GP - INFORMAÇÃO: MEDIAÇÃO, CULTURA, LEITURA E SOCIEDADE


  • Grupo de Pesquisa - Informação: Mediação, Cultura, Leitura e Sociedade - Textos elaborados por membros do Grupo, visando a divulgação de pesquisas específicas realizadas no seio do GP e a disseminação de discussões e reflexões desencadeadas pelos integrantes do grupo.

O PAPEL CRÍTICO DA MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO NA CONSTRUÇÃO DE LUTAS E RECONHECIMENTO NAS PERIFERIAS

JETUR LIMA DE CASTRO

A complexa relação entre mídia, informação e sociedade expõe um cenário de contrastes e desigualdades profundas nas comunidades periféricas brasileiras. Por um lado, a mídia tradicional parece ignorar a diversidade e a complexidade desses territórios, reforçando narrativas estigmatizantes e estereotipadas. Rabello e Almeida Júnior (2020) discutem a necessidade de um olhar crítico sobre a representação midiática das periferias, argumentando que a mídia tradicional frequentemente perpetua estereótipos negativos que desumanizam esses grupos.

Por outro lado, a falta de acesso à informação nas periferias amplia as barreiras sociais, mantendo essas populações em uma posição de vulnerabilidade e exclusão.  É nesse contexto que a mediação da informação surge não apenas como uma ferramenta de comunicação, mas também como um campo simbólico para o reconhecimento e a justiça social. A mediação da informação, embora muitas vezes apresentada como um processo neutro e técnico, é na verdade profundamente política. Quando um mediador escolhe o que deve ser transmitido e como isso será feito, ele também está selecionando quais histórias serão contadas e quais vozes serão ouvidas. Essa intencionalidade torna-se ainda mais evidente nas periferias, a qual a mediação precisa lidar com a tarefa de romper barreiras simbólicas e dar visibilidade às narrativas marginalizadas. No entanto, essa prática frequentemente enfrenta obstáculos estruturais, como a falta de recursos, o desinteresse institucional e o preconceito enraizado na sociedade.

As bibliotecas públicas e outros espaços informacionais poderiam desempenhar um papel mais ativo na transformação dessas realidades. Em vez de apenas reagirem a um proposito funcional, deveriam ser centros de resistência cultural e de empoderamento comunitário.  No entanto, a realidade é outra: muitas vezes, esses espaços são administrados de forma burocrática, sem uma verdadeira conexão com as necessidades locais.

A proposta de Almeida Júnior (2016), de transformar as bibliotecas em centros de troca de narrativas, embora benéfica, ainda parece distante da realidade, já que a maioria desses espaços enfrenta limitações financeiras e falta de treinamento para os profissionais. A mediação, assim, perde seu potencial transformador ao limitar a informação em uma transmissão passiva de conteúdos, sem interação ou adaptação às demandas das comunidades.

Além disso, a mídia tradicional desempenha um papel na perpetuação de estereótipos sobre as periferias. Notícias que retratam esses espaços apenas sob a ótica da violência e da carência reforçam a imagem negativa das comunidades, ignorando suas iniciativas culturais, artísticas e de resistência. Esse retrato simplista contribui para a construção de um “outro” marginalizado, visto como uma ameaça ou como um problema a ser controlado. A mediação da informação enquanto fenômeno emancipatório de ação de interferência, propõe desafiar essas narrativas hegemônicas e promover um olhar mais complexo e justo sobre as periferias, evidenciando a riqueza cultural e a capacidade de organização desses espaços.

As mídias alternativas de comunicação, redes sociais, rádios comunitárias e cineclubes, têm se mostrado uma saída para a criação de contranarrativas, isto é, ações de interferência que destaca a capacidade desses coletivos de influenciar e modificar o discurso público e o imaginário coletivo sobre a periferia. Esses espaços permitem que as comunidades periféricas tomem a palavra e contem suas próprias histórias. As ações de interferência podem ser aplicadas por um profissional ou por um grupo de sujeitos, indicando a possibilidade de colaboração entre profissionais para atender às necessidades informacionais.

No entanto, mesmo essas interferências de mediação enfrentam desafios significativos, como a falta de infraestrutura e a censura.  Além disso, a mediação da informação nas periferias destaca-se também como uma forma de luta por reconhecimento e dignidade, algo que vai além do acesso ao conhecimento. Judith Butler (2015), em sua teoria das vidas precarizadas, nos lembra que algumas vidas são consideradas menos dignas de atenção e proteção. Isso se reflete nas periferias urbanas, em que a violência institucional é cotidiana e a precariedade é normalizada. A mediação, nesse sentido, não pode ser neutra: ela está no ato político de resistência do protagonismo das pessoas que vivem nessas condições.

Entretanto, a metáfora da “ponte”, ainda frequentemente usada para descrever a mediação, é limitada e muitas vezes equivocada. A ideia de uma transmissão linear de informação ignora a complexidade das interações sociais e das negociações que ocorrem na mediação real. Nas periferias, isso significa lidar com múltiplos desafios: desde o reconhecimento das necessidades locais até a resistência contra a violência e as narrativas hegemônicas que desumanizam os moradores. A simplificação do papel do mediador como um mero transmissor de informações apenas perpetua a falta de efetividade na inclusão social.

O maior desafio nas periferias não está apenas em adaptar conteúdos, mas em criar um verdadeiro compromisso coletivo com a justiça social. Isso implica em transformar a forma como as bibliotecas, os espaços culturais e as mídias lidam com as periferias. Implica em romper com a visão de que a informação é um privilégio das classes mais favorecidas e em reconhecer que ela é um direito básico, essencial para o desenvolvimento de uma cidadania plena.

Nesse sentido, as ações de mediação podem ser orientadas por uma perspectiva crítica, comprometida em promover uma sociedade mais justa. A mediação da informação nas práticas periféricas é não apenas uma alternativa, mas uma necessidade urgente para enfrentar as desigualdades históricas. Para isso, é preciso que os profissionais da informação estejam dispostos a enfrentar as estruturas que perpetuam a exclusão. Isso inclui repensar as práticas, desafiar as hierarquias de poder e, acima de tudo, estar ao lado das comunidades em suas lutas cotidianas por reconhecimento e dignidade.

A mediação que ecoa vozes nas periferias brasileiras é um ato político, uma prática de resistência e uma ferramenta de transformação social. Ela não pode ser neutra nem passiva; deve ser ativa, crítica e voltada para a inclusão. A luta por uma mediação mais justa e inclusiva é, em última análise, uma luta por uma sociedade mais democrática, onde a informação seja um direito e não um privilégio. Só assim poderemos construir uma realidade em que as vozes das periferias sejam realmente ouvidas, reconhecidas e respeitadas.

A construção de redes de apoio entre as periferias e os setores acadêmicos, governamentais e de ONGs pode impulsionar a visibilidade e o impacto das práticas de mediação. A articulação em rede pode permitir uma troca mais ampla de experiências e saberes, além de potencializar a força coletiva na luta. A capacitação de mediadores locais em informação também é estratégica, pois os próprios membros da comunidade, conhecem suas dinâmicas internas e podem atuar como mediadores sendo eles também fontes efetivas de informação oral.

 

REFERÊNCIAS

ALMEIDA JÚNIOR, O. F. de. Mediação da informação, sociedade e biblioteca pública. In: Almeida Junior, O. F. Infohome [Internet]. Marília: OFAJ, 2016. Disponível em: https://ofaj.com.br/espacoofajs_conteudo.php?cod=9. Acesso em: 6 mar. 2024

BUTLER, J. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

RABELLO, R.; ALMEIDA JÚNIOR, O. F. Usuário de informação e ralé estrutural como não-público: reflexões sobre desigualdade e invisibilidade social em unidades de informação. Informação & Sociedade: Estudos, v. 30, n. 4, p. 1-24, 2020.

 

JETUR LIMA DE CASTRO - Doutorando no PPGCI – UNESP/Marília – jetur.castro@unesp.br


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