VIVÊNCIAS (DES)LATTES-LIANAS


TROCAS INTERSUBJETIVAS: AQUELES TRÊS AFETOS SE TORNAM SENSÍVEIS DE UMA SÓ VEZ

Compreende Espinosa “por afeto as afecções do corpo pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada, e ao mesmo tempo, as ideias dessas afecções.” (ESPINOSA, 2008, p. 163).

Digo oportunamente, experienciar, aprender e compartilhar. Tríade que compõe de forma básica, mas que tem potencialidade para desencadear, além disso, de estar aberto em vivenciar as relações com o outro(s) durante a trajetória acadêmica. As redes de amizades e as relações de troca de experiência são um dos grandes componentes que traz vida e estímulo para quem está no mundo acadêmico. Surgem novas ideias, novos horizontes, até representações sensíveis que partilham um problema em comum e potencializam um certo alcance de uma visão coletiva que o indivíduo não consegue alcançar sozinho ou que até mesmo expressaria uma certa demora no alcance dos desejos objetivados.

Em contribuição com essa diretiva Paul Ricoeur esclarece em seu livro “O si-mesmo como outro”, pontos argumentativos que descrevem o “si mesmo” no sentido crítico, que este está propenso a mesmice que ele nomeia de “identidade-mesmidade”, sem a alteridade que o outro pode 'realizar' no indivíduo. "Enquanto permanecer nos círculos da identidade-mesmidade, a alteridade do outro, não apresentará nada de original.” (RICOEUR, 2014, p. 15).

Há nesse argumento de Ricoeur, a meu ver, algo que se relaciona muito à vida acadêmica, que irrompe do imaginário do cientista enclausurado e individualista. Permito-me desconstruir e descortinar esse imaginário através das experiências. Não há como ser uma ilha, realizar pesquisas encasteladamente, resolver certas situações e orientar-se sozinho sem a troca de diálogos e ações conflituosas que surgem. Nem deve ser assim!

Possibilita primeiramente pensar nas relações afetivas, a exemplo daqueles que estão iniciando a jornada acadêmica no pós-pandemia. Os laços de afeto criam materialidade quando estudantes de diversos lugares do Brasil e de outros países encontram-se incorporados e situados na zona local. A presentificação joga luz à empatia e afeto com outro em algo que é recíproco, tal como no auxílio à logística para se locomover para o lugar que precisa, no direcionamento para estar no melhor lugar de comodidade, bem como o estilo de “ajudar no que for preciso” em que todos que incluem suas particularidades lutam por um bem comum.

O ouvir e ser ouvido, ser direcionado, ser inserido e estar aberto também aos conflitos científicos são fatos que desencadeiam uma alteridade do outro sobre o “si” mesmo, afastando-se assim de uma rotina conceitual ou de um sentido linear de horizontes, que beira a mesmidade, como supõe Paul Ricouer.

A experiência do si como outro é cativante, no entanto, não precisamos identificar o “outro” no sentido de ‘romantizá-lo’, chegando a tônica de ser cômodo no sentido de apenas criar relações com aquele que é como eu, que se ocupa em pesquisas e interesses daquilo que lhe agrada, ou só mesmo o que quer ouvir, embora pareça tentador criar o efeito bolha. Se olharmos só por essas perspectivas, há contribuição? Que ganhos relacionais temos?

Pelo contrário, Ricoeur aprofunda-se sobre o “como outro” e oferta uma significação através do conceito de implicação “Ao ‘como’ gostaríamos de atribuir o significado forte, não só de comparação – si mesmo semelhante a outro – mas sim de implicação: si mesmo na qualidade de outro” (RICOEUR, 2014, p. 16).

Também como compreende Sá Martino (2017) (1) ao explicar em uma entrevista a política do afeto em Espinosa. Muitas vezes, em nosso cotidiano, falamos de várias coisas. No caso dos acadêmicos, fala-se sobre pesquisas do mestrado e doutorado, artigos, eventos, palestras e grupos de pesquisa, mas nem sempre temos muito tempo para refletir como isso tem nos afetado. Diante disso, o afeto também é aquilo que mexe comigo nas palavras de Sá Martino (2017). Que possamos nos afetar positivamente, o tempo das nossas vivências anteriores, que muitas vezes são colocadas de lado diante da racionalidade mercadológica.

Portanto, criar uma rede em comum de perspectivas é bom, mas também não apenas em comum, mas que coloque como peça central a intencionalidade em conhecer o outro com toda sua estrutura subjetiva e intersubjetiva de vida e o que ele pode contribuir para o “si”.

Em outro exemplo, entramos nas considerações que envolvem o campo científico no plano editorial para os acadêmicos. Essa implicação aparece quando somos colocados à prova na ‘vitrine’ do parecer científico. Quando um artigo é negado, sendo que colocamos todo nosso esforço naquele escrito, ocorre uma certa apreensão e angústia. O posicionamento do parecer cria uma sensação conjunta de sujeição por não ser aprovado diante da aversão sobre o que foi dito ou não, entretanto, aqui se abre uma oportunidade do “si como o outro”, sobre o estar aberto para aquela implicação, que corresponde a experiência que o outro pode me proporcionar e é uma das grandes contribuições de maturidade e também desafiadoras que essa implicação pode gerar.

De início, algo pronunciado pode pesar em sentido restrito, seja por fatores de zelo conceitual, por estar preso em uma única visão ou até mesmo a tradição, mas quando aberto às ponderações, surte efeito que poderá gerar a compreensão científica. Permitir a implicação do outro é interessante para a própria reflexão, isto é, o estranhamento de quem ouve, visto que esta ação está atrelada ao conflito, lembrando que as relações do conflito têm em seu seio um obstáculo moral, sendo através da superação que se pode gerar novas visões e contribuição na da vivência “o eu está ora em posição de força, ora em posição de fraqueza. (RICOEUR, 2014, p. 15). Estar aberto às implicações dos modos de enunciar e seus efeitos no outro não quer dizer negligenciar a si próprio, mas ponderar as peças de posicionamento do “eu”.

Como humanos, temos nossas visões que fazem parte da nossa herança conceitual, construída temporalmente, mas que essa posição de força não deve desconsiderar também nossa posição de fraqueza existente que, por vezes, não deixa ela apresentar-se.

O encastelamento do “eu” dá uma sensação de força, de ser o bastante, mas é só uma sensação que, por motivos óbvios, é ilusória. O mundo da vida exige o construto relacional, do experienciar os sabores e dissabores para o alcance de algo maior. Agora que o mundo acadêmico, pós-pandemia, volta a relacionar-se com a pretensa presença de que possamos nos permitir e estar aberto do “si como outro” como solidificação do eu no mundo.

REFERÊNCIA

RICOEUR, Paul. O si-mesmo como outro. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2014.

ESPINOSA, Baruch. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.

NOTAS

1 - Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=0OCrnnV518s.  Acesso em: 26 de maio. 2022


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JETUR LIMA

Doutorando em Ciência da Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (PPGCI-UNESP). Mestre em Ciências da Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação Comunicação, Cultura e Amazônia da Universidade Federal do Pará (PPGCOM/UFPA). Graduado em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Pará.