MEMÓRIA, OU 120 DOCUMENTOS POSSIVELMENTE IRRELEVANTES
Lorena Nascimento Quintas
Memória. Um elemento prevalente dos passados familiares e coletivos em um aspecto social.
Como uma bacharel em Arquivologia, uma significante parte da nossa formação foi a Análise Documental, o que analisa tematicamente um documento e seu contexto histórico-econômico-social (Richardson et al., 1999), independente de seu suporte (May, 2011), como a forma escrita comum na graduação e em estágios profissionais, ou em sua forma digital, ou até abstrata, se considerar a informação como este fenômeno sem uma forma concreta.
O trabalho de um arquivista, então, seria realizar esta análise para posteriormente indicar a preservação temporária, permanente ou o seu descarte direto de acordo com uma tabela de temporalidade.
Esta é uma prospectiva gerenciável em um vácuo. Arquivos familiares, arquivos institucionais. Mas, quando a informação está na Internet, com um potencial virtualmente infinito de acúmulo, de geração, de bilhões de perspectivas, entre um profissional, um entusiasta e a pessoa sem um conhecimento para a gestão da informação?
Esta reflexão é provocada com certos espaços que ocasionalmente visito. Existe um nicho online, que se assemelha a uma arqueologia digital, composto de comunidades da chamada lost media. Um grande recurso deste nicho, a Lost Media Wiki, fundada em 2012, com o objetivo de identificar e procurar por mídia audiovisual, iconográfica, ou de outros suportes que não estejam de acesso público.
Figura 1: Página principal da Lost Media Wiki
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| Fonte: LMW, [2026]. |
O próprio site contém seu próprio fórum e administradores para sua gestão. No entanto, ainda se levanta uma reflexão sobre a subjetividade para o que, na Arquivologia, seria uma análise documental, mas com um twist: ao invés de julgar a informação como essencial para preservação ou como descartável, como julgamos a relevância de uma informação para atuar em uma busca de sua veracidade e de seu acesso, quando as fontes destas informações são de origem anônima?
Figura 2: Postagens de lost media dos fóruns da Lost Media Wiki
Fonte: LMW, [2026].
Não apenas o anonimato pode ferir a credibilidade de uma informação, mas também como a natureza incrivelmente vasta da internet, de fontes de informação de alcance global; uma mediação instável e de valor incrivelmente subjetivo, fora dos padrões seguros da gestão da informação institucional do senso comum arquivístico.
E estas circunstâncias levantam uma questão também exterior ao nicho. Não apenas que a relevância e a confiabilidade da informação seja incerta em uma bolha, mas estes elementos se agravam ainda mais se considerando a memória geral, coletiva.
O que seria a relevância de identificar, validar, buscar e disponibilizar publicamente uma informação que seja, por exemplo, uma vinheta de jornal, um aplicativo de anos atrás que “sumiu” do público, ou um episódio de um programa de televisão infantil, para o grande público? Não seria mais importante realizar a “escavação”, preservar e permitir a exibição pública de alguma gravação governamental, ou de impacto jurídico de amplo alcance?
A indiferença subjetiva, então, é a maior assassina da memória. É uma realidade onde a informação nunca esteve tão indiferente, excessiva e explosiva como antes, leva à uma pergunta sem uma resposta definitiva. O certo é que é impossível resgatar toda a informação antes mediada. Uma informação que antes tivemos nas nossas vidas talvez chegue ao nosso esquecimento, ou, eventualmente, alguém na internet terá a curiosidade de perguntar sobre, e talvez o nosso consciente nem tenha a ciência de que alguém além da nossa pessoa dá valor a ela.
Referências
LOST MEDIA WIKI. Lost media | Forums. [S. l.]: LMW, [2026]. Disponível em: https://forums.lostmediawiki.com/board/2/lost-media. Acesso em: 20 jul. 2026.
_____. The Lost Media Wiki. [S. l.]: LMW, [2026]. Disponível em: https://lostmediawiki.com/Home. Acesso em: 20 jul. 2026.
MAY, T. Documentary research: excavations and evidence. In: _____ Social research: Issues, Methods and Processes. 4 ed. New York: McGraw Hill, 2011, p. 191-218.
RICHARDSON, R. J. et al. Análise de Conteúdo. In: _____ (orgs.). Pesquisa Social: Métodos e Técnicas. 3 ed. São Paulo: Atlas, 1999, p. 220-244.
