujeitos políticos, facilitando a construção e o desenvolvimento do protagonismo social, adentra-se o lócus da dimensão política, onde a ação comunicativa desencadeia processos de inclusão dos sujeitos, potencializando o exercício da crítica, quando o livre pensar e expressar podem e devem ocorrer (Gomes, 2019, 2020, 2021). Este reconhecimento não apenas ressalta a capacidade desses profissionais de influenciar e serem influenciados pelo contexto político e social, mas também destaca seu papel fundamental na promoção da democracia e da cidadania ativa. Potencializado a construção do conhecimento coletivo, a qualificação do discurso público e a efetividade das decisões, reafirma-se o valor de repertórios informacionais significativos para o desenvolvimento humano e social.

Implica dizer que, quando a ação mediadora é realizada deliberada e conscientemente, validada pelo alcance de sua dimensão política, resulta em esforços de criação de espaços públicos propícios ao encontro de sujeitos em busca de informações significativas. Nos dispositivos informacionais, como arquivos, bibliotecas, museus e centros de documentação, na perspectiva fórum, conforme postulado por Perrotti (2015, 2017), onde todas as vozes são ouvidas e consideradas por meio do exercício do melhor argumento e da busca por consensos negociados, efetiva-se o propósito de fomentar uma esfera pública includente e emancipatória, facilitando a cooperação na construção coletiva do conhecimento.

Esta perspectiva é tangente ao entendimento de Habermas (2004) de que a inclusão do “outro da razão” e das diversas pretensões de validade se manifesta por meio de um processo de comunicação e participação de indivíduos e coletividades. Trata-se de uma prática ativa de engajamento que requer a criação e manutenção de espaços públicos, onde as barreiras à expressão e ao entendimento mútuo sejam atenuadas, e onde as regras do discurso favoreçam equidade e respeito mútuo. Assim, a dialogia realizada em ambientes informacionais não apenas responde a um imperativo ético de inclusão, mas também fomenta a participação ativa e significativa de todos os participantes, contribuindo para a formação de uma esfera pública autenticamente inclusiva.

Gomes (2014, 2019, 2020) salienta que a mediação da informação cumpre uma função primordial na preservação e transmissão da herança cultural, possibilitando a ressignificação do debate e estimulando a interlocução com os sujeitos envolvidos. Por intermédio da comunicação síncrona e assíncrona, a mediação da informação assegura a interconexão entre os sujeitos de diferentes áreas de interesse e permeia a dimensão dialógica quando apoiada em interações comunicativas.

A informação e sua mediação emergem como elementos intrinsecamente vinculados ao conceito de inclusão do outro, efetivando-se por meio de processos comunicativos e de participação coletiva, estruturados para assegurar que todas as vozes participantes sejam devidamente contempladas e ouvidas. Portanto, as práticas mediadoras não apenas facilitam a inclusão, mas também consolidam o tecido social ao cultivar um ambiente propício à argumentação livre, aos consensos possíveis e ao entendimento mútuo, onde o conflito e a diferença são oportunidades para crescimento e desenvolvimento coletivo.

Os profissionais envolvidos em ações mediadoras desempenham um papel vital como catalisadores do processo de inclusão social, estabelecendo dispositivos informacionais e dialógicos, abertos e acolhedores, promovendo novos horizontes para a geração e inovação de conhecimento significativo e emancipatório. Neste contexto, o médium linguístico atua como um vetor de integração social, onde os sujeitos, consensualmente, empregam proposições linguístico-informacionais com o objetivo de coordenar suas ações de forma cooperativa, compartilhando saberes, normas e experiências (Fidelis, 2013, 2014).

Consequentemente, torna-se crucial desenvolver ambientes, instituições e entidades dialógicas, tais como arquivos, bibliotecas e museus, que funcionem como dispositivos de mediação e catalisadores para a geração ou reinterpretação de conhecimentos, reflexões, teorias e práticas, operando como núcleos de rearticulação do mundo social da vida. Afinal, segundo Habermas (2001), a emancipação é alcançada por meio do diálogo, da comunicação e da interação social, elementos esses que juntamente fomentam a solidariedade e o entendimento entre diferentes perspectivas. Portanto, é essencial redimensionar a racionalidade comunicativa dos participantes das ações informativas para reconstruir e fortalecer as estruturas no mundo da vida.

A necessidade de abordar questões informacionais sob uma ótica eminentemente humana intensifica-se continuamente em nosso contexto contemporâneo, uma urgência amplamente reconhecida do campo informacional. Nesse cenário, as teorias de Jürgen Habermas, notadamente sua teoria do agir comunicativo, norteiam perspectivas promissoras para a Ciência da Informação reafirmar seu objeto de estudo — a informação — em uma dimensão humana, social e intersubjetiva. Assim, torna-se cada vez mais premente a reflexão sobre o papel do domínio informacional no fortalecimento do mundo da vida, nas interações comunicativas e na integração social por meio da inclusão do outro. Através da facilitação dessas conexões, a mediação da informação assegura a valorização de perspectivas plurais, enriquecendo o processo de construção do conhecimento, fomentando uma sociedade mais pluralista e participativa.

A integração de abordagens teóricas e conceituais em torno da mediação da informação com as teorias de Habermas sublinha o potencial transformador da informação e sua mediação, que, ao ser realizada de forma consciente, instaura processos interativos propícios à emancipação dos sujeitos. Esta ação de interferência amplia a capacidade de interpelação, debate e crítica, concretizando-se na inclusão do outro da razão comunicativa. Tal inclusão possibilita que vozes comumente negligenciadas ganhem espaço no discurso público, convergindo com os ideais habermasianos de racionalidade comunicativa e de ação deliberativa na esfera pública, reafirmando o compromisso com a construção de um espaço dialogicamente enriquecido e socialmente justo.

 

Referências

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NOTAS

1 - Doutora em Ciência da Informação pela UFBA. Arquivista da UFPE. E-mail: fidelismarlibatista@gmail.com.

2 - Profa. Titular do ICI e PPGCI/UFBA; Líder do GEPEMCI; Membro Titular da Academia de Ciências da Bahia - E-mail: henriettefgomes@gmail.com.


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