LEITURAS E LEITORES


EXPRESSÃO PESSOAL E ARTÍSTICA DAS CARTAS

"Tua recordação só me inunda de alegria e suavidade*", assim Mário de Andrade se dirigia à pintora Tarsila do Amaral numa de suas cartas para ela, que estava em Paris, em 1923. Houve um tempo em que a carta era, praticamente, o principal meio de comunicação entre as pessoas. Dentro de um envelope, frases que tocam o coração, causam rompimento e desfazem mal-entendidos.

Muitos têm preconizado o "fim das cartas". Parece que o mundo tornou-se rápido demais e não há mais tempo para arrumar papel, envelope, caneta e um lugar mais quieto para se redigir uma mensagem a alguém a quem consideramos. Dobrar, fechar, levar ao correio, selar e despachar. Não parece muita coisa? Seria realmente o fim das cartas? As correspondências, de agora em diante, estarão restritas ao meio eletrônico?

Todas essas considerações e muitas outras são cabíveis nesse contexto; no entanto, só o tempo dirá... Mas retornemos à carta. Muitas cartas foram tão bem escritas que sintetizaram uma época, uma visão de mundo, ou seja, a carta passa de meio de expressão pessoal ao âmbito artístico.

O Brasil teve sua "certidão de nascimento" na Carta do Achamento do Brasil** que Pero Vaz de Caminha, o escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral, enviou ao rei de Portugal, em 1500. Nessa carta, embora tivesse a intenção de fazer um relato sobre as terras recém-descobertas e suas potencialidades para a exploração, Caminha utiliza um estilo objetivo, descreve as principais características da terra desconhecida, no entanto, o texto é gracioso. Leva o leitor a "saborear" aquele prato exótico dos trópicos, como no trecho a seguir:

"Senhor:
Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta nova terra nova, que nesta navegação agora se achou, não deixarei também de dar minha conta disso...
......................................................................................................................
Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, como grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs o nome - o Monte Pascoal e à terra - Terra de Vera Cruz.
...................................................................................................................... De ponta a ponta é toda praia...muito chã e muito fremosa. (...) Nela até agora não pudemos saber que haja ouro nem prata(...) Águas são muitas e infindas.
......................................................................................................................
Dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos, por chegarem primeiro.
......................................................................................................................
Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas(...) andam muito bem curados e limpos."

Caminha não podia imaginar que sua carta se tornaria, principalmente no século XX, uma das fontes de inspiração para romancistas e poetas brasileiros. Dentre eles, destaca-se Mário de Andrade, um dos maiores escritores de carta de nosso país. É impressionante a capacidade que ele tinha para se corresponder com tanta gente ao mesmo tempo. Suas correspondências pessoais são pontuadas com assuntos dos mais íntimos aos mais estéticos. Ler as cartas que Mário escrevia a seus amigos é encontrar um pouco com a alma do nosso povo, de nós mesmos. Sua prosódia oscila entre o popular e o erudito, embala o leitor em sua linguagem, deixa-o confortavelmente deleitar-se com sua escrita.

Por outro lado, em Macunaíma, Mário de Andrade narra a chegada do "herói sem nenhum caráter" a São Paulo e resolve escrever para suas súditas na Amazônia, para informar sobre o "achamento" daquela cidade, bem à moda de Caminha:

"Às mui queridas súbditas nossas, Senhoras Amazonas.
Trinta de maio de Mil Novecentos e Vinte e Seis, São Paulo.
Senhoras:
Não pouco vos surpreenderá, por certo, o endereço e a literatura desta missiva. Cumpre-nos, entretanto, iniciar estas linha de saudades e muito amor, com desagradável nova. É bem verdade que na boa cidade de São Paulo - a maior do universo, no dizer de seus prolixos habitantes - não sois conhecidas como "icamiabas" ,voz espúria, sinão pelo apelativo de Amazonas...
....................................................................................................................
Sabereis mais que as donas de cá não se derribam a pauladas, nem brincam por brincar, gratuitamente, senão que a chuvas do vil metal...
....................................................................................................................
Andam vestidas de rutilantes jóias e panos finíssimos, que lhes acentuam o donaire do porte, e mal encobrem as graças, que, a de nenhuma outra cedem pelo formoso do torneado do tom. São sempre alvíssimas as donas de cá..."

A referência à carta de Caminha é intencional, pois em Macunaíma (1928), Mário trata da formação de país, de suas raízes. Busca as imagens mais longínquas da história do povo brasileiro.

Em Lição do Amigo***, Mário evidencia a Carlos Drummond um pouco de sua rotina para escrever cartas aos amigos:

"S. Paulo - 20-II-27
Carlos.
Só nos domingos que posso escrever. Tenho atualmente a vida mais deliciosamente burguesa que a gente pode imaginar. Sou homem de domingos. Só no Domingo que me divirto, visito os amigos, escrevo pros de longe visto roupa nova e descanso (...) São onze horas do dia. Tenho meia-horinha pra você..."

As cartas fascinam tanto porque são parte da expressão humana. Porque nelas estão as fraquezas, os bons augúrios e, quase sempre, espelhos da alma de quem as escreve. Quando as lemos, é como se fôssemos ouvindo o remetente em nosso ouvido a conversar conosco. É como se Mário falasse conosco.

____________________
*Aracy Amaral (org.) in: Correspondência Mário de Andrade e Tarsila do Amaral. São Paulo: Edusp, 2001.
**Antônio Carlos Olivieri e Marco Antônio Villa (orgs.) Cronistas do Brasil. São Paulo: Ática,1999.
*** Lição do Amigo: cartas de Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade, anotadas pelo destinatário. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982.


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.