GP - INFORMAÇÃO: MEDIAÇÃO, CULTURA, LEITURA E SOCIEDADE


  • Grupo de Pesquisa - Informação: Mediação, Cultura, Leitura e Sociedade - Textos elaborados por membros do Grupo, visando a divulgação de pesquisas específicas realizadas no seio do GP e a disseminação de discussões e reflexões desencadeadas pelos integrantes do grupo.

NOS BASTIDORES DA PESQUISA: APRENDIZADOS ALÉM DA TESE

                                                                                                                 Thiago Giordano Siqueira
 


Ser aprovado no Programa de pós-graduação em Ciência da Informação foi como entrar em um clube secreto dos intelectuais inquietos. Só que, ao invés de senhas sussurradas ou apertos de mão codificados, a entrada exigia uma combinação de um projeto bem alinhado, leitura exaustiva e, claro, um pouco de sorte. Quando vi meu nome na lista de aprovados, senti a euforia de quem vence uma maratona — e só depois percebi que a verdadeira corrida estava apenas começando.

Foi nos bastidores dessa trajetória que aprendi as maiores lições: lições que não estão nos artigos acadêmicos ou nas diretrizes da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), mas na vivência diária de um pesquisador. É sobre esses bastidores — os erros, os acertos, as dúvidas e os momentos de brilho — que quero compartilhar aqui. Porque, no fim das contas, a Ciência da Informação não é apenas sobre organizar dados ou conhecimento; é também sobre compreender e contar histórias. E esta é a minha.

Logo no primeiro ano, mudei de Estado para estar mais próximo do programa, abandonando uma rede de conforto construída ao longo de anos. O que parecia ser apenas uma questão logística se revelou um desafio emocional e prático: novas rotinas, novas conexões e o desafio de me adaptar a um lugar.

Cursar as disciplinas é a parte de socialização e ampliação de reflexões, isto porque como um bom Ofajer (nome atribuído por nós, discípulos do Prof. Oswaldo Francisco de Almeida Júnior), concordamos que o processo de doutoramento é muito mais reflexivo que formativo.  

No segundo ano, as coisas começam a ficar mais palpáveis e menos teóricas. Ainda que eu tivesse a clareza de que o doutorado não seria um caminho linear percebi que a realidade acadêmica pode ser composta de reviravoltas, becos sem saída e epifanias inesperadas as quais nem imaginava. Momentos pelos quais a realidade era muito mais parecida com as escadas de Hogwarts: sempre em movimento, mudando de direção quando você menos espera e exigindo atenção constante para não se perder. Entre os altos e baixos, encontrei momentos de angústia, mas também de transformação.

Um programa de excelência tem suas exigências, entre as quais: publish or perish. Onde a pressão implícita ou explícita, bem como a autocobrança me levava a viver dias em que as palavras pareciam fugir de mim, e o cursor piscando na tela era uma lembrança constante de que algo precisava ser feito. Dias em que uma longa tarde resultava em um parágrafo... Enfim, com o tempo aprendi que não importava o quanto eu planejasse ou tentasse forçar o fluxo, algumas páginas simplesmente se recusavam a sair naquele dia e naquela hora. Esses momentos acabavam por desencadear crises de ansiedade por pensamentos de corresponder ao nível do programa, lidar com prazos e, ao mesmo tempo, ajustar-me a uma nova realidade - era uma combinação explosiva. Nesse sentido, fica a dica: entenda que a escrita não é apenas um produto do trabalho acadêmico, mas também uma forma de processar as suas próprias emoções e experiências.

Mas é importante destacar as coisas boas. Momentos que fizeram tudo valer a pena. Um dos lugares mais especiais dessa jornada foi a Sala 15, no Centro de Apoio ao Desenvolvimento e Pesquisa na Área de Humanidades. Mais do que um espaço físico, ela se tornou nosso QG — um ponto de encontro para ideias, risadas e, principalmente, apoio mútuo. Era ali que, entre pilhas de livros, laptops e anotações, compartilhávamos dúvidas, insights e, claro, algumas boas xícaras de café. A generosidade da professora Marta Valentim em permitir que utilizássemos aquele espaço transformou a Sala 15 em algo único. Ali, éramos mais do que colegas; éramos uma comunidade. Saímos dali com uma nova visão sobre nossos projetos, mas, mais importante, com a certeza de que não estávamos sozinhos na caminhada.

Além disso, as conexões que fiz em eventos acadêmicos e grupos de pesquisa foram outro ponto alto da jornada. Participar de congressos e seminários não era apenas uma oportunidade de compartilhar meu trabalho, mas também de me inspirar com as histórias e projetos de outros pesquisadores. Uma conversa rápida durante um intervalo, um debate acalorado após uma palestra ou mesmo um encontro inesperado no café do evento muitas vezes se tornaram sementes de ideias que impactaram diretamente minha pesquisa. 

Entre a Sala 15, os eventos acadêmicos e as conversas nos corredores, percebi que a jornada do doutorado não era feita apenas de artigos e capítulos. Era, acima de tudo, uma construção coletiva, recheada de momentos de alegria, apoio e crescimento compartilhado. Esses instantes, por mais simples que fossem, me lembravam que a ciência da informação é, no fundo, uma rede de histórias e conexões humanas. E eu estava vivendo uma das mais significativas.

Ao olhar para trás, percebo que essa jornada não me transformou apenas como pesquisador, mas como pessoa. O doutorado foi muito mais do que uma etapa acadêmica; foi um processo de autodescoberta e amadurecimento. Aprendi que os desafios são parte essencial do crescimento e que, muitas vezes, as respostas mais valiosas não estão nos livros ou nas teorias, mas nos momentos de troca, nas conexões humanas e na resiliência diante das adversidades.

Essa experiência me ensinou a importância de abraçar o processo como uma jornada, e não apenas como um caminho em direção a um destino. Cada dia de trabalho — desde os momentos de bloqueio criativo até as tardes inspiradoras na Sala 15 — contribuiu para algo maior do que o produto da tese. Foi no percurso, com suas reviravoltas e aprendizados, que realmente encontrei meu lugar como pesquisador.

Convido você, leitor, a refletir sobre o valor das histórias por trás de cada tese ou artigo que cruzamos em nossa trajetória acadêmica. Cada trabalho que lemos ou escrevemos é o resultado de um universo particular de experiências, desafios e inspirações. É fácil focar apenas nos resultados, mas é nas entrelinhas da jornada que se escondem as maiores lições.

E assim, compartilho esta história como uma forma de celebrar não só os resultados do doutorado, mas todo o caminho que percorri para chegar até aqui. Porque, no fim das contas, a Ciência da Informação — e a vida — é feita disso: histórias que organizamos, contamos e vivemos.


   345 Leituras


Saiba Mais





Próximo Ítem

author image
BIBLIOTECÁRIA, DEFENSORA DE DIREITOS E MEDIADORA DA INFORMAÇÃO: UMA RELAÇÃO POSSÍVEL.
Junho/2025

Ítem Anterior

author image
EU SOU O MARTINHO LUTERO
Fevereiro/2025



author image
INFORMAÇÃO: MEDIAÇÃO, CULTURA, LEITURA E SOCIEDADE

Grupo de Pesquisa Informação: mediação, cultura, leitura e sociedade