LEITURAS E LEITORES


LENO, ESCULTOR DA ILHA BOIPEBA- BAHIA

A Ilha de Boipeba está localizada no sul do estado na Bahia, no município de Cairu, e compõe um dos arquipélagos mais famosos para o turismo do Brasil. No século XVI iniciou-se o povoamento da Ilha por parte dos portugueses, embora toda a região já fosse habitada pelos Aimorés, também conhecidos como Botocudos.

Chega-se a Boipeba pelas águas do Atlântico ou pelo rio do Inferno, que possui águas tranquilas que desembocam na chegada à Ilha.

Ao desembarcar na Boca da Barra, em Boipeba, entra-se em contato as águas mornas e a areia fina que acaricia os pés. É tão impressionante que parece que os olhos não conseguem ver tudo: luz, cor do mar, coqueirais, rio, mar e embarcações compondo um cenário paradisíaco.

 

 

Pôr do sol na Boca da Barra/Boipeba

Nesse enlevo o visitante passa por raízes de coqueiro que estão encravadas na areia, de modo tão integrado que parece ter estado sempre ali, mas ao olhar melhor, constata-se uma escultura, um rosto com traços étnicos de terras africanas e, ao mesmo tempo, tão comum em Boipeba.

Ali, junto à exuberância da natureza, o artista, sua sensibilidade e habilidade em esculpir em raízes dão boas vindas a quem chega a Boipeba. Trata-se de uma das esculturas de Leno.

Leno é um homem discreto, entregue à arte de esculpir na matéria-prima que está ao seu redor. Sua arte está intimamente ligada e integrada à Boipeba, não destoa, compõe a natureza a sua volta. Isso também reflete o respeito que o artista tem ao seu lugar, à natureza.

Quando se avista o artista próximo ao seu ateliê (que não é um espaço formal, separado por paredes, mas está ao ar livre, numa encruzilhada da saída do bairro Ribeirinho em direção à praia da Cueira) não se tem a dimensão da força criativa dele.

 

 

Ateliê em harmonia com a paisagem

No local, Leno expõe trabalhos e ao, mesmo tempo, tem um jirau pra trabalhar nas peças, cortar, serrar, talhar, dar forma, aperfeiçoar artisticamente a infinidade de matéria que a natureza ao seu redor oferece: galhos, raízes, pedras, cocos, restos de madeira de construção. O artista não derruba árvores para ter matéria-prima para as esculturas, apenas aproveita o que cai na mata, ou rejeito de obra ou que foi arrancado em alguma outra circunstância.

 

 

Galho caído, a próxima escultura

De acordo com o artista, um galho caído na natureza lhe desperta para a criação. É como se iniciasse uma conexão entre o escultor e o galho:

....eu antes de pegar um galho de pau desse, eu preciso conversar com ele...pra saber se estou correto, mesmo ele estando morto, eu vou ter que dar vida! Mas todo tipo de material que pego, tenho que parar para ter relação com ele. Eu e ele, como se a gente tivesse conversando... o escultor tem dom de conversar com a natureza, ele sabe o que a natureza quer.  (Depoimento de Leno em 02/03/22)

O artista usa instrumentos comuns, utilizados no cotidiano, para gerar beleza e provocar estranhamento, para emocionar por meio das esculturas que cria.

 

 

Instrumentos para cortar, talhar, lixar, esculpir

Leno é nativo de Boipeba, tem 48 anos, é casado e pai de 6 filhos e conta que 3 já estão “no meio da arte também”, pois há um que é artista plástico; o outro que é desenhista e o mais novo, de 14 anos, é aquele que começa a esculpir como o pai. Além disso, o artista já reconhece o interesse e a sensibilidade da neta de 3 anos que está sempre à volta do avô, curiosa e interagindo com suas criações.

Sua profissão inicial era pedreiro, mas teve um acidente e ficou meses afastado e, naquele período, começou a fazer um papagaio em madeira, sua primeira obra. De lá para cá, “pegou gosto”:

Eu trabalhava para uma empresa e aí tive um acidente fiquei uns meses parado [...] daí pra cá...a primeira arte que eu fiz foi um papagaio (em madeira). E aí peguei gosto...e eu comecei a criar os tipos de arte diferentes. Hoje, graças a Deus, todo tipo de arte eu sei fazer, sou um artista...tenho peças fora do mundo, no Brasil e todas aí...eu não consigo viver sem a arte. Essa é a verdade: eu não consigo viver sem a arte. Pra mim, ela tá dentro de mim(Depoimento de Leno em  02/03/22)

Segundo Leno, desde a infância ele sentia o chamado da arte, já tinha o dom dentro dele:

[....] Comecei a pegar amor com a arte desde os 7 anos de idade, eu já tinha esse amor desde os 7 anos... (Depoimento de Leno em 02/03/22)

A respeito de horários preferidos para esculpir, ele diz:

...à tardezinha... o sol se pondo e tem tempo que eu trabalho aqui até 10 h da noite e também acordo de madrugada...venho pra qui e começo a esculpir na madrugada. Horário melhor é você e a arte sozinha, à noite [...] tem contato entre você e a arte, o artista precisa disso. (Depoimento de Leno em  02/03/22)

Leno nunca foi a um museu, nunca viu nenhuma exposição de esculturas. Nem chegou a aprender a ler:

Eu não saio daqui pra nada... eu nunca saí daqui pra nada [...] eu sou analfabeto... (escrevo) malmente meu nome. Onde eu chego eu falo isso, não tenho vergonha de falar isso [...] tive escola, já...tive oportunidade de aprender, mas na ocasião que tive oportunidade de aprender, eu tive pai e mãe doentes...aí nós teve de trabalhar cedo para nosso pai, entendeu? [...] minha mãe mesmo doente trabalhava nas cozinhas dos outros [...] O momento que eu tive no colégio foi durante dois anos, mais ou menos assim... e tinha um par de sandália para mim e meu irmão. Meu irmão ia de tarde e eu de noite. Ou eu ia de manhã e meu irmão de tarde, a farda de meu irmão, ele tinha que chegar do colégio e lavar para eu usar. Era uma farda para duas pessoas. Foi um momento que a gente passou muito difícil quando a gente era criança. Nós morava num barraco de lona, minha mãe com 12 filhos homens [...]. (Depoimento de Leno em  02/03/22)

Mesmo sem estudo formal, Leno é bem articulado e desenvolto para falar a respeito de seu trabalho. Ele compartilha com aquele que o souber ouvir sua inteligência e sensibilidade em relação à arte de esculpir.

A obra dele, quando exposta ali na estrada, próxima à natureza, não chama atenção para si mesma. Isso poderia sugerir, num primeiro momento, que a obra não tem força. Entretanto, estar exposta junta à natureza, a céu aberto e não roubar a atenção apenas pra si pode ser uma das qualidades da obra de Leno. Ela está tão integrada ao entorno que parece apenas mais um componente dali, da paisagem.

 

 

Autor e obra

Assim como Leno, sua obra é vigorosa e, ao mesmo tempo, discreta. O artista é discreto. Ele discorre a respeito da composição de sua obra, de seu processo criativo, de sua rotina e horários para trabalhar nas obras, das interações que ocorrem por ter o ateliê ali à disposição de todos.

Na conversa com ele, irrompe um homem complexo, sensível e, acima de tudo, apaixonado pelo que faz.

 

 

Obras expostas

Nas esculturas pode–se constatar o universo da Ilha permeado pela imaginação do artista:

 

 

Detalhe de um réptil, lagarto.

Animais marinhos:

 

 

Uma baleia

Uma fruta pode se transformar num rosto:

 

 

Um rosto

Um tipo de barro que, quando exposto ao sol, enrijece, torna-se  pedra:

 

 

Uma das últimas obras que fez para uma pousada em Boipeba:

 

 

Escultura: peixe Marlim

Leno não teve escola formal para aprender a ler e muito menos para esculpir. Ele é um autodidata. Aprendeu no trabalho diário com cepa de coqueiro, madeira de reciclagem, galhos caídos e raízes de árvores, onde empresta sua habilidade como escultor e sensibilidade como artista para dar vida às suas obras.

O artista tem um sonho: criar uma escola de escultura em Boipeba para adolescentes, dos 12 aos 16 anos. Ele deseja ensinar aquilo que sabe às novas gerações.

A exuberância de Boipeba está na natureza, nas águas tépidas e, ao mesmo, tempo na riqueza de seu povo.

Consultas

CAIRU. Prefeitura de Cairu. Dados Municipais/História. Disponível em:  https://www.cairu.ba.gov.br/site/dadosmunicipais#historia. Acesso em: 12 mar. 2022

ILHA DE BOIPEBA. Disponível em: https://www.ilhaboipeba.org.br/boipeba.html Acesso em 09 de mar. 2022

SILVA, Rovilson J. Fotos e Gravação com Leno. Boipeba, BA. Mar. 2022.


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.