LEITURAS E LEITORES


VIDA E POESIA

Homem e poesia, reflexo um do outro. Difícil pensar no ser humano, em sua evolução e não pensar na poesia. Dos textos mais sagrados aos mais profanos, a poesia sempre esteve presente. Por exemplo, na Bíblia, em Gênesis, a origem do mundo é apresentada de forma poética:
No princípio, Deus criou o céu e a terra.
A terra estava sem forma e vazia;
as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso
soprava sobre as águas
Cântico dos Cânticos, na Bíblia, são cantos populares de amor usados, provavelmente, em festas de casamento na época do rei Salomão. Há a fala do amado e da amada, além do coro. No trecho a seguir a amada descreve seu amor:

O meu amado é branco e rosado
e se destaca entre dez mil.
Sua cabeça é ouro puro,
Uma copa de palmeira seus cabelos,
negros como o corvo.
Seus olhos...são pombas
à beira de águas correntes:
elas se banham no leite
e repousam na margem.
Suas faces são canteiros de bálsamo,
colinas de ervas perfumadas.
Seus lábios são lírios
Com mirra que flui
E se derrama.

No período pré-histórico, ainda sem o domínio da escrita, o homem desenhava. A princípio, representação daquilo que via ao seu redor, posteriormente os desenhos tornaram mais simbólicos e daí adveio a escrita e, com ela, a possibilidade do homem comunicar-se com maior precisão e principalmente expressar emoções e sentimentos. Surge a escrita e, com ela, a possibilidade de expressão por meio de versos.

Cada época à sua maneira, teve e tem o seu modo de expressão poética. Um dos mais conhecidos poemas de que se tem registro da Antigüidade chama-se Ilíada do poeta Homero. Data de aproximadamente três mil anos atrás. No canto V dessa epopéia, o leitor é levado ao campo de batalha troiano e luta ao lado do príncipe Heitor na tentativa de subjugar os gregos.

Ainda que sob pressão de Ares forte e de Heitor,
os Argivos nem procuravam fugir para o lado das naves escuras,
nem conseguiam forçar o inimigo; mas cedem, recuando,
por terem visto que ao lado dos Teucros lutava Ares forte.
Qual o primeiro, qual o último, ali, da existência privavam
Ares de bronze e o alto Heitor, o guerreiro nascido de Príamo?
A força da luta. Vida e morte. Os versos conservam a dramaticidade da batalha, a heroicidade e, principalmente, a humanidade. A vitória dos troianos é fugaz como a vida de Heitor, que estará indiretamente ligada à vida de Aquiles. Embora tenha sido composta há muito tempo, nos primórdios da literatura européia, a Ilíada continua a encantar e a inspirar muitas composições contemporâneas, tanto na poesia, como na prosa ou na arte de um modo geral.

Luís de Camões, um dos maiores poetas do século XVI, escreveu um poema de quase nove mil versos para cantar as proezas do seu povo. Em Os Lusíadas, o leitor se encontra com a audácia de um povo destemido, que singrou os mares e chegou à América, à África e Ásia.

Camões trouxe a modernidade à língua portuguesa por meio de sua poesia. Língua, povo e tradições portuguesas e muito lirismo emergem das estrofes de Os Lusíadas, como na estrofe a seguir.

No mar, tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida;
Na terra, tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o céu sereno
Contra um bicho da terra pequeno?
A poesia está presente na vida de cada homem para cantar seus feitos, seus valores, bravura e coragem. Ao mesmo tempo, para dar vazão à angústia humana, a sua consciência de finitude da existência e, principalmente, para que o homem exercite sua humanidade.

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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.