LEITURAS E LEITORES


A DANÇA DE EDITH: ANTES, DURANTE E APÓS AUSCHWITZ

Edith Eva Eger me foi apresentada pelo Bial, semanas atrás numa entrevista no programa dele. A fala apresentava uma perspectiva singular a respeito da vida, dos traumas do holocausto e o ressignificar da existência. Ao vê-la, no vídeo com olhos brilhantes a falar da vida, me senti instigado a ler seu livro A bailarina de Auschwitz, que foi traduzido para o português por Débora Chaves.

A obra apresenta o enredo subdivido em quatro partes: Prisão, Fuga, Liberdade e Cura. Cada capítulo tem um pouco da vida da autora em cada fase diferente, mas acompanhada de reflexões acerca da existência.

A escritora Edith revela-se, linha a linha, uma terapeuta inquieta, astuta, estudiosa da alma humana.

Logo no início da obra, Edith dá o tom a respeito de sua maneira de ver o mundo, principalmente a partir do cárcere no campo de concentração em Auschwitz:

O que aconteceu não pode ser esquecido, muito menos mudado. Porém, ao longo do tempo, aprendi que posso escolher como reagir ao passado. (2019, p.19)

Na primeira parte, o leitor é levado a entrar na rotina de uma adolescente húngara, judia, de 13 anos, moradora de Kassa que, devido às mudanças geopolíticas daquela época, passou da Hungria para a Tchecoslováquia.

Nos anos de 1940, vivia no seio de uma família que provia plenamente as necessidades das filhas: moradia, alimentação, educação e cultura. Edith tinha paixão pelo balé que cursava desde os 5 anos.

O mundo à volta da menina vai se transformando até chegar à adolescência sem que ela sentisse diretamente a segregação trazida pelo nazismo. De acordo com a autora, os judeus húngaros não foram instalados em guetos como aconteceu em outros países europeus, embora também fossem tratados com preconceito.

Com os anos de restrições, o cidadão vai perdendo paulatinamente seus direitos e, sem se dar conta, vai se adequando às condições desfavoráveis. Na adolescência, Edith recebe um forte golpe: foi impedida de frequentar a escola de dança devido à sua origem judia.

A partir de então, o leitor é levado a uma sucessão de acontecimentos que encadeados chegam à noite em que a família é abruptamente retirada de seu lar, sem nenhuma informação, rumo ao desconhecido, ao campo de concentração.

Em cada período de sua narrativa, há reflexões como a que Edith faz a respeito de um garoto que cospe nos judeus quando passam por ele:

[...] desejo que o garoto que cospe em nós perceba um dia que ele não precisa me odiar. (2019, p.70)

Da inconstância do viver no campo de concentração, ela afirma:

Pior que o medo da morte é a sensação de estar presa e indefesa, de não saber o que vai acontecer na próxima vez que respirar (2019, p.72)

A autora reafirma a vida em seu pensamento, no seu interior. É isso que dá forças a ela para resistir, para acreditar que sairá dali, que levará adiante sua dança da existência:

E vivo para orientar os outros a se fortalecerem diante das adversidades da vida. (2019, p.21)

Após meses de sofrimento, a liberdade chegou por meio dos soldados americanos e o leitor é informado:

Agora que o perigo passou, a dor interior e o sofrimento ao meu redor transformaram consciência em alucinação. Um filme mudo. Uma marcha de esqueletos. A maioria está fisicamente arrasada demais para caminhar. Ficamos deitados em carrinhos, apoiados em caras. (2019, p.88)

O estrago físico é apenas uma das sequelas daquele holocausto. O estrago nas almas, invisível, mas estava presente em cada sobrevivente:

Mais tarde, médicos nos ajudarão a recuperar a saúde física, mas ninguém explicará a dimensão psicológica da recuperação. Muitos anos vão se passar antes de eu entender isso. (2019, p.95)

Num processo terápico, a narrativa dá-nos a dimensão da dificuldade, do tempo de amadurecimento para se conseguir curar, para conviver com aquilo que não terá como mudar, mas que se pode olhar com outra perspectiva. Edith é generosa com leitor, pois comparte sua vida, seu trauma e a busca interior:

Talvez a cura não signifique apagar a cicatriz, ou mesmo fazer a cicatriz. Curar é cuidar da ferida. (2019, p. 253)

Ao se ler A bailarina de Auschwitz, o leitor é convidado a dançar com Edith pelas sendas da vida: a percorrer suas alegrias, perdas e transformá-las num grand battement em vários momentos da existência.

Edith Eva Eger nos mostra que nosso aprendizado e desenvolvimento psíquico não têm idade, sempre haverá o que aprender e aperfeiçoar, pois é isso que a vida pede ao ser humano.

Consultas

BIAL, Pedro. Conversas com Bial. Globoplay, 24/05/21. Disponível em: https://globoplay.globo.com/busca/?q=conversa. Acesso em: 28 mai. 2021

EGER, Edith Eva. A bailarina de Auschwitz. Rio de Janeiro: Sextante, 2019.


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.