MEDIAÇÃO CULTURAL E MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO: INTERLIGAÇÕES ANALISADAS À LUZ DO FILME “AINDA ESTOU AQUI”
Henriette Ferreira Gomes
Sob a inspiração da qualidade e repercussão nacional e internacional do filme brasileiro “Ainda estou aqui”, algumas reflexões emergiram acerca da interligação e até interdependência entre mediação cultural e a mediação da informação para o processo de conscientização social e o desenvolvimento do protagonismo social, motivando a produção deste texto.
A representação artística do filme marca uma simbologia de resgate da memória social, da memória das lutas da sociedade brasileira pela soberania nacional por meio da história da família Paiva, da Eunice Paiva e do seu marido e deputado federal Rubens Paiva no período do golpe cívico-militar de 1964.
O filme se concentra na história dessa família, trazendo à tona a dor e os impactos da violência da ditadura cívico-militar no Brasil na vida das famílias brasileiras, em especial daquelas, cujos membros lutavam pela soberania nacional e pela democracia. Nesse sentido, o filme, na condição de dispositivo de mediação, exerce sobre seus expectadores uma mediação cultural capaz de tocar as emoções mais universais como aquelas ligadas à luta pela sobrevivência, pela proteção da família, pela superação da dor para ressignificação da vida que segue em frente, pela dignidade que jamais abandona os princípios de justiça.
Ao traduzir um fato da realidade, sob a orientação da arte da interpretação e da arte cinematográfica, o filme “Ainda estou aqui” se firma como um exemplo da força da arte e da produção cultural, que se impõe como interveniente na movência de emoções e de abertura para um processo de tomada de consciência sobre a história do Brasil e sobre a repercussão da ditadura cívico-militar na vida social brasileira, que vigorou entre os anos de 1964 e 1985.
Do ponto de vista da produção cultural, pode-se avaliar a qualidade da adaptação da história a partir do livro de mesmo título e de autoria do escritor Marcelo Rubens Paiva, filho do casal Rubens e Eunice Paiva, assim como a partir da qualidade do roteiro, da trilha sonora, da fotografia e da excelência das interpretações dos/as atores/as, com especial destaque para a atriz Fernanda Torres. No entanto, sob esse mesmo ponto de vista, merecem consideração as estratégias e os investimentos voltados à divulgação nacional e internacional do filme, movimentando a expansão das exibições, audiências e avaliações dos críticos de cinema e das agências premiadoras das produções culturais no âmbito cinematográfico que conduziram às conquistas do Oscar de Melhor Filme Internacional e do Globo de Ouro de Melhor Atriz por Fernanda Torres. Esses aspectos encontram tradução em Teixeira Coelho (1997) que entende a produção cultural como um fenômeno integrado por camadas mercadológicas que envolvem a força criativa da arte, assim como a fabricação cultural envolvendo a articulação da arte com os mecanismos mercadológicos. Contudo, reconhecer sua condição de objeto da fabricação cultural, não retira da produção cultural sua potência mediadora, capaz de tocar a emoção e a reflexão das pessoas, que têm a oportunidade de conhecê-la, apreciá-la e se emocionar, como também de refletir sobre o fato narrado e seus impactos nas vidas das famílias brasileiras e na história do País.
Por outro lado, para compreender a repercussão do filme na tomada de consciência dos sujeitos sociais, parece interessante considerar a distinção feita por Teixeira Coelho (1997) entre ação cultural e fabricação cultural. Se a fabricação cultural se ocupa da produção e promoção do objeto cultural, a ação cultural é um ato que tem como objetivo central a intermediação para o contato entre o público e esse objeto (produto cultural), o que nos permite compreender a ação cultural como mediação cultural, ressaltando que esta carrega a característica de uma ação de interferência.
Na perspectiva de Teixeira Coelho (1997, p. 247), a ação cultural corresponde a mediação cultural que busca
[...] promover a aproximação entre indivíduos ou coletividades e obras de cultura e arte. Essa aproximação é feita com o objetivo de facilitar a compreensão da obra, seu conhecimento sensível e intelectual – com o que se desenvolvem apreciadores ou espectadores, na busca da formação de públicos para a cultura – ou de iniciar esses indivíduos e coletividades na prática efetiva de uma determinada atividade cultural.
A organização de exibições de uma produção cultural nos ambientes informacionais como bibliotecas, centros culturais ou outros dispositivos informacionais, com o objetivo de assegurar o acesso a esse produto cultural por parte significativa da população, que não dispõe de recursos financeiros suficientes para frequentar as salas de cinema no País, se conforma como ação mediadora, por seu sentido de interferência, como uma ação cujo propósito é o de promover o encontro entre a obra artística e os sujeitos sociais.
Por outro lado, Perrotti e Pieruccini (2014) defendem que a mediação cultural sempre está inserida num contexto social e se volta ao estímulo e facilitação da relação entre os sujeitos sociais e os bens culturais, com o objetivo de gerar condições ao processo de apropriação cultural, quando os sujeitos sociais têm a oportunidade de atribuir sentido no contato com o produto cultural. Na concordância com essa abordagem, que destaca haver nesse encontro a possibilidade de atribuição de sentido e apropriação cultural, fica subentendido que a mediação cultural não se desvincula do conteúdo informacional integrante da produção cultural.
Na nossa compreensão há, sem dúvidas, informações de diversos níveis e importância no interior de uma produção cultural e aqui, então, defendemos que a mediação cultural encontra o ponto de conexão com a mediação da informação. Os produtos culturais carregam informação, sendo assim, a mediação cultural e a mediação da informação estão interligadas sob o objetivo de promover o acesso com as condições para a apropriação dos conteúdos informacionais, tanto aqueles expostos pela produção cultural, quanto aqueles conteúdos não apresentados, mas subjacentes, que devem ser identificados, levantados e expostos pela mediação da informação.
O cerne dessa interligação consiste na missão de gerar as condições de reflexão crítica e apropriação desses conteúdos (expostos e subjacentes). Nesse sentido, pode-se concluir que a mediação cultural reivindica a mediação consciente da informação contida no produto cultural, demandando o alcance das dimensões dialógica, estética, formativa, ética e política da mediação da informação que, conforme Gomes (2020), favorece o processo de apropriação da informação e semeia o desenvolvimento do protagonismo social.
Quaisquer produções culturais contêm conteúdos informacionais e por isso cobram uma mediação capaz de contribuir para que seu público experimente emoções, intuições e percepções no contato com a produção cultural. Esse “ambiente semântico” guarda uma potência impulsionadora de uma tomada de consciência. Mas essa potência, por outro lado, convoca a mediação consciente da informação para que seu público possa tomar contato e se apropriar de um leque informacional, interligado, embora não abordado diretamente por esse produto cultural.
Enquanto a audiência do filme, resultante da ação de mediação cultural, toca a emoção do público, acionando memórias ou gerando percepções mobilizadoras de uma tomada de consciência, ou ainda acionando o desejo de melhor conhecer o fato narrado, a mediação consciente da informação tem a missão de promover o encontro com um conjunto maior de informações, orientada por parâmetros de confiabilidade e qualidade dos conteúdos.
As emoções e os encantamentos do público no encontro com uma produção cultural são geradores do impulso volitivo de conhecer e compreender mais sobre o fato narrado pela produção cultural. Isso representa uma abertura para o acesso a novas informações relacionadas ao fato. Nesse sentido, pode-se associar, tanto o produto cultural quanto a ação cultural, a arenas convocatórias do conhecer mais, o que enseja a intensificação da mediação consciente da informação que, por seu lado, guarda a potência qualificadora, materializada no cuidado com a identificação e exposição de informações consistentes e qualificadas, atuando pela expansão dos conhecimentos em torno do fato narrado. A mediação consciente da informação tem a missão e também a condição de expandir o contato do público com novos conteúdos informacionais interligados àquele apresentado artisticamente pela produção cultural, que sempre se faz a partir dos cortes e destaques ensejados pela ótica e percepções das pessoas autoras das obras artísticas.
Dessa maneira, evidencia-se a missão da mediação da informação de agregar à cena da mediação cultural, outros conteúdos informacionais que ampliam o conhecimento acerca dos fatos, de promover o contato do público com novas informações relacionadas ao conteúdo representado no produto cultural.
Tomando como referência a possibilidade de mediação cultural voltada ao acesso ao filme “Ainda estou aqui”, encontramos a sinalização da importância da convocação de ações de mediação da informação, que sejam capazes de desvelar e expandir a compreensão acerca de uma página trágica e injusta da história do Brasil, quando a sociedade brasileira foi submetida a uma ditadura cívico-militar. Mas isso implica na exigência da mediação consciente da informação e de mediadores/as atuando como intelectuais orgânicos/as, a partir da concepção gramsciana (Gramsci, 1997).
Mediadores/as conscientes e engajados/as nas lutas pela construção de uma sociedade mais justa identificam o seu papel de intelectuais orgânicos e se comprometem com essa missão. Nesse sentido, esses/as mediadores/as precisam identificar, compreender e atuar na interligação entre a mediação cultural e a mediação da informação, orientados/as pelo objetivo de intensificar a tomada de consciência, o debate coletivo e a apropriação do conteúdo informacional “habitante” do produto da cultura, mas também de outros conteúdos informacionais interligados, agregando à emoção e percepção imediatas na audiência do objeto da cultura, uma compreensão mais verticalizada e crítica.
Pode-se então compreender o filme “Ainda estou aqui”, um produto cultural, como um dispositivo de mediação cultural que convoca a mediação da informação, desafiando o/a mediador/a consciente a realizar ações de mediação das informações capazes de ampliar a leitura dos fatos narrados no filme e a possibilidade de tomada de consciência do público, assim como a apropriação de informações que ampliem e transformem a compreensão da realidade histórica desses fatos.
Em uma perspectiva orgânica, voltada à tomada de consciência e ao processo de apropriação, uma ação mediadora para o acesso ao filme (mediação cultural) convoca a mediação consciente da informação. Esta deve se conduzir como ato voltado à ampliação do acesso e do debate, de modo a gerar as condições necessárias ao processo de apropriação de informações que contribuam com a expansão da compreensão acerca do fato representado pelo filme.
Um exemplo que reforça esse argumento relaciona-se à incontestável importância da leitura do livro de Marcelo Rubens Paiva intitulado “Ainda estou aqui”, assim como de outros itens informacionais que reportam os fatos abordados no filme, a exemplo do Relatório da Comissão Nacional da Verdade, assim como dos relatórios das Comissões Estaduais da Verdade.
A leitura do livro do Marcelo Rubens Paiva já amplia a percepção do fato representado no filme, por conter informações que detalham passagens e fatos. Uma ilustração disso refere-se à última cena do filme, na qual a atriz Fernanda Montenegro representa Eunice Paiva, no final da sua vida e já acometida pelo Mal de Alzheimer em estado avançado, quando observava atentamente a televisão que apresentava uma matéria sobre as brutalidades cometidas no período da ditadura cívico-militar, apresentando a imagem do Rubens Paiva e reportando seu desaparecimento. No filme, a sua produção cultural optou por não traduzir plenamente o relato do Marcelo Rubens Paiva no livro, ao relatar que nesse momento, apesar do Alzheimer, Eunice Paiva expressou também com palavras o seu lamento sobre o sofrimento do marido. Aqui se observa o quanto a leitura do livro, amplia a compreensão do fato, do contexto, da resistência e postura dos envolvidos e até mesmo quanto aos aspectos emocionais representados no filme.
No entanto, por seu lado, o livro também traz a percepção de um filho, Marcelo Rubens Paiva, acerca da força e do exemplo da sua mãe Eunice Paiva. O produto cultural livro traz a escrita de si do Marcelo, já que o autor fez suas escolhas para relatar o fato, em especial para traduzir e homenagear sua mãe, buscando ressaltar seu exemplo de resiliência e resistência, de capacidade de luta e ressignificação da vida. Essa realidade de escolhas e exposição seletiva de conteúdos informacionais, inevitáveis na produção de obras culturais, indica que a consolidação da tomada de consciência pelo público e o acionamento do processo de apropriação das informações demandam ações de mediação consciente da informação, capaz de colocá-lo em contato com outras informações relacionadas.
A mediação consciente das informações acerca da história narrada e representada em “Ainda estou aqui”, tanto no livro quanto no filme, tem a potência de ampliar a compreensão dos sujeitos sociais acerca do fato e seu contexto sócio-histórico. Ela tem a missão importante de colocar na cena mediadora outros itens informacionais capazes de informar maiores detalhes relacionados àquele contexto político que gerou sofrimento. A mediação consciente da informação tem a missão de promover acesso a novas informações sobre os fatos conectados à história representada, assim como sobre o sofrimento a que foram submetidos o povo brasileiro e a democracia no Brasil.
Enfim, cabe à mediação consciente da informação a promoção do acesso qualificado a outros itens informacionais que coloquem em comum os fatos que motivaram a atrocidade cometida contra Rubens Paiva e sua família, que levaram ao seu sequestro e assassinato, cabendo ainda à mediação consciente da informação a instalação do fórum, promovendo o debate em torno desses conteúdos informacionais, ampliando e qualificando as percepções geradas na audiência do filme e na leitura do livro.
Assim, a mediação consciente da informação enfrenta o desafio de, no espaço crítico, promover o acesso a outros conteúdos informacionais ligados ao produto cultural em foco, promovendo o debate acerca desses conteúdos e fatos históricos, de modo que os sujeitos sociais possam ter contato com as produções culturais (filme e livro), carregadas da perspectiva da escrita de si, conectando essas representações do fato com informações que reportam detalhes com consistência sobre o fato narrado e o seu contexto histórico.
Enfim, a mediação consciente da informação tem a missão de proporcionar aos sujeitos sociais as condições de conectar às escolhas artísticas e às escritas de si que marcam as produções culturais (livro e filme), outras informações ligadas aos fatos narrados e representados, fazendo a travessia complexa entre percepções e emoções e as análises históricas e sociológicas acerca desses fatos, trazendo à tona as contradições e as diversas camadas de conformação deles, ofertando as condições para a construção do debate coletivo em torno desses conteúdos informacionais, possibilitando aos sujeitos sociais o redimensionamento dos seus conhecimentos e uma abertura ao processo contínuo de conscientização acerca dos fatos históricos e da realidade social.
Referências
AINDA estou aqui. Dirigido por Walter Salles. Rio de Janeiro, 2024. 136 minutos. Gênero: Biografia. Drama. História nacional. Produção Brasil/França.
GOMES, Henriette Ferreira. Mediação da informação e suas dimensões dialógica, estética, formativa, ética e política: um fundamento da Ciência da Informação em favor do protagonismo social. Informação & Sociedade, João Pessoa, v. 30, n. 4, p. 1-23, out./dez. 2020. Disponível em: file:///C:/Users/henri/Downloads/pablonaba-02-mco%20(4).pdf. Acesso em 19 fev. 2025.
GRAMSCI, Antônio. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.
PAIVA, Marcelo Rubens. Ainda estou aqui. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2015.
PERROTI, Edmir; PIERUCCINI, Ivete. A mediação cultural como categoria autônoma. Informação & Informação, Londrina, v. 19, n. 2, p. 1–22, maio/ago. 2014. Disponível em: https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/informacao/article/view/19992/1734. Acesso em: 19 fev. 2025.
TEIXEIRA COELHO, José. Dicionário crítico de política cultural. São Paulo: Iluminuras, 1997.
Henriette Ferreira Gomes - Doutora em Educação; Profa. Titular do Instituto de Ciência da UFBA e do PPGCI/UFBA, Coordenadora do Gepemci e Acadêmica Titular da Academia de Ciências da Bahia. - E-mail: henriettefgomes@gmail.com