LEITURAS E LEITORES


LOBATO E EMÍLIA: A VIDA NUM PISCAR DE OLHOS!

Cada escritor tem seu estilo para compor personagens que dialogam com os dilemas humanos nem sempre fáceis de abordar, como é o caso da vida e da morte. Em geral, o autor reescreve artisticamente coceitos filosóficos, existenciais e clareia para o leitor assuntos que são complexos no cotidiano.

Há escritores que traduzem a complexidade em aparente simplicidade. Ao se ler o que foi escrito, parece óbvio, que a explicação seja tão clara e contemple o que o leitor pensava e, até aquele momento, não tinha noção. É o que acontece em Memórias da Emília de Monteiro Lobato.

Monteiro Lobato (Taubaté, 1882/ São Paulo, 1948) foi um homem ímpar que atuou em toda a cadeia produtiva do livro: escritor, tradutor e adaptador de obras estrangeiras, editor e muitas outras facetas do homem e do profissional. Lobato revolucionou a narrativa destinada à infância no Brasil e sua consagração como escritor ocorreu pela composição da obra destinada à criança e isso o coloca, até hoje, como um dos principais autores da literatura infantil no país.

Em 1921, após ter criado uma editora para publicar suas obras, lançou Narizinho arrebitado que posteriormente se juntou a outras histórias e foi publicada, em 1931, como Reinações de Narizinho. A partir dessa obra, gerações e gerações de meninas e meninos brasileiros tiveram a imaginação alimentada pelo universo ficcional do Sítio do Picapau Amarelo e de seus inesquecíveis personagens: Narizinho, Pedrinho, Emília, Dona Benta, Tia Nastácia, Visconde de Sabugosa, por exemplo.

A boneca Emília é uma das personagens mais conhecidas de Lobato. Ela surgiu do tecido, da costura de Tia Nastácia para Narizinho e que, a partir de uma pílula falante do Dr. Caramujo, desembestou a falar e nunca mais parou. A fala de Emília revela o pensamento sem cabresto, irreverente, que derruba a tradição e questiona o que está estabelecido socialmente. Tudo elaborado com graça e reflexões livres, moventes como as águas do Ribeirão das Águas Claras do Sítio do Picapau Amarelo.

Publicada em 1936, Memórias da Emília trata-se de uma obra de gênero memorialístico, temática filosófica, mas que ao mesmo tempo dá um tom metalinguístico, pois o leitor é levado a pensar a respeito da composição da obra. Emília explica ao iniciar:

- Memórias são a história da vida da gente, com tudo o que acontece desde o nascimento até o dia da morte. (1982, p.9)

Dona Benta argumenta:

[...] uma pessoa só pode escrever memórias depois que morre... (1982, p.9)

Emília deixa claro que não morrerá e que sua morte será a única mentira das Memórias. Adiante a boneca afirma:

Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta idéia do escrevedor. Mas para isso ele não pode dizer a verdade, porque senão o leitor fica vendo que era homem igual aos outros. Logo tem de mentir com muita manha, para dar a idéia que está falando a verdade pura. (1982, p.9)

A narradora não esconde do leitor suas artimanhas, mas ao mesmo tempo revela o conhecimento da composição escrita, do enredo de uma obra. Para auxiliá-la em sua escrita, Emília convoca o Visconde de Sabugosa a quem dita suas memórias para que ele escreva, como o trecho a seguir a respeito da existência humana:

[...] A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca.

A gente nasce, isto é, começa a piscar.

Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu.

Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.

É portanto um pisca-pisca.

O Visconde ficou novamente pensativo, de olhos no teto.

Emília riu-se.

- Está vendo como é filosófica a minha idéia? O Senhor Visconde já está de olhos parados, erguidos para o forro. Quer dizer que entendeu...

A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas.

Cada pisco é um dia.

Pisca e mama;

pisca e ama;

pisca e cria filhos,

pisca e geme os reumatismos;

por fim pisca pela última vez e morre.

- E depois que morre? – perguntou o Visconde.

- Depois que morre vira hipótese. É ou não é?

(1982, p.11)

Memórias da Emília, assim como em outras obras de Lobato destinadas a crianças, tem conteúdo que independe da idade do leitor e, por isso, vale a pena ler, em qualquer que seja a fase da vida.

Obras consultadas

LOBATO, Monteiro. Memórias da Emília. São Paulo: Brasiliense, 1982.

MENDES, Emília Raquel. Os narradores híbridos de Memórias da Emília. 2008. Tese - Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).


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IPÊ AMARELO
Setembro/2021



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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.