ARTIGOS E TEXTOS


POR QUE E PARA QUE BIBLIOTECÁRIOS?

Talvez valesse a pena discutir, inicialmente, quem é essa figura tradicionalmente denominada bibliotecário. A sociedade responderia a essa indagação, identificando esse profissional (e aqui partimos do pressuposto ainda não validado de que o bibliotecário é um profissional) com a instituição biblioteca. E, se identificado com biblioteca, logo o será também com o livro, pois biblioteca e livro são, no conceito da população, indissociáveis. Assim, bibliotecário é aquele que trabalha com livros. Mas, trabalhar com livros não é função exclusiva dele, o que ampliaria a ideia para: "o bibliotecário é aquele que trabalha na biblioteca, com livros". Essa é, na verdade, a resposta oferecida pela sociedade quando indagada quem é o bibliotecário.

Nosso conceito sobre o bibliotecário, ou seja, sobre nós mesmos, não é muito diferente desse. Hoje, os textos publicados nas revistas especializadas da área e os próprios depoimentos de bibliotecários sobre sua atuação, enfatizam e, mais que isso, apregoam a necessidade desse profissional se preocupar e trabalhar com outros suportes diferentes do livro. Todos apoiam a afirmativa de que a preocupação fundamental do bibliotecário é a informação. No entanto, a defesa do livro como o principal, se não o único, veículo transmissor de cultura; o direcionamento para o empréstimo domiciliar de livros como o objetivo fundamental da biblioteca, apregoado por autores da área; o norteamento dos trabalhos desenvolvidos pelas bibliotecas quase que exclusivamente para a criação do hábito de leitura; a insistência em atribuir ao estudante e ao trabalho de pesquisa escolar, invariavelmente respondida através de textos impressos – em particular a enciclopédia –, a prioridade dentro dos serviços prestados; o "atributo mágico" com o qual é distinguido o livro na biblioteca, local indicado exatamente para contestar essa visão por demais aceita e arraigada na população; a ideia constante de comparar, igualando no mesmo plano coisas tão díspares como leitura e, por exemplo, alimento; a determinação dos bibliotecários em recusar, sumariamente, projeções a respeito do desaparecimento do livro, enquanto objeto físico etc., terminam por demonstrar o apego incondicional do bibliotecário ao livro, contrariando, na prática, o discurso que entende a informação como objeto básico de estudo, trabalho e preocupação do profissional bibliotecário.

Quanto ao termo profissional, caberia aqui uma pergunta: é profissional aquele que não procura – oferecendo para isso inúmeras justificativas – atualizar-se profissionalmente? Não é desconhecido por ninguém a importância da atualização para um profissional, seja ele de qualquer área. Sem essa atualização, seus conhecimentos ficam defasados em relação aos avanços do mercado e da sua própria área. Permanecerá utilizando as mesmas ferramentas, instrumentais e metodologias aprendidos na faculdade. Exemplos vários poderiam ser arrolados, mas, pensando especificamente na área de Biblioteconomia, basta lembrarmos das dificuldades dos bibliotecários formados na década de 70 para se atualizarem quanto ao uso do microcomputador, já que durante o período de faculdade, essa ferramenta não existia. Da mesma forma cabe alertar para um argumento frequente em nossa área, que transfere para o ensino a responsabilidade pela incompetência do bibliotecário. Encontros, Congressos, Reuniões etc., promovidos entre bibliotecários, invariavelmente servem para acusar o ensino e o currículo do curso como os responsáveis pela situação atual da Biblioteconomia no Brasil ou pelo pequeno status dos bibliotecários.

Fala-se muito na passividade do bibliotecário. Essa passividade está presente no trabalho cotidiano desenvolvido por esse profissional, mas também se apresenta no descaso pela necessidade de atualização profissional, na não existência, por sua parte, da educação informal, da educação continuada, embora seja essa uma das funções principais da biblioteca pública, universitária e, inclusive, especializada. Atribui-se ao desinteresse da população o número reduzido de usuários nas bibliotecas brasileiras. Dentro desse desinteresse, incluiríamos também a educação continuada e a leitura. Os usuários, a população, ainda não adquiriram a consciência da necessidade, da importância da leitura e da educação continua. São eles, usuários, os verdadeiros culpados, pois é notório que o desenvolvimento do homem e do país faz-se através daqueles itens: leitura e educação continuada. Outro culpado em toda a história é o professor que, por não saber pesquisar, encaminha seus alunos para a biblioteca sem um preparo prévio.

Esquecemos, no entanto, que nós bibliotecários, não procuramos a atualização profissional, contradizendo a exigência que fazemos dela para nossos usuários. Outra coisa: muitos são os bibliotecários que não têm o hábito de leitura e não sabem pesquisar, ou, pior ainda, não conhecem os passos necessários para uma pesquisa.

Essa passividade, mesmo em relação à própria capacitação profissional, provavelmente é reflexo da reserva de mercado, entre outras coisas. O bibliotecário, na medida em que possui um mercado exclusivo que, por força de lei, não pode ser invadido a não ser por seus pares, não sente ameaçado seu espaço e nem mesmo precisa competir. Trabalhando junto ao funcionalismo público, seu emprego está resguardado pela estabilidade, isentando-o da necessária atualização. Nas empresas privadas, sempre há o recurso da lei 4084 que, em tese, mantém sua exclusividade nos espaços definidos como privativos nos artigos desse instrumento legal. Não há porque buscar uma atualização, se a competição inexiste e o seu mercado está preservado. Outra seria a situação se não houvesse a reserva de mercado.

Quando falamos em atualização, referimo-nos apenas às técnicas empregadas para o desenvolvimento de nossos trabalhos. A situação é muito pior quando focalizamos as propostas e ideias de caráter mais teórico. Nesse caso, o bibliotecário nada conhece. As perspectivas da profissão, quando adentramos um novo século – que nada significa concretamente em termos de mudanças, mas serve como marco e desculpa para abrirmos discussões sobre a Biblioteconomia – não podem ser avaliadas ou mesmo discutidas sem que os questionamentos hoje apresentados, sem que as propostas e teorias atualmente sugeridas, sejam, no mínimo, consideradas. Imaginar que o mercado continuará sem alterações, estanque, é tentar passar para toda a realidade social uma situação especifica nossa. Acreditamos que, a exemplo do que aconteceu até hoje com a biblioteca, ela se adaptará a qualquer contexto, modificando de forma pouco significativa, seus instrumentos técnicos de trabalho. Quando as novas tecnologias pedem uma resposta de adequação, nós, como sempre, esperamos que sua utilização seja inevitável para, depois, pensarmos no problema. Estamos correndo atrás do fato concretizado, quando deveríamos estar nos preparando para enfrentá-lo e, principalmente, para influenciarmos na sua realização. E só agimos assim, pois, do contrário, rapidamente deixaríamos de existir.

Afinal, para que serve esse profissional, por que existe?

A resposta, se proveniente da população, provavelmente seria: para nada. Esse profissional não tem serventia para a maior parte da população. Negar seu valor e importância junto a pesquisa e no que se refere a alimentar de informações usuários especializados, seria ridículo. Concluir pela não necessidade de bibliotecas públicas seria, igualmente, cair no vazio. Mas, o que precisamos discutir, sempre, é a adequação desse trabalho aos interesses dos usuários. Precisamos estar atentos para as mudanças da sociedade e nos transformar em razão delas. Precisamos questionar nossas verdades, nossos dogmas, pois só assim, estaremos realmente avançando no sentido de darmos à dignidade do ser humano, o status de objetivo maior de nossos trabalhos; estaremos realmente avançando no sentido de propiciarmos condições para que todos possam exercer seu papel de cidadãos, e essa ser a prioridade de nossa atuação. Hoje, estamos sem objetivos claramente definidos; não sabemos nossa função na sociedade e, em consequência, o por que de nossa existência enquanto profissionais. Por causa disso, buscamos, mesmo sem o saber, a nossa razão de ser dentro de nós mesmos, dentro de nossas técnicas, serviços, dentro da biblioteca. A resposta, com certeza, está fora dos muros das bibliotecas, está fora do círculo restrito de nossa área, está fora dos nossos pressupostos e dogmas. A resposta está na sociedade, no usuário, no cidadão.

(Palestra proferida em 07 de março de 1990, em evento promovido pela Faculdade de Biblioteconomia e Documentação da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo)

Publicado originalmente em: ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Sociedade e Biblioteconomia. São Paulo: Polis, 1997.

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Junior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.