LITERATURA INFANTOJUVENIL


IDA E VOLTA PELAS RUAS DAS CIDADES

 

 

O escritor Luís Camargo produtor e pesquisador de literatura infantil que eu gosto deveras, relata no seu livro Ilustração do livro infantil que:

Em 1969, Juarez Machado desenhou nosso primeiro livro só de imagem: Ida e volta, que só foi publicado em 1975, primeiro em uma coedição Holanda/Alemanha; em seguida na França, Holanda, Itália e, finalmente em 1976, no Brasil, pela Primor. Atualmente vem sendo re-editado pela Agir. (Camargo, 1995, p. 71)

Eu comprei esse livro quando fui conhecer a Livraria Pé de Página, na Rua do Catetê, no Rio de Janeiro. Ou será que foi na Livraria Malasartes, também no Rio de Janeiro, que foi idealizada por Ana Maria Machado e Yaci Moraes; sendo a primeira livraria de livros infantis do Brasil. A memória me traiu... Não importa agora, importa que esse livro, o Luís e o Juarez são fantásticos.

Essa tal de memória, de vez em quando ou quase sempre, falha. Em especial, quando a gente passa do 60. Nesse instante, por exemplo, ela enrolou minhas caraminholas. Então, a única certeza que tenho é que foi em 1988. Sei disso porque na primeira página do livro está escrito com minha letra Rio jan.88.

Vasculhando melhor na memória concluo que foi na Malasartes, pois desejei conhecer a Ana Maria Machado pessoalmente, algo que não aconteceu.

Foi em 1988 também que numa conversa com Marisa Luvizutti imaginamos ser bem divertido que o livro Ida e Volta crescesse e fosse para as ruas. Pedimos, por escrito, a autorização para reproduzi-lo em tamanho-gigante e a Editora Agir permitiu. Se a memória não me falha, à época Juarez Machado morava em Paris.

Com as questões burocráticas resolvidas fizemos um Projeto (não sei se uma página datilografada pode ser chamada de Projeto) e fomos em uma empresa de materiais de construção – Battistela & Policastro, aqui de Londrina. Nos reunimos com o proprietário para apresentar a ideia. Ele, com poucas palavras, quase de imediato, avisou que além de concordar em ter o nome da sua empresa estampado na última página, mandaria o madeiramento/estrutura com dobradiças para permitir a montagem, a desmontagem do livro e o transporte do mesmo.

Assim, o livro impresso de 22x22cm, virou um livro gigante de 1,20x 1,80cm.

Saímos de lá radiantes. Reunimos no Sesc-Londrina uma equipe muito entusiasmada que aceitou o desafio de reproduziu a obra, isto é, ampliar e colorir as ilustrações. A equipe era composta por funcionários e voluntários, conforme pode ser constatado abaixo incluindo meu pai e minha mãe. Os últimos deram apoio cozinhando e transportando gente pra lá e pra cá.

 

 

O livro gigante Ida e Volta primeiramente ficou exposto no calçadão da Biblioteca Pública de Londrina, depois para o Sesc-Londrina e esteve na inauguração da nova rodoviária de Londrina e nela ficou mais de 30 dias. Ele ainda foi levado para Biblioteca Pública de Ibiporã e outras cidades da região.

 

 

 

 

Como é possível perceber a obra tem pegadas descalças na capa. Essas pegadas aparecem, com formatos diferentes, em todas as páginas do livro. Óbvio que não vou dar spoiler, mas preciso dizer que em alguns ambientes em que o livro Ida e Volta-gigante foi instalado pintamos ou adesivamos pegadas no chão. Com isso, o objetivo de diversão foi alcançado com naturalidade pelas crianças e, acredite se quiser, pelos adultos. Muitos deles quando pegos, por nós, colocando os pés nas pegadas, disfarçavam como se realizar um ato infantil pudesse desqualificá-los.

O meu exemplar de 1987 está surrado e com borrões de tinta usada para construir o livro gigante, mas essa sujidade é 100% perdoada.

 

 

Valeu cada mancha quando víamos os sorrisos e as malandragens dos leitores. Como exemplo incluo, sem identificar o menino malandrinho, uma foto tirada na rodoviária de Londrina em 1988:

 

 

Não posso fechar o texto sem dar um conselho, pois corro o perigo da minha amiga Ana Paula Pereira (que é assim como eu uma colecionadora de livros sem texto) me puxar as orelhas.

Leiam livros sem palavras, pois diferente do que pensa a maioria eles têm texto. Desçam de seus saltos altos e de suas botinas e se permitam mergulhar no saudável e criativo reino que os autores de livros sem palavras (hoje no Brasil são muitos) nos oferecem. Não tenham medo de errar a interpretação da obra, o livro sem palavras é assim mesmo possibilita múltiplas leituras. Usem e abusem da imaginação na hora de desenvolver projetos e ações com essa categoria de livro.

Quero agradecer a Marisa Luvizutti que fotografou o livro gigante em 1988 e seu marido Paulo H. Coiado Martinez que guardou e digitalizou carinhosamente as fotos para que eu pudesse utilizar nesse texto memorial.

 

CAMARGO, Luís. Ilustração do livro infantil. Belo Horizonte: Editora Lê, 1995.

MACHADO, Juarez. Ida e volta. 5.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1987.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.