O PESO DA INFORMAÇÃO: REFLEXÕES SOBRE A SOBRECARGA INFORMACIONAL NA ERA DIGITAL
Vivemos em uma sociedade que valoriza estar bem informado, quase como uma obrigação universal. No entanto, uma conversa recente com um amigo, que reencontrei após a pandemia, trouxe à tona uma perspectiva diferente. Ele compartilhou que, nos últimos três anos, sentiu a necessidade de se desligar do fluxo constante de informações. Essa confissão ressoou com algo que ouvi em um programa de rádio, onde um ouvinte revelou que sua única fonte de informação era o que sua esposa lhe contava.
Esses relatos nos levam a refletir sobre a sobrecarga informacional, um fenômeno que, como afirma Wilson (2001), não é novo: seu potencial existe desde que a informação se tornou essencial para qualquer atividade humana. Com o crescimento exponencial do volume de informações, surge a questão de como isso afeta o indivíduo no nível pessoal.
Podemos entender a sobrecarga de informação como a percepção de que o fluxo de dados que recebemos, especialmente em contextos de trabalho, excede nossa capacidade de gerenciá-lo de maneira eficaz. Essa percepção gera estresse e, muitas vezes, as estratégias convencionais de enfrentamento se mostram insuficientes.
Um exemplo histórico notável do impacto que a informação pode ter sobre o público foi a dramatização radiofônica de 1938, na qual um radialista usando um roteiro de Orson Welles simulou uma invasão marciana. Embora o programa fosse claramente identificado como ficção, muitos ouvintes que sintonizaram mais tarde acreditaram que a Terra estava sendo atacada. O pânico que se seguiu ilustra como a tecnologia emergente pode intensificar a reação emocional e contribuir para a sensação de sobrecarga informacional (Burke, 2023).
Outro exemplo significativo é o artigo publicado na revista Lancet em 1998, que associava a vacina tríplice ao autismo. O estudo, que analisou 12 crianças atendidas no Royal Free Hospital, sugeriu a existência de uma nova síndrome que ligava o autismo à vacina. Embora tenha sido criticado desde sua publicação, o artigo teve enorme repercussão na sociedade, fomentando o movimento antivacinas. Só foi retratado 12 anos depois, mas por ter sido publicado em uma revista de alta credibilidade, o dano já estava feito, pois grande parte da população acreditou na suposta relação (Barboza; Martorano, 2017).
Os exemplos da dramatização do roteiro de Orson Welles em 1938 e do artigo publicado na Lancet em 1998 ilustram como a sobrecarga informacional pode gerar reações exacerbadas na sociedade. No caso da dramatização, ouvintes que sintonizaram após o início perderam o aviso de que se tratava de ficção, resultando em pânico generalizado. Já o artigo da Lancet, apesar de criticado, fomentou o movimento antivacinas, propagando desinformação e medo por anos. Esses casos mostram que, mesmo quando oriundas de fontes consideradas confiáveis, as informações podem intensificar o estresse informacional e ter efeitos duradouros.
Hoje, a sobrecarga informacional é quase um tema da moda, frequentemente associada ao avanço da tecnologia. No entanto, como nos lembra Wilson, a tecnologia não é a vilã dessa história. Ela apenas fornece os canais e mecanismos pelos quais a informação é distribuída ou acessada. O verdadeiro problema reside em como nós, como seres humanos, lidamos com esse fluxo incessante de dados.
A questão não se resume a ter mais informações disponíveis ou ao poder da tecnologia em nos fornecer mais do que realmente necessitamos. Há também fatores humanos em jogo, como nossa propensão a exigir e disseminar informações – o famoso "puxar e empurrar" informacional.
A necessidade de informação, ou "necessidade de cognição", como definido por Cacioppo e Petty (1982), refere-se ao grau em que uma pessoa sente a necessidade de estruturar e compreender o mundo ao seu redor, buscando informações para esse fim. Entretanto, qualquer um pode atuar como um "impulsionador de informação" seja compartilhando documentos impressos ou eletrônicos. Quando isso ocorre com base em uma "necessidade de saber", geralmente não há problemas. Contudo, situações patológicas de pressão informacional podem surgir por diversas razões.
Essa reflexão nos convida a reconsiderar a maneira como nos relacionamos com a informação e a necessidade de encontrar um equilíbrio saudável entre estar informado e evitar o esgotamento mental.
Referências:
BARBOZA, Renato; MARTORANO, Simone Alves de Assis. O caso da vacina tríplice e o autismo: o que os erros nos ensinam sobre os aspectos da natureza da ciência. In: MOURA, Breno; FORATO, Thais. História das ciências, epistemologia, gênero e arte. São Bernardo do Campo: Editora da UFABC, 2017.
BURKE, Myles. A falsa 'invasão alienígena' que mudou os EUA para sempre. BBC Culture, 27 dez. 2023. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cn49mgv737po
CACIOPPO, J T; PETTY, R E. The need for cognition. Journal of Personality and Social Psychology, v.42, n.1, p. 116-131, 1982.
WILSON, TD. Information overload: implications for healthcare services. Health Informatics Journal, v.7, n.2, p. 112-117, 2001. doi:10.1177/146045820100700210
Lilian Aguilar Teixeira - Doutoranda em Ciência da Informação pela Universidade de Coimbra em cotutela com a Universidade Estadual Paulista. Mestre em Psicologia pela Universidade Católica Dom Bosco. Especialista em Gestão da comunicação e marketing institucional. Bacharel em Biblioteconomia pelo Instituto de Ensino Superior da Funlec. Bacharel em Administração pela Uniderp. Bibliotecária da Universidade Federal do ABC. Membro do grupo de pesquisa Informação: Mediação, Cultura, Leitura e Sociedade – e-mail: lilian.teixeira@ufabc.edu.br