E SE O LIVRO CHEGAR MOLHADO À BIBLIOTECA DA ESCOLA?
De 2002 a 2009, criei e coordenei o Projeto de Leitura da Secretaria Municipal de Educação (SME) de Londrina-PR, intitulado Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes, que tinha como objetivo formar leitores nas mais de 70 escolas municipais.
Naquela época, visitava as bibliotecas e orientava as atividades pedagógicas desenvolvidas com os alunos.
E o que passo a relatar, ocorreu numa dessas visitas. A biblioteca estava localizada num bairro com alta vulnerabilidade social, área de ocupação, com moradias precárias, improvisadas, muitas eram barracos.
A biblioteca da escola daquele bairro era, sem dúvida, a única fonte de acesso das crianças a livros e a gibis naquela região. Era o principal acesso ao material impresso diferente do livro didático.
A situação era tão grave que as crianças só levavam um caderno para casa. O restante do material ficava na escola. Se elas levassem mais de um caderno, havia o risco de o papel ser usado pelos familiares para fazer cigarros.
Naquele contexto surgiu a indagação: como fazer o empréstimo para aquelas crianças sendo que os livros poderiam ter o mesmo destino dos cadernos? A regra, no entanto, era clara: os alunos daquela escola tinham os mesmos direitos de todos os outros da rede municipal.
Antes de dar início aos empréstimos, a escola realizou uma campanha de orientação voltada às crianças e aos pais sobre a necessidade de cuidarem bem dos livros. Assim, foram aproveitadas as reuniões com os pais para explicar a respeito dos empréstimos e dos cuidados com o material que a criança levaria para casa.
Nas primeiras semanas, os alunos manusearam os livros apenas na biblioteca da escola. O passo seguinte foi introduzir os empréstimos. O que causava apreensão com medo de que os livros não voltassem ou que pudessem voltar estragados. Depois, os alunos passaram a levá-los para casa. O projeto incluía uma Hora do Conto por semana e ao fim dela a criança podia escolher uma obra para levar para casa e devolver na semana seguinte.
Organizou-se, também, a orientação para emprestar e devolver. Além das orientações pedagógicas, a direção escolar mantinha normas próprias da instituição, a fim de manter os combinados com os alunos e familiares de cuidar do patrimônio (livro) ao espaço físico, que sempre servia para atividades da comunidade.
A segunda-feira, era o dia de entregar o livro emprestado na semana anterior para turma do João (nome fictício). O aluno chegou à biblioteca com o livro para devolver com algumas páginas grudadas, úmidas. Tinha sido molhado.
A “professora da biblioteca” seguindo as recomendações da instituição, advertiu o aluno que aquilo não podia, que o livro estava danificado e que, até ele fazer a reposição de outro livro, não poderia emprestar na biblioteca da escola.
Essa situação gerou desconforto na professora, embora estivesse seguindo orientações próprias da unidade escolar onde trabalhava, lá no fundo não se sentia confortável com a situação.
Na semana seguinte, fiz visita de orientação pedagógica à biblioteca e, portanto, a professora me relatou o ocorrido com o João. Após ela me explicar que o livro chegou molhado, com páginas grudadas, eu lhe devolvi a pergunta:
- Como foi que molhou?
- Ele falou que foi na casa dele.
- Como é a casa dele?
- (...ela ficou em silêncio...) Por quê? Eu não perguntei isso...
- Então, por favor, pergunte e depois nos falamos.
Na outra semana a professora me ligou, emocionada:
- O João me falou. Ele mora num barraco...e a chuva que deu naquele fim de semana molhou tudo na casa dele ...
...molhou a cozinha
...molhou o sofá
...molhou a cama do João
...molhou a roupa da família dele
E molhou o livro que ele tinha emprestado da escola.
Trabalhar com crianças, especialmente na biblioteca escolar, implica em ouvir, dialogar com elas a respeito daquilo que trazem, dizem diretamente e, também, com aquilo que às vezes não dizem, mas que o adulto deve estar atento para interpretar ou buscar compreender os silêncios das crianças.