PRODUTIVIDADE OU CRIATIVIDADE? E O ECO RESPONDEU: DADE
Thamiris Iara Sousa Silva
Quando criança li um poema da Cecília Meireles intitulado “O eco”, abaixo segue o poema que é essencial para nossa leitura de hoje. Calma...eu prometo que fará sentido (risos).
O menino pergunta ao eco
onde é que ele se esconde.
Mas o eco só responde: "Onde? Onde?"
O menino também lhe pede:
"Eco, vem passear comigo!"
Mas não sabe se eco é amigo
ou inimigo.
Pois só lhe ouve dizer:
"Migo!"
A primeira vez que li esse poema fiquei impressionada, me coloquei no lugar do menino, fiquei inquieta com as meias respostas do eco, que nada diziam. E agora, me sinto da mesma forma quando em uma roda de pós-graduandos chega a conversa de quão exaustivo é ter que produzir pesquisa em grande escala, como se, como diz uma amiga minha, tivéssemos artigos e mais artigos congelados, prontos para serem publicados, como se fossem alimentos pré-cozidos. Eu adoro essa ilustração dela, expressa bem a sensação que é não ter tempo para produzir, mais que isso, não há tempo para criar, sim, para criar.
A criatividade, em geral, é associada ao mundo das artes, às vezes vai para um lugar abstrato, como se ser criativo fosse um dom. Comecei a pensar sobre ela depois de uma conversa com um colega de doutorado que me trouxe seus pensamentos sobre a criatividade, e com essa colega entendi que não nos é dito que em todo e qualquer processo de produção nós exercemos a criatividade, inclusive na produção acadêmica, onde damos vida a pesquisas que outrora não existiam.
Para criar é preciso ser criativo, e para ser criativo é preciso ter tempo para ler, para ter experiências, para se apropriar desse conhecimento novo; nesse processo até o descanso precisa existir. Mas, como fazemos isso se a exigência da produtividade fica gritando: go, go, go?
Por isso que nessa encruzilhada, criatividade versus produtividade, eu me sinto como o menino que conversa com o eco. Eu pergunto para o eco: produtividade ou criatividade? E o eco responde: dade. Ou seja, fico sem resposta.
A questão não é exatamente qual é a mais importante, se a produção ou a criação, e sim como o sistema social da atualidade faz com que uma anule a outra; por que não? Esse discurso de produção ininterrupta não é um “privilégio” somente do mundo acadêmico, esse é o nosso estilo de vida hoje. Afinal, quem nunca sentiu que estava atrasado na própria vida? Enquanto os outros parecem que produzem e produzem, não sei se algo bom, mas estão produzindo.
Junto da era da produtividade vem a exigência da performance, esta que é sustentada pelas redes sociais, e que por sua vez monetiza tudo, as pessoas estão ganhando dinheiro para mostrar sua rotina. Não é uma crítica, eu mesma gosto muito das redes sociais. Mas neste cenário e neste sistema capitalista, me pergunto se tem algo que não seja vendável.
Lembram daquela expressão: você é o que você tem? Na era da produtividade, a expressão pode ser: você é o que você produz. Preciso destacar que ambas as expressões são horríveis. Mas, e se eu não produzo nada? Não sou alguém? Faço o que com a minha subjetividade? Com meus conhecimentos bobos que adquiri por pura curiosidade? Com os meus desejos que nada têm a ver com produção, monetização ou performance?
E como não somos fragmentados, essa relação com o mundo reflete em nossa atuação como pesquisadores. Para mim é estressante pensar sobre qual caminho tomar quanto a minha própria forma de fazer pesquisa, pois se decido que serei produtiva coloco em risco a qualidade da minha produção, pois não há como publicar muitos artigos e ter todos eles com minha melhor dedicação. É impossível. Ao mesmo tempo, penso que se decido prezar pela criatividade, isso quer dizer que não terei um grande quantitativo de produções científicas, e isso faz com que eu fique “para trás” na corrida acadêmica; porque como dito antes, para criar é preciso tempo, e precisar de tempo não deveria ser um problema, o tempo ainda é o mesmo, nós que estamos acelerados. Mas, na lei da produtividade não temos tempo, paradoxalmente, estamos sempre perdendo o tempo que não temos.
Critiquei o eco por dar respostas que nada dizem, mas eu também não tenho uma resposta significativa para dar. Mas, quero dar algumas dicas de como trato o meu processo criativo e como faço para não sucumbir às exigências da produtividade; vamos a uma pequena lista:
1 – Se você faz terapia, fale do teu processo criativo com a sua psicóloga; Quando comecei a fazer terapia, foi muito importante trabalhar a forma como eu me aproprio do conhecimento e como o construo antes de ir para o papel, isso me ajudou a resolver a procrastinação e a lidar melhor com a avaliação do meu orientador e dos demais pareceristas pelas quais meus escritos precisam passar.
2 – Provavelmente, se tu nunca pensou no teu processo criativo tu deve agora estar pensando que não tem ele; venho te informar que todo mundo tem o seu processo criativo, talvez te falte nomeá-lo. Preciso te informar também que coisas como insônia, choro, ansiedade, entre outros sintomas podem fazer parte do teu processo de criar, não é a toa que toda vez que tu precisas começar aquele artigo tu ficas em estado de alerta. Assustou com o quanto eu sei sobre o teu processo criativo? Calma! Eu não estou te espionando, eu sou só uma pesquisadora como tu (risos).
3 – Invista em autoconhecimento o suficiente para não cair na armadilha da comparação. Se você sabe o que está fazendo e o valor disso, não vai se abalar porque fulano e beltrano estão fazendo diferente de você.
4 – Por último e não menos importante: a produtividade, um currículo lattes cheio são interessantes, mas ter tempo para criar e fazer pesquisas que são significativas ao seu ponto vista também é; aqui é preciso escolher e arcar com as consequências da sua escolha, porque para o bem ou para o mal é melhor que você tenha decidido. Eu fiz a minha escolha, e já ganhei e perdi coisas por conta dela, mas foi a decisão que eu tomei, e isso é muito importante para a minha jornada como pesquisadora.
Espero que esse texto tenha lhe ajudado a refletir, sei que é difícil remar contra a maré, mas se você sabe para onde quer ir, então vale a pena.
Referência
MEIRELES, Cecília. O eco. In: AIOLFI, Fábio. Blog Mundo da Poesia Infantil. [S. l.], 14 jun. 2010. Disponível em: Mundo da Poesia Infantil: O Eco. Acesso em: 4 fev. 2026.