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O QUE A SUA HISTÓRIA DE LEITURA REVELA SOBRE VOCÊ

Thiago Giordano Siqueira

Nada de mapa rígido. Disseram que eu podia soltar a criatividade e criar uma cartografia das minhas leituras. Fechei os olhos e viajei bem grandão. Estava em um evento que celebra livros, literatura e leituras. Entre amigos, tracei uma cartografia viva do que li e de quem me ensinou a ler. As lembranças acenderam faróis. Vozes, objetos e cenas que me escolheram tanto quanto os escolhi.

Começo em casa. As oralidades dos avós antecederam qualquer decifração de letras. Ritmo, cadência, pausas. Cada história instalava um modo de ver o mundo. Meu pai presenteava gibis. Eram passaportes. Roteiros curtos. Humor imediato. Nas viagens, eu lia outdoors como quem decifra placas de uma cidade desconhecida. A paisagem corria. As palavras pediam atenção. Aos domingos, meu avô e minha mãe abriam os encartes de jornal. Havia desejo de novidade e estudo de preço. A Revista Casa Cláudia chegava pela estética. Montava espaços na cabeça como seria minha casa no futuro e isso me ajudou até hoje a criar lindas casas no The Sims.

Meu avô me apresentou às bulas de remédio. Letras miúdas. Verbos urgentes. Ali descobri que a linguagem também assusta, adverte e prescreve. Foi nessa época que ele me explicou o que era posologia. A palavra desenhou fronteiras. Quantidade. Frequência. Finalidade. Compreendi que certos textos não informam apenas. Eles governam práticas. Ler tornou-se um ato de cuidado.

Minha avó, com as orações da catequese, afinou o ouvido para a cadência das palavras. O Salve Rainha foi o que pediu mais tempo para ser decorado. A cabeça buscava sentido. A leitura ganhou espessura afetiva quando ela ensinou também a Oração do Anjo da Guarda e aquelas de antes de dormir e ao levantar-se. O corpo repetia. A memória assentava. O texto virava companhia.

Com a mesada, comprei a Revista Recreio. Primeiro pelos brindes. Depois pelas matérias, curiosidades e jogos. Aprendi uma coisa simples. Ninguém começa pelos tratados. Primeiro vem o jogo. O jogo acende a curiosidade. A curiosidade puxa o fio da investigação. Quando a investigação é bem guiada, a descoberta volta a ter gosto de primeira vez.

A escola ampliou a trilha. Professores de língua portuguesa e literatura foram decisivos. Lembro a força de A marca de uma lágrima, de Pedro Bandeira. A voz da professora dava corpo ao texto. Leitura dramática. Pausas, ênfases, respirações. Outra professora me aproximou de poemas e trechos de teatro. Líamos Meu caro barão, de Chico Buarque, para perceber ritmo e ironia. Letra mágica, de José Paulo Paes, para brincar com a forma e a metamorfose das palavras. E A bailarina, de Cecília Meireles, para sentir a musicalidade e a delicadeza das imagens. A palavra ficou tridimensional. Tinha som. Tinha gesto. Tinha subtexto.

Na universidade, a leitura mudou de regime. Ganhou método, referências, prazos. Cresceram os artigos, teses e dissertações. A leitura por prazer recuou. No doutorado, encontrei um respiro. Meu orientador tem o hábito de abrir as reuniões do grupo com um poema ou uma canção. Letras potentes. Ideias arejadas. Um lembrete necessário. A ciência pensa. A arte respira.

Na roda, além das lembranças, vieram também as recusas. Há coisas que não leio e, portanto, há travas. Por isso, tenho dificuldade com clubes de assinatura e de leitura. Ainda que a curadoria seja primorosa, o corpo resiste. Assim, a pergunta adequada não é por que recuso, e sim o que recuso: o gênero, o tom, o ritmo, a moral da história, o pacto com o leitor. Quando a recusa é nomeada, ela deixa de ser obstáculo e passa a ser dado. Com esse dado em mãos, torna-se possível testar hipóteses com mais calma.

Abrir-se ao novo pede gestos pequenos. Antes de grandes saltos, microcompromissos. Se um gênero me afasta, começo por contos antes de romances. Se um autor parece complicado, primeiro leio uma entrevista, uma crônica ou uma carta dele. Se a teoria é fechada, busco um resumo confiável e vou entendendo pelos lados. Quinze páginas hoje e mais quinze amanhã. Uma conversa com quem já leu. Uma passagem grifada que ressoa. O gosto não se impõe, ele se ensaia.

Além de clubes de leitura, vale variar as arquiteturas de encontro. Rodas temáticas curtas, leituras guiadas por problemas, grupos que alternam formatos entre poema, artigo e fragmento audiovisual, além de curadorias de trechos que cabem no tempo real das pessoas. Em tempos de sobrecarga, fechar pequenos ciclos devolve senso de avanço. Como ler exige atenção, e atenção é rara, a chave é uma disciplina gentil. Reservar um bloco de tempo, silenciar notificações, escolher um lugar confortável e acolher o silêncio como ferramenta. Um único parágrafo lido em presença vale mais do que muitas páginas corridas e distraídas.

Também ajuda lembrar que a leitura acontece em lugares. Há textos que pedem movimento, outros pedem mesa, outros pedem aconchego. Se a leitura acadêmica prende na cadeira, a leitura por prazer pode acontecer numa rede de descanso, no banco da praça, numa cafeteria ou mesmo na janela de casa. Trocar o cenário muda a relação com o texto.

No fundo, o que desejo é devolver à leitura o direito de produzir alegria. Não uma euforia vazia, mas alegria de forma. O encontro de ideias que reorganizam o mundo por dentro. A surpresa de um verso que acende uma lembrança. A paz de reconhecer que alguém já atravessou o que atravesso e deixou pistas. A roda de conversa lembrou isso. O mapa de leituras é também um mapa de cuidados.

E porque leio o que leio. Porque fui amado por pessoas que amavam palavras. Porque a escola abriu janelas. Porque a universidade ensinou a perguntar com rigor. Porque a pesquisa precisa de sustentação intelectual. Porque a poesia pousa onde a teoria não alcança. Porque a leitura, quando bem escolhida e bem cuidada, me reposiciona no mundo.

Dessa experiência, saí com duas decisões simples. Manter vivo o exercício de cartografar o que leio. Não como controle opressivo, e sim como diário de bordo. Registre uma linha diária: título, onde leu e como se sentiu. Em seguida, crie pontes entre mundos. Um artigo pede um poema que o desafie.

Por fim, fica o convite. Onde começa o seu mapa de leitura. Quem soprou páginas na sua direção. Quais travas ainda limitam suas escolhas. Que microcompromisso você pode assumir para explorar um território novo. A leitura não precisa ser heroica para ser transformadora. Precisa ser contínua, honesta e curiosa.

Agradeço aos que me formaram leitor (e trabalharam a minha alma como disse Daniel Munduruku em uma conferência). Aos avós que ensinaram a escutar. Aos pais que me fizeram ler o mundo em outdoors e encartes. Aos professores que deram voz ao texto. Aos colegas de pesquisa que sustentam a solidão das perguntas com partilha. Ao orientador que, a cada encontro, recorda que a ciência vive melhor quando respira poesia. A cada livro que entra, o lembrete essencial. Não leio para completar uma prateleira. Leio para ampliar o campo de presença.

 

 

Thiago Giordano Siqueira é bibliotecário-documentalista e professor universitário na área de Ciência da Informação. Doutor pela UNESP e mestre pela Universidad de Buenos Aires, desenvolve pesquisas sobre mediação da informação, práticas informacionais, organização do conhecimento e gestão de unidades de informação, com atuação em bibliotecas universitárias e projetos de inovação informacional.


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