OS ENTRELACES DA BIBLIOTERAPIA
Pamela Assis
Raquel do Rosário Santos
As práticas da biblioterapia devem ser consideradas como relevantes para a sociedade, porque são desenvolvidas com o objetivo de cuidar do sujeito de maneira humanizadora. Por isso, o entendimento sobre a biblioterapia defendido neste texto é que essa é uma mediação especializada da leitura, em que se realizam atividades de maneira multidisciplinar, pressupondo cuidado e atenção com os sujeitos, tanto o mediador quanto o leitor, uma vez que, nessa prática, existem intencionalidade e propósito terapêutico.
O cuidado com o sujeito é uma característica predominante da biblioterapia. A forma como os mediadores trabalharão esse cuidado e os dispositivos informacionais que utilizam, de modo terapêutico, pode variar de acordo com o tipo da biblioterapia e do grupo que a pratica. Um dos objetivos da biblioterapia é de promover a reestruturação inter e intrapessoal do sujeito e o modo como ele vai se relacionar consigo mesmo e com seus sentimentos. Esse é um processo de (auto)conhecimento, por meio do acesso à informação e à leitura.
Ao perceber que a efetividade biblioterapêutica envolve a informação e a leitura, compreende-se que existe um entrelace da prática com as características da mediação da informação, leitura e mediação da leitura. Portanto, dentre essas características que se relacionam, pode-se citar a aproximação da mediação consciente da informação defendida por Almeida Júnior (2015) e Gomes (2020) com o desenvolvimento prático da biblioterapia, que objetiva contribuir para que o sujeito passe por um processo de (auto)conhecimento e reestabelecimento individual e social. É fundamental que a atuação do mediador seja pautada nas concepções do exercício crítico e consciente. Ao agir dessa forma, além de impulsionar o sujeito a assumir uma conduta diferente em relação aos problemas que enfrenta, o mediador estará assumindo uma postura de cuidado com o outro, favorecendo que esse sujeito se transforme, como também, ocorra uma autotransformação do mediador.
Relaciona-se também a dimensão dialógica da mediação da informação, defendida por Gomes (2014, 2016, 2020), com a importância da comunicação dos sujeitos durante a prática biblioterapêutica, visto que é por meio desse processo que eles respondem às provocações dos mediadores no desenvolvimento da prática. É o espaço de voz crítico e reflexivo proporcionado pela discussão dos dispositivos terapêuticos utilizados durante a ação, em que os sujeitos compartilham suas experiências, suas percepções, podem refletir sobre diferentes perspectivas e experenciar novos olhares na leitura realizada.
No que se refere à leitura, pressupõe-se que é necessário efetivá-la, para que os sujeitos reinterpretem as informações compartilhadas, apropriem delas e estabeleçam aproximações com as próprias vivências. Durante essa reflexão, é provável que, em alguns momentos, eles se concentrem em si mesmos, analisem o que enfrentam e deixem transparecer as emoções e os sentimentos com os quais estão lidando. Nesse contexto, configura-se a aproximação com os níveis de leitura emocional e afetiva, defendidos respectivamente por Martins (1988) e Jouve (2002). Essa “entrega” e a identificação que surgem durante a biblioterapia, por meio dos dispositivos informacionais e da leitura deles, possibilitam o sujeito a ressignificar seus comportamentos e percepções, o que se caracteriza pelo impacto que a prática, quando mediada de forma efetiva, afetiva e consciente, pode proporcionar aos sujeitos.
Com relação a aproximação da biblioterapia com a mediação da leitura, rememora-se os estudos de Bortolin (2010) e Cavalcante (2015) que tratam da mediação da leitura na perspectiva da oralidade. De acordo com Bortolin (2010), tratam-se de interferências nas quais os mediadores poderão utilizar como meio a voz viva ou mediatizada. Para Cavalcante (2015), além de ser um “jogo” de encantamento, trabalhar com a mediação da leitura na oralidade possibilita que exista um processo comunicativo tendo como base as interações sociais.
Ao considerar que a oralidade pode ser entendida como um tipo de comunicação em que o sujeito utiliza a voz e o corpo para se expressar (Bortolin; Cavalcante; Santos Neto; Almeida Júnior, 2015), pode-se afirmar que a mediação da leitura sob a ótica da oralidade possibilita que, no decorrer das atividades biblioterapêuticas, os mediadores possam utilizar tais artifícios para envolver os sujeitos na prática assim como favorecer a compreensão da leitura e a criação de um ambiente propício ao (auto)desenvolvimento. Sobre os sujeitos, pode-se dizer que eles utilizam essas expressões corporais para se fazer compreender, para expor os comentários e as reflexões que alcançaram durante o processo de apropriação da informação e do dispositivo.
Nessa perspectiva, os princípios que podem ser explorados através da mediação da leitura são fundamentais para que a leitura realizada pelos sujeitos na prática da biblioterapia seja base para a ação (trans)formadora que a informação possibilita, no sentido de potencializar seu desenvolvimento cognitivo, comunicacional, crítico e social. E embora esse entrelace não seja explícito na literatura que trata da biblioterapia, existem indícios que demonstram a importância dessas características na prática.
Percebe-se que os mediadores que desenvolvem a biblioterapia devem tomar como base os princípios da mediação da informação e refletir sobre os conceitos e os tipos de aplicação. O entrelace da biblioterapia e a mediação da informação reforça e justifica porque essa prática é tão importante e deve ser pesquisada e aplicada em sociedade, uma vez que possibilita ao sujeito refletir sobre si mesmo e sobre suas emoções, informar-se, tomar posição e agir como um protagonista social. Portanto, a mediação da informação subsidia os estudos e a prática da biblioterapia, visando considerar o sujeito como um ser que se desenvolve por meio da informação, sofre interferência, influencia as atividades mediadoras e age a favor das mudanças necessárias para ressignificar sua vida e as dos demais sujeitos. Não se trata apenas do afeto, mas também da tomada de consciência por meio do afeto e da reflexão de si e do outro.
Nota: Este texto é um recorte da dissertação intitulada Biblioterapia: entrelaces da mediação da informação com a mediação da leitura, desenvolvida por Pamela Oliveira Assis e orientada pela Profa. Raquel do Rosário Santos, na Universidade Federal da Bahia.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Mediação da informação: um conceito atualizado. In: BORTOLIN, Sueli; SANTOS NETO, João Arlindo dos; SILVA, Rovilson José da (Org.). Mediação oral da informação e da leitura. Londrina: ABECIN, 2015. p. 9-32.
ASSIS, Pamela Oliveira. Biblioterapia: entrelaces da mediação da informação com a mediação da leitura. Orientadora: Profª. Drª. Raquel do Rosário Santos. 2022. 201 f. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) – Instituto de Ciência da Informação, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2022. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/bitstream/ri/36819/3/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20Pamela%20Oliveira%20Assis%20-%20Vers%C3%A3o%20final.pdf. Acesso em: 22 jul. 2024.
BORTOLIN, Sueli. Mediação oral da literatura: a voz dos bibliotecários lendo ou narrando. 232 f. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) – Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho (UNESP), São Paulo, 2010. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/103349. Acesso em: 10 fev. 2021.
BORTOLIN, Sueli; CAVALCANTE, Luciane de Fátima Beckman; SANTOS NETO, João Arlindo dos; ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Oralidade, mediação da informação e da literatura na escola. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 16., 2015, João Pessoa. Anais eletrônicos [...]. João Pessoa: UFPB, 2015. Disponível em: http://www.ufpb.br/evento/index.php/enancib2015/enancib2015/paper/viewFile/3013/1047. Acesso em: 10 jan. 2021.
CAVALCANTE, Lidia Eugenia. Mediação e narrativa na voz dos contadores de história. In: BORTOLIN, S.; SANTOS NETO, J. A. dos; SILVA, R. J. da (Org.). Mediação oral da informação e da leitura. Londrina: ABECIN, 2015. p. 107-124.
GOMES, Henriette Ferreira. A dimensão dialógica, estética, formativa e ética da mediação da informação. Informação & Informação, Londrina, v. 19, n. 2, p. 46 – 59, maio./ago. 2014. Disponível em: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/
informacao/article/view/19994/19090. Acesso em: 25 maio 2020.
GOMES, Henriette Ferreira. Comunicação e informação: relações dúbias, complexas e intrínsecas. In: MORIGI, Valdir; JACKS, Nilda; GOLIN, Cida (Org.). Epistemologias, comunicação e informação. Porto Alegre: Sulina, p. 91-107, 2016.
GOMES, Henriette Ferreira. Mediação da informação e suas dimensões dialógica, estética, formativa, ética e política: um fundamento da Ciência da Informação em favor do protagonismo social. Informação & Sociedade: Estudos, João Pessoa, v. 30, n. 4, p. 01 – 23, out./dez. 2020. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/ies/article/view/57047. Acesso em: 28 dez. 2022.
JOUVE, Vicent. A leitura. Tradução Brigitte Hervott. São Paulo: UNESP, 2002
MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. 9. ed. São Paulo: Brasiliense, 1988. Disponível em: https://pt.scribd.com/doc/30652716/O-que-e-Leitura-Maria-Helena-Martins. Acesso em 18 ago. 2020.