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FAMÍLIA HOMOAFETIVA NA LITERATURA INFANTOJUVENIL: COMPOSIÇÃO DO ACERVO DA BIBLIOTECA

Em cada época aparecem questões que desafiam a convivência harmônica entre as pessoas, pois sempre haverá tabus, preconceitos que surgirão de sociedade em sociedade, de tempos em tempo e que vão requerer coragem para enfrentá-los, em especial, se pensarmos no âmbito institucional. 

 

Da incompreensão frente ao novo, ao diferente surgem desafios para conviver, se não em harmonia completa, pelo menos com o respeito que é devido a todo ser humano e sua maneira de ser e de compreender o mundo.

 

Viver, conviver, é se defrontar no cotidiano com diversas polêmicas, que assim o são porque, muitas vezes, não queremos sair de nossa zona de conforto, porque “aprendemos assim”... porque “todo mundo faz assim”... porque existem explicações totalizadoras e frágeis, mais opinativas que fruto de reflexão.

 

Os dilemas humanos não esperam a permissão de ninguém, de nenhuma sociedade, para suscitar a reflexão a respeito do que até aquele momento era considerado um parâmetro social. Sabe por quê? Porque a vida é dinâmica e caminha com suas próprias leis e, nesse contexto, surgem as incompreensões, a violência até, mas também surgem as posturas de combate à intolerância e de apoio ao diverso humano e social.

 

Nesse contexto, um desses desafios atuais é a inserção de livros infantojuvenis com a temática “família homoafetiva” ao acervo da biblioteca destinada a essa faixa etária, quer seja na biblioteca pública, escolar ou comunitária.

 

A inserção ou inclusão de determinada obra, em especial, destinada à área da infância e adolescência requer consenso das instituições, pois é provável que enfrente resistência. O que fazer nessa situação? Não existem respostas modelo, mas a política de seleção de acervo de uma instituição, em especial da biblioteca, não pode ficar alheia às mudanças sociais, às demandas que ampliem a compreensão acerca das minorias sociais, para que tenhamos uma sociedade cada vez mais tolerante e equânime.

 

Se a biblioteca, de um modo geral, ainda ignora o acervo com essa temática, por outro lado, as editoras e livrarias, não. Desconheço se há algum levantamento das publicações brasileiras com essa temática, mas em 2007 foi traduzido o livro Meu amigo Jim” de Kitty Crowther, pela Cosac Naify. Trata-se da história de dois pássaros, Jack e Jim, o primeiro um melro e o segundo uma gaivota, que a despeito da diferença se encontram e fortalecem laços, independente da estranheza e preconceito encontrado na vila onde Jim mora. Uma abordagem delicada, adequada à compreensão da criança sem, no entanto, perder a literalidade que uma boa história para o público infantojuvenil deve possuir.

 

Três anos depois, em 2010, houve o lançamento de outras obras, dentre elas destaco duas: “Eu tenho duas mães”, de Márcio Martelli e “Olívia tem dois papais” de Márcia Leite, ambas as obras tratam da temática família homoafetiva.

 

Márcio Martelli compôs uma narrativa linear na obra “Eu tenho duas mães”, pois apresenta o cotidiano de um menino e suas mães que o acompanham em momentos comuns de qualquer garoto com sua família: a hora da refeição, o medo da vacina, os carinhos familiares etc. Enfim, a vida de um filho amado por suas mães. Talvez essa seja uma das virtudes da obra, tratar a temática de forma direta, simples, ou seja, a família apenas como família, independente da orientação sexual das mães.

 

Em “Olívia tem dois papais”, Márcia Leite, apresenta Olívia numa cena rotineira em sua casa. Num primeiro momento a menina dialoga com papai Raul enquanto ele trabalha em seu ateliê de pintura. Depois de algumas perguntas e peripécias da menina com seu pai Raul, ela vai procurar em outro cômodo da casa o papai Luís que trabalhava no computador. A partir de então, a menina conversa com seu outro pai que, logo após, acaba indo cozinhar para a filha que estava com fome.

 

Assim, é mais uma narrativa de cotidiano familiar, como se os livros de Martelli e Leite abrissem as portas da família homoafetiva para que os olhos das crianças e adolescentes pudessem ver o que parece óbvio, mas grande parte da sociedade não vê ou não quer aceitar: há famílias com pais com diversas orientações sexuais, mas isso não impede de serem famílias, de cultivarem o amor e o respeito mútuos.

 

De acordo com o IBGE (2010) já são mais de 60 mil famílias homoeafetivas no Brasil, muitas dessas uniões têm filhos e, portanto, frequentam escola, bibliotecas etc. Assim, a instituição pode até optar por não inserir esses livros em seu acervo, mas não poderá ignorar por muito tempo que há famílias e, principalmente, leitores usuários que fazem parte desse grupo.

 

Além disso, o acervo da biblioteca para crianças e adolescentes deve oferecer-lhes a possibilidade de ampliar a compreensão quanto à diversidade social, para que construamos uma sociedade mais igualitária, com respeito às minorias e, consequentemente, termos um país mais tolerante, mais educado, mais humano.

 

Referências

 

CROWTHER, Kitty. Meu amigo Jim. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

 

LEITE, Márcia. Olívia tem dois papais. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2010.

 

MARTELLI, Márcio. Eu tenho duas mães. Jundiaí /SP: Editora In house, 2010.


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ROVILSON JOSÉ DA SILVA

Doutor em Educação/ Mestre em Literatura e Ensino/ Professor do Departamento de Educação da UEL – PR / Vencedor do Prêmio VivaLeitura 2008, com o projeto Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes.