ARTIGOS E TEXTOS


A AIDS E O BIBLIOTECÁRIO: UMA REFLEXÃO ETÍLICO-SEXUAL SOBRE A ATUAÇÃO DO BIBLIOTECÁRIO.

(As normas e a grafia são as da época da publicação original)

 

"... o que ocorre é nada, nada por todos os lados, uma infinitude de nada inimaginável em toda a sua inextensão." João Ubaldo Ribeiro. Viva o povo brasileiro.

 

Páginas e páginas de jornais infestadas, ou melhor, repletas de notícias sobre a AIDS. As revistas dedicam matérias e matérias sobre o assunto, numa infinita repetição. Os fantásticos programas televisivos encontraram um grande tema para veicular reportagens pseudo-científicas. As rádios não cessam de veicular campanhas cujo caráter informativo existe apenas no desejo dos redatores. Os amantes do cinema acabam suportando uma seqüência cacete e inoportuna de informações sobre prevenção e transmissão da AIDS. Enfim, os meios de comunicação de massa, bem ou mal, passam a idéia de que estão cumprindo o papel social que lhes é destinado.

A expectativa é de que, em breve, algum iluminado cientista possa encontrar a cura, o remédio que aplacará a ira incandescida da doença. Discursos verborrageiam que é preciso eliminar a causa, ou seja, a promiscuidade, a imoralidade, pois a doença atinge (ou atingia) quase que exclusivamente homossexuais e viciados. Bem-feito, dizem os que assim pensam, principalmente para os primeiros, pois querem alterar o que a natureza determinou. Qual bichas, desculpe, bichos, desconsideram preceitos e normas, muito mais que verdadeiros, naturais, e que são observados e seguidos pelos homens há milhões de anos. Bem-feito também para os viciados, pois procuram a razão da existência em lugares outros que não o seio da família, e da tranqüilidade da vida doméstica.

Enquanto os moralistas pregam a derrocada da libertação sexual, o fim do homossexualismo e coisas que tais, outros investem seus esforços na tentativa de que todos vistam a camisa (ou será camisinha?) da prevenção, através de intermináveis discussões sobre formas de contágio, precauções, remédios, etc. A discriminação do Aidético passou a ocupar posições prioritárias nessas discussões e debates.

 

E O BIBLIOTECÁRIO NISSO TUDO?

 

Vários parágrafos já se passaram e, até agora, nada foi dito sobre o bibliotecário. Muitos dos leitores deste texto, provavelmente, esperavam que, por causa do título, abordaríamos questões relacionadas ao homossexualismo na profissão ou, quem sabe, histórias sobre bibliotecários aidéticos. Outros, talvez, tenham imaginado que noticiaríamos que em uma universidade qualquer dos Estados Unidos, os cientistas, embasados em amplas pesquisas, haviam descoberto uma nova forma de contágio, que poria em risco aqueles que trabalham com livros ou fichas catalográficas. Infelizmente, para eles, não é esse o caminho que queremos dar às nossas reflexões.

Nossa preocupação está voltada para os trabalhos que os bibliotecários vêm desenvolvendo para informar a população sobre a AIDS. O interesse de que estamos contaminados, parece-nos óbvio e claro, na medida em que desconhecemos qualquer tentativa, por parte das bibliotecas, de ação concreta nesse sentido.

Afinal, o que o bibliotecário tem feito para diminuir, para amenizar o desconhecimento da população sobre a AIDS? Nada, ou quase nada. Alguém conhece ou tem notícias de trabalhos desenvolvidos por alguma biblioteca sobre o assunto? Vale lembrar que atuações isoladas de bibliotecários existem, mas não podem ser caracterizadas, obviamente, como trabalhos desencadeados a partir da biblioteca: o hábito faz o monge, mas não só o bibliotecário faz a biblioteca.

Todos nós reconhecemos e aceitamos, depois de tantas notícias e discussões, que a AIDS é uma doença incurável - até o momento - e que o único remédio eficaz contra ela seria tornar a população totalmente informada sobre as formas de contágio, criando a consciência da necessidade da prevenção. Assim, com a população ciente do perigo que a AIDS representa, seria possível diminuir o número de contágios. Os meios de comunicação de massa, bem ou mal, como já dissemos, assumiram e desencadearam amplas campanhas contra a AIDS, informando ou procurando deixar a população informada sobre a maior quantidade possível de aspectos da doença. Vários grupos organizados surgiram, principalmente entre aqueles que eram considerados, de início, como "de risco", visando, também, esclarecer a população sobre a AIDS. O trabalho desses grupos abrange: a confecção e distribuição de cartazes; palestras programadas ou determinadas pela necessidade do momento; campanhas em rádio e televisão; conversas com o governo, na tentativa de sensibilizá-lo para os problemas ligados à AIDS e aos Aidéticos; etc. Convém aqui ressaltar que a maioria desses grupos não contam com nenhuma estrutura, baseando seus trabalhos na vontade e no despojamento dos que neles militam.

Concordamos, então, que o combate a essa incurável doença está, todo ele, baseado na informação. Parece-nos - e gostaríamos que você nos corrigisse caso estejamos errados - que o principal trabalho do nosso querido profissional bibliotecário é, exatamente, a informação. Correto? Ora, por que é, então, que o bibliotecário (o tal profissional da informação, vale enfatizar) nada faz para informar a população sobre a AIDS, contribuindo para diminuir o número de contagiados?

Alguns "profissionais" bibliotecários - para gáudio daqueles inveterados corporativistas que nada fazem mas se rejubilam quando o ufanismo biblioteconômico é reiterado - poderão contra-argumentar, apresentando a mera distribuição de folhetos e panfletos sobre a AIDS (normalmente "deixados" sobre um balcão qualquer) como o único trabalho de real competência das bibliotecas, como o máximo a ser realizado dentro da esfera de incumbências do bibliotecário.

 

AIDS ET ALII

 

Enquanto os meios de comunicação de massa priorizam a AIDS, a maioria dos brasileiros morre de diarréia, de desidratação, por falta de saneamento básico, por quase total inexistência de atendimento médico. Enquanto uma enxurrada de informações sobre a AIDS são veiculadas, a taxa de mortalidade infantil, na Grande São Paulo, atinge níveis assustadores de 100 por 1000.

Tudo isso ocorre ao lado, atrás, em frente das bibliotecas, mas, estas, afirmam nada poder fazer já que a morte, a doença, a dor e o sofrimento da população não podem ser recuperados bibliograficamente, não podem ser tratados tecnicamente, não fazem parte do âmbito de interesse dos registros do conhecimento. Estudos de usuário são realizados nas universidades, nas empresas, nas estatais, nos centros das grandes capitais, nunca, porém, nas periferias, porque... ora, porque lá estão as favelas, os cortiços, os sujos e mal-vestidos, os descalços e doentes, os analfabetos e os incuravelmente ignorantes! Como aplicar questionários se essa gente não consegue entender o grande significado da procura da verdadeira demanda informacional? Como atender os interesses dessa gente se ela não faz, e nem deve fazer parte da cultura letrada, do círculo daqueles que elevam e engrandecem a civilização brasileira?

Em "Viva o povo brasileiro", pela boca do personagem Amleto Henrique, João Ubaldo Ribeiro escreve: "Mas, vejamos bem, que será aquilo que chamamos de povo? Seguramente não é essa massa rude, de iletrados, enfermiços, encarquilhados, impaludados, mestiços e negros. A isso não se pode chamar um povo, não era isso o que mostraríamos a um estrangeiro como exemplo do nosso povo." Alguma coincidência com o que falávamos anteriormente? Ora, mera semelhança.

Iniciamos falando sobre a AIDS e acabamos discutindo sobre o mal que infecta a biblioteconomia brasileira: a passividade, desconhecimento e desrespeito pelos interesses e necessidades da maioria da população. Trabalhamos apenas para uma seleta e elitizada classe social, que se utiliza da biblioteca e do bibliotecário, com seu consentimento e apoio, para manter seus privilégios e sua condição de dominante. O fato é que a população - toda ela e não apenas aquele reduzidíssimo número de alfabetizados que freqüenta as bibliotecas - precisa estar informada sobre todos os aspectos que envolvem a AIDS e outras tantas doenças, principalmente as "sociais". O fato é que os bibliotecários - todos eles e não apenas aquele reduzidíssimo número que está preocupado com a população - precisam estar informados sobre todos os aspectos que envolvem a principal doença da Biblioteconomia: absoluta ausência de função social.

Precisamos de uma biblioteconomia subversiva, guerrilheira, que alimente a população de informações, que inverta as prioridades hoje existentes, que permita ao povo reconhecer-se como cidadão.

 

(Publicado originalmente em: Boletim IN:FORMA, São Paulo, v.2, n.3, p.3, jul./set. 1989.

Publicado posteriormente em: ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Sociedade e Biblioteconomia. São Paulo: Polis, 1997)

 


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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.