A REPRESENTAÇÃO DE BIBLIOTECAS NA MÚSICA DE RUA E SUA AUSÊNCIA EM ÁREAS PERIFÉRICAS: UM CONVITE PRO MAL
Igor Mendes da Silva
Há tempos e em peso se discute a função social de bibliotecas em áreas e em grupos marginalizados — essa é uma frase formidável de se ouvir, infelizmente não possui respaldo no que concerne a fidedignidade. Embora existam linhas de pensamentos no âmago do universo biblioteconômico que discutam o cerne da questão (Almeida Júnior, 2021), a hegemonia da área sempre pareceu ignorar este universo.
A problemática envolvendo a ausência de bibliotecas é discutida na área, mas pouco em seu sentido político, o que seria desejável. Para manter o controle, a necessidade e a urgência, o desacesso à informação é mais do que necessário, é um projeto.
Para esse que vos fala, a biblioteca, mais especificamente a biblioteca pública municipal de Marília, centro de refúgio durante as fugas daquilo que o Estado tinha a oferecer (violência, péssima educação e saúde), exerceu função de resgate. É claro que andar por ruas cinzas esburacadas e cobertas de pinos (eppendorf) de pó (cocaína) e estojos de munição, condiciona inexoravelmente qualquer um ao fracasso (o cheiro da pólvora no ar, o toque da neve na pele gelada e o gosto de sangue no estômago — nunca sairão destas memórias).
No que concerne ao universo infinitamente poético e devastador — periferia e a área de conhecimento milenar, biblioteconomia —, coloquemos um terceiro elemento fundamental de sobrevivência, a arte. A manifestação de desejos, ódios e amores tem um papel essencial na comunicação humana, afinal a "arte existe porque a vida não basta". A célebre frase do poeta brasileiro Ferreira Gullar (Trigo, 2010), possui a potencialidade de desdobramento para uma pluralidade de interpretações e questionamentos.
Em meio a planejamentos institucionalizados ou não, que almejam a dominação por meio da necessidade provinda da marginalização, é possível afirmarmos que todos vivem? Ou que a maioria apenas sobrevive? A arte nesta linha de questionamento possui um papel de extrema relevância, o de expressão. Por sua vez, a expressão possui papel comunicativo, uma ação de interferência, uma relação, entre o artista e o ouvinte por meio da música, isso em obras artísticas sonoras. Esse processo, embora passe por vezes despercebido, é responsável pelo construto daquilo que chamamos de mediação da informação (Almeida Júnior, 2015).
Durante visitas ao palácio das lembranças, morada da deusa Mnemosine, mais especificamente nos aposentos de Euterpe, musa da música, se tornou possível mergulhar em memórias abissais. Apenas enquanto hóspede de águas profundas, oceano de fragmentos, prisão de reflexos e reflexões, que se ouve resquícios melódicos do canto de uma sereia — um sussurro sutil — um convite.
Pensando na abstração deste murmúrio, quem vos fala, ou talvez melhor dizendo, que fala para si, recordou-se de um convite. Declamada pelo grupo de rap de São Paulo, 38Mil Manos, a música — Um Convite pro Mal, representa de modo evidente o objeto aqui estudado, afinal “quem não tem bibliotecas ou parques vai desenvolvendo talentos em portas de bares”. Mas é claro que a biblioteca não pode ser tratada como paladina equipada de espada e escudo frente às malícias do mundo (ou pode?). Podemos notar as afetações da ausência de bibliotecas em determinadas passagens da enunciação poética.
“Me chamam pra fumar, me chamam pra cheirar […]” consequência da marginalização. Presente cotidianamente em periferias, o incentivo ao uso de substâncias ilegais e prejudiciais à saúde (possui inclusive índice elevado em áreas periféricas, United Nations Office on Drugs and Crime, 2020). “É foda, desempregado e com pouco estudo, os malandros da área me chamam pra fazer um furto […]”. Em localidades com baixa concentração de renda e estabilidade econômica cria-se uma amálgama com as taxas crescentes do crime e da violência (Raiher, 2020). Uma biblioteca poderia ser capaz de ofertar novas fugas, para além daquelas destrutivas? (talvez, um talvez, um distante talvez, apenas mais um sussurro).
BIBLIOGRAFIA
38 MIL MANOS. Um Convite pro Mal. São Paulo: Delarua Records, 2015. Áudio (5:26 min.).
ALMEIDA JÚNIOR, O. F. Biblioteca pública: ingênua, astuta e crítica. Revista Eletrônica da Associação dos Bibliotecários e Profissionais da Ciência da Informação do Distrito Federal, Brasília, v. 5, n. 1, p. 48–67, jan./jun. 2021. Disponível em: https://brapci.inf.br/v/166250. Acesso em: 08 jun. 2025.
ALMEIDA JÚNIOR, O. F. Mediação da informação: um conceito atualizado. In: BORTOLIN, S.; SANTOS NETO, J. A.; SILVA, R. J. Mediação oral da informação e da leitura. Londrina: Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação, 2015. p. 9–32.
RAIHER, A.P. Condição de pobreza e criminalidade: uma análise espacial entre os municípios do Paraná. Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, 2020. Disponível em: https://www2.uepg.br/ppgeco/wp-content/uploads/sites/130/2020/07/Condição-de-pobreza-e-criminalidade-Uma-análise-espacial-entre-os-municípios-do-Paraná.pdf. Acesso em: 08 jun. 2025.
TRIGO, L. 'A arte existe porque a vida não basta', diz Ferreira Gullar. G1, 2010. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/flip/noticia/2010/08/arte-existe-porque-vida-nao-basta-diz-ferreira-gullar.html. Acesso em: 08 jun. 2025.
UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME. Relatório Mundial sobre Drogas 2020: consumo global de drogas aumenta, enquanto COVID-19 impacta mercados, aponta relatório. UNODC, Vienna, 2020. Disponível em: https://www.unodc.org/lpo-brazil/pt/frontpage/2020/06/relatrio-mundial-sobre-drogas-2020_-consumo-global-de-drogas-aumenta--enquanto-covid-19-impacta-mercado.html. Acesso em: 08 jun. 2025.