ARTIGOS E TEXTOS


O BIBLIOTECÁRIO E SUA RELAÇÃO COM A SOCIEDADE

Em primeiro lugar, gostaria de parabenizar os organizadores deste evento pela iniciativa, já que é de grande importância a realização de encontros como este, pois permitem o congraçamento dos profissionais bibliotecários e, mais do que isso, possibilitam uma integração e um motivo para discutirmos e debatermos pontos presentes em nossas reflexões.

Ressalto, também, em público, em meu nome e no da Associação Paulista de Bibliotecários, o agradecimento pelo convite e pela oportunidade oferecida em estar aqui, hoje, com vocês.

Convém, ainda, cumprimentar a todos os presentes, pela participação e pelo interesse, pois, certamente, numa sexta feira à noite, deixaram programas talvez mais interessantes para discutir problemas relacionados à sua profissão.

Invariavelmente nos reunimos a cada dia 12 de março para comemorarmos o Dia do Bibliotecário. Eventos e encontros como este são organizados e realizados em todos os Estados brasileiros. Os temas discutidos e abordados nessas reuniões são variados, mas um mote é comum a todos: a comemoração do dia dedicado àquele profissional.

Gostaria de iniciar nossa conversa com algumas perguntas: temos, realmente, muita coisa para comemorar? Estamos satisfeitos com nossa atuação, com nosso papel junto à sociedade? Atendemos satisfatoriamente, as necessidades, aos reclamos da comunidade a quem devemos servir? Somos reconhecidos como profissionais importantes e necessários para a sociedade? O estereótipo do bibliotecário vem se alterando nos últimos anos ou nossa imagem, para a sociedade, continua a mesma que carregamos há muito tempo? Enquanto profissionais, entendemos como satisfatório nosso salário, nosso ambiente de trabalho? Temos, relembrando, muita coisa para comemorar?

Proponho que, hoje, utilizemos este espaço, não para tecermos elogios inconseqüentes e ufanistas ao nosso próprio umbigo, mas como lugar apropriado, como o momento ideal para reflexão e questionamentos.

O Professor José Teixeira Coelho Netto, ontem, durante a aula inaugural do curso de Biblioteconomia da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, afirmou que a cultura no Brasil é feita contra a sociedade e não a seu favor; que a cultura no Brasil não é agregadora. Calcando seus comentários sobre a modernidade, na qual estão imersos os produtores culturais brasileiros, o Professor Teixeira Coelho, sob seu ponto de vista, constata que tais produtores culturais, repudiam o passado, a tradição, em nome de propostas apenas "inovadoras".

Os bibliotecários, na ótica daquele professor, e a exemplo de outros profissionais da cultura, estão presos e amarrados a uma visão patrimonialista da cultura, onde importa mais a preservação do que a utilização, do que, empregando um termo que nos é muito caro, a disseminação. Além disso, estariam criando entraves para o uso e o acesso dos usuários às informações contidas em seus acervos, apresentando como exemplo dessas dificuldades, o próprio catálogo.

Antes de, sumariamente, refutarmos tais críticas, convém atentarmos para nossas atividades e atitudes perante e para com os nossos usuários. Será que estamos trabalhando para a sociedade ou contra ela? Todas as vezes que o profissional bibliotecário afirma que seu trabalho deve estar concentrado exclusivamente no espaço da biblioteca e que cabe ao usuário procurá-lo para obter informações quando necessário, estará ele atuando contra a sociedade e não a seu favor.

Um "slogan" (e enfatizo a palavra slogan) passou a frequentar, principalmente a partir da década de 70, o discurso do bibliotecário: "Democratização da informação". O que seria democratizar a informação? O discurso profissional, apologeticamente, define aquele slogan como "a possibilidade de acesso à informação para todos, independente de credo, convicções políticas, raça, cor etc.". Diz mais: "a biblioteca está com suas portas abertas para todos, basta entrar e fazer uso das informações disponíveis".

O Manifesto da Unesco para as bibliotecas públicas, publicado e divulgado no início da década de 70, já afirmava esses princípios. Não podemos discordar de um ideário tão genérico. Esse discurso do bibliotecário, assemelha-se aos discursos de grande parte dos políticos brasileiros, em campanha ou durante seus mandatos, quando afirmam que querem combater e acabar com a fome; que querem oferecer um sistema de saúde eficaz; que querem dar oportunidade de ensino público para todos; que querem eliminar a inflação; que querem acabar com a carestia; que querem aumentar o salário mínimo do trabalhador etc. Ninguém é ou pode ser contra tais propostas; o problema é como operacionalizar, como concretizar, como transformar em realidade todas essas intenções.

O mesmo, como dizia, acontece em relação ao discurso do bibliotecário: ninguém pode ser contra a ideia de democratização da informação, mas, e aí está o problema, como operacionalizar, como concretizar, como transformar em realidade essa proposta.

A prática do profissional bibliotecário parte da ideia de que todos são absolutamente iguais, de que a todos são oferecidas as mesmas oportunidades, de que todos os usuários são moldados na mesma forma. Sabemos, até mesmo ou principalmente pela experiência, de que isso é uma inverdade. As pessoas não são tão iguais como imaginamos. As oportunidades, seja no campo da educação, seja no campo econômico, seja no campo da saúde, seja no campo da cultura, são, certamente, distintas de pessoa para pessoa.

Os usuários não são iguais. Os alunos de 1º e 2º graus são distintos dos idosos que, por sua vez, diferenciam-se da dona de casa, do universitário, do profissional. Cada um deles procura a biblioteca visando satisfazer necessidades próprias e diferentes. Entre os próprios alunos de 1º e 2º graus, há diferenças, dependendo da escola onde estudam, da região onde moram, das amizades, do ambiente que frequentam, etc. Não podemos reduzi-los a um único e idêntico padrão, sob pena de atingirmos muito pouco do pouco que atingimos.

Costumamos culpar, por muitos dos nossos fracassos, outros profissionais ou até mesmo, o próprio usuário. Vamos assumir culpas também, embora, é claro, apenas aquelas que realmente nos cabem. É comum culparmos apenas o professor pelo fracasso da pesquisa escolar, já que é dele o erro pela falta de orientação prévia ao aluno. Mas, também nós, bibliotecários, compactuamos com essa situação, atendendo os alunos apenas oferecendo a eles os materiais para que possam xerocar e copiar, sem uma proposta pedagógica clara e definida.

Costumamos também, imputar aos usuários, pela sua falta de interesse, a culpa pelo baixo percentual da população atendida pelas bibliotecas.

Acho que a "democratização da informação" deve deixar de ser um slogan para converter-se em compromisso, compromisso do bibliotecário para com a sociedade, para com a comunidade a quem deve atender.

(Texto para palestra apresentada em 1993)

Fonte: Publicado originalmente em: ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Sociedade e Biblioteconomia. São Paulo: Polis, 1997.

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.