LEITURAS E LEITORES


HORACIO QUIROGA: FÁBULAS NA SELVA TROPICAL

Em janeiro passado estive em Buenos Aires e fui conhecer a Biblioteca Nacional, mas encontrei-a fechada, nessa época fecham-se as bibliotecas naquele país. É o mês de férias dos argentinos bibliotecários, não tenho informações se era no país todo, mas em Buenos Aires era assim, pois busquei pela biblioteca do Congresso Nacional e a resposta foi a mesma.

 

Aquela manhã nada tinha de fria, o calor era intenso na capital portenha. O que fazer? Busquei um café que estava em frente à Biblioteca Nacional, chamado Café del Lector. Enquanto saboreava um cortado (cafe con leche), percebi melhor o espaço ao redor: em frente havia uma praça com alguns banneres com fotos em preto e branco, que pareciam do início do século vinte: em todas elas sempre uma figura masculina de aparência distante.

 

Caminhei para lá e pude constatar que aquele homem mostrava-se multifacetado nas fotos: a figura de aparência inóspita, o olhar longínquo, o trabalho braçal numa oficina na selva; um vestido desenhado para sua amada; aparência embrutecida daquele homem contrastava com ações delicadas. Era Horacio Quiroga. Jamais tivera qualquer informação acerca dessa personalidade, era inteiramente ignorante a respeito dele e de seu fazer. 

 

Aqueles cartazes divulgavam uma exposição da Biblioteca Nacional sobre Quiroga, intitulada “Horacio Quiroga. Del banquete a la selva. Fotos de uma vida.”. As fotos me revelaram uma personalidade intrigante, que me desafiava a buscar informações a seu respeito. Sai dali com a certeza de que acabara de conhecer um escritor da literatura argentina, mas depois, numa livraria, descobri que ele era uruguaio e vivera parte de sua vida na Argentina entre a “selva” e Buenos Aires

 

Horacio Quiroga (Uruguai/1879 – Buenos Aires -1937) é considerado um dos expoentes do conto modernista hispano-americano, seus contos estão plenos de elementos sangrentos de amor e de morte, mas me reportarei aqui a Cuentos de la selva*, obra que o escritor compôs pensando em seus filhos quando ainda eram crianças. Aqui no Brasil temos alguns exemplos de autores que escreviam para adultos e que, quando tiveram seus filhos, escreveram obras destinadas a crianças, dentre eles destacamos Clarice Lispector, Jorge Amado.

 

As Missões, região do rio Paraná que faz fronteira entre Paraguai, Brasil e Argentina, é o cenário das histórias de Cuentos de la selva. Quiroga compôs histórias que resgatam o modo fabular de contar histórias, os enredos giram em torno de animais da região: jacarés, flamingos e tartaruga gigante compartilham o espaço com os humanos, dividem o protagonismo das histórias sem distinção de espécie, ora são bons ora são maus.  

 

No conto a Tartaruga Gigante, a narrativa inicia-se com aquela frase que abre as portas da imaginação para a criança:

 

 

Era uma vez um homem que vivia em Buenos Aires...Mas um dia adoeceu e os médicos lhe disseram que somente vivendo no campo, poderia curar-se. O homem enfermo aceitou...Vivia só no bosque e ele mesmo cozinhava. Comia pássaros e bichos...e depois comia frutas. Dormia debaixo das árvores... (p.23-25).

 

  

Certa vez, quando caçava, o homem encontrou uma tartaruga gigante e pensou em aproveitar sua carne, mas constatou que ela estava ferida e resolveu tratá-la de seus ferimentos até curá-la. A partir de então surge uma amizade entre ambos que salvará a ambos. 

 

E assim são as histórias, ora de amizade entre homens e animais, ora de hostilidade, como é o caso da A guerra dos Jacarés:

 

 

Em um rio muito grande, num país deserto onde nunca aparecera humanos, viviam muitos jacarés. Eram mais de cem mi (...). O vapor passou (...)

E como os jacarés tinham fome foram atrás de peixes, mas não encontraram nenhum (49-51). 

 

 

A paz dos jacarés é violada pelo homem e seus barcos (vapores) barulhentos que assustavam os peixes e causavam fome na população réptil. Trava-se uma batalha entre jacarés e humanos, cada um com sua estratégia, mas a sagacidade e união dos jacarés foram decisivas para por fim ao conflito.    

 

As fábulas clássicas têm enredo simples, direto e, ao mesmo, uma intensidade na mensagem que veicula. Assim, também são os contos de Horácio Quiroga, pois conquistam pela simplicidade e uma aparente ingenuidade a qualquer o leitor, seja ele de que idade for. 

 

* Cuentos de la selva, editorial Losada, Buenos Aires, 2004. No Brasil, Contos da Selva foram publicados pela Iluminuras.


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.