LEITURAS E LEITORES


O TAMANHO DO LIVRO

Os filisteus acreditaram que o tamanho de Golias seria suficiente para intimidar e vencer os israelitas, mas não contavam que nem a força e o tamanho descomunais de Golias poderiam ser mais fortes que a determinação do frágil e adolescente Davi. A começar pela bíblia, inúmeros são os livros, sagrados ou profanos, a demonstrar que o tamanho nem sempre faz a diferença.

 

Há livros que têm uma quantidade mínima de páginas, entretanto, seu conteúdo é denso, árido e polêmico. Assemelham-se a enigmas e exigem uma leitura madura, repleta de ler e reler para compreender sua mensagem. Por outro lado, há livros que possuem muitas páginas e nem por isso oferecem a menor dificuldade ao leitor.

 

O que se pode depreender disso é que a quantidade de páginas num livro não tem relação direta com a qualidade de seu conteúdo. É necessário ponderar que não se pode ter compreensão exata do âmbito que a leitura pode instigar em cada leitor: se o texto é bom, provoca-lhe fruição, amplia sua compreensão acerca do que é tratado. Se o texto não for de boa qualidade, poderá despertar-lhe a análise crítica e lançar-lhe, ainda assim, à reflexão sobre o que sabe ou compreende daquilo. Enfim, inúmeras são as possibilidades que o livro pode despertar no leitor.

 

Perdura em parte das escolas para crianças e adolescentes de nosso país a concepção distorcida de que ser bom leitor é ler livros grossos. O tamanho do livro varia, para muitas escolas, proporcionalmente à estatura do aluno e à série que freqüenta.

 

Não é exagero dizer que em muitas escolas ainda existem professores que não permitem aos alunos maiores o empréstimo de livros mais finos, com ilustrações, por exemplo. Há professores que quando o aluno chega à sala de aula com o livro que escolheu na biblioteca, fazem-no devolver por um mais grosso, mais “apropriado” à série em que está cursando. O inverso também é verdadeiro, pois há uma atração dos alunos menores, em fase de alfabetização, por livros maiores, ou seja, com mais páginas, mais volume. Ainda assim, nem sempre, a escola permite o empréstimo, pois o livro tem muitas páginas para quem ainda não domina bem a leitura.

 

Situações como essas afastam os alunos da leitura, da biblioteca, pois o aluno é desrespeitado na construção de seu percurso como leitor. É preciso a compreensão de que a leitura no âmbito escolar deve ter, no mínimo, duas vertentes: aquela orientada, exigida como requisito para as disciplinas no âmbito da linguagem e aquelas que são de escolha do aluno, para essas, a escola interferirá se for convidada pelo aluno ou apenas como aquela que sugere esta ou aquela obra.

 

É mania de adulto escolher livro grosso para os outros, em especial para crianças e adolescentes. Atitude meio hipócrita, pois todos têm uma tendência para economizar no tamanho do livro, principalmente, se não foram selecionados pelo próprio leitor. Entretanto, só com os menores é que o adulto tenta manter essa postura autoritária.   

 

A relação da escola com o livro reflete a relação que o cidadão em geral tem com o livro em nosso país: objeto distante, sacralizado, presente mais no discurso que na prática cotidiana. É quase impossível encontrar alguém que discorde da importância de se ler, no entanto, poucos lêem.

 

Da falta do contato freqüente com o livro e a biblioteca, surgem adultos que continuam a reproduzir para os menores o discurso de que a leitura faz diferença na vida da pessoa, sem transmitirem aos mais novos o modelo do adulto que convive com a leitura. Por exemplo, a maioria dos pais não estabelece livrarias ou bibliotecas como um dos espaços de lazer para estar com os filhos.

 

Os professores que estão em sala de aula hoje foram crianças ontem. Seus pais nem sempre os levaram à leitura. Na escola não desfrutaram de uma biblioteca bem estruturada que lhe oferecessem instalações, acervo e atendimento adequados. Portanto, é bem provável encontrarmos professores pouco afeitos à leitura e, conseqüentemente, esses profissionais reproduzirão na escola o modelo de leitura vivido na sua infância e adolescência. Assim, não é difícil compreender o porquê algumas escolas cerceiam o empréstimo de livros ou dificultam a criança de chegar a ele.

 

O livro, nesse contexto, torna-se um objeto mitificado, cria-se em seu em torno um escudo de exigências que impede o acesso à leitura, dentre eles o tamanho, a espessura, a errônea idéia de que livro grosso é que é bom.    

 

Na Idade Média havia controle rigoroso para a circulação e leitura de obras. Hoje, impedir a um leitor em formação de emprestar um livro devido ao seu tamanho é, no mínimo, retroceder à Inquisição Medieval, é mais atrapalhar a leitura que incentivá-la.


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.