QUASE DE CRIANÇA
Escrever absurdez
aborta
o bom senso.
(Manoel de Barros, 2011)
Não tenho certeza, mas estou QUASE paranoica, ando olhando para trás, pois tenho a desconfiança de que a palavra QUASE anda me perseguindo. Isso aconteceu desde o dia que li QUASE memória. Obra maravilhosa, insinuativa, pois a gente não sabe separar a ficção de realidade. Acho fantástico o autor Carlos Heitor Cony não demarcar o que é real e o que imaginário, em outras palavras, o que é biografia e que invencionice.
Acredito que ao ler literatura isso não interessa. Ler é transitar. Cada leitor escolhe a via que lhe apetece.
Há na atualidade uma propensão para classificar esse tipo de obras como autoficção, ou para os íntimos, autofic.
Eu dividiria em QUASE ficção ou QUASE verdade, mas quem sou eu na fila do pão, uma simples leitora sem o quilate de um crítico literário. O que eu sei é que obras como essas misturam vivências pessoais com fatos reais.
Clarice Lispector, por exemplo, fez isso na sua obra infantil QUASE de verdade que com humor e criatividade inventou diálogos com seu cachorro Ulisses. Leia esse livro e depois me conta o que acha!
Nas últimas semanas já tinha esquecido a palavra – QUASE, quando ganhei o livro de Manoel de Barros - Escritos em verbal de ave.
Quase tive um treco e virei cacareco.
Não conhecia esse livro. Até então eu só tinha Exercícios de ser criança. E digo: é fantástico! é fantástico! é fantástico! Na edição que tenho as ilustrações são “bordações” (tomei a liberdade de somar a palavra bordado com a palavra ilustração). Márcio Sampaio no posfácio dessa obra comenta que as bordadeiras “[...] construíram com ele [autor] um lugar de despropósitos, pura magia que nos enche de emoção e encantamento.” Isso é possível perceber quando Manoel de Barros ao se referir a criança ou a criança que existe em nós, diz:
Você vai encher os vazios com as suas
peraltagens
E algumas pessoas vão te amar por seus
despropósitos.
Exercícios de ser criança encanta pela liberdade do poeta em transgredir inventando palavras. Quanto ao livro Escritos em verbal de ave tem uma estrutura em formato de dobradura sanfonada que o leitor vai abrindo e lendo os 32 micropoemas que tem uma toada filosófica. Na sua ficha catalográfica só há a indicação - poesia brasileira insinuando que é para leitores com mais idade, mas na minha percepção as crianças têm capacidade de compreender, visto que são seres com maior liberdade interpretativas. Com facilidade entenderiam:
Vi um caracol
pregado nos muros
Da tarde
Outro exemplo:
Vi uma rã
sentada
nos braços da Tarde!
Parece que tudo que escrevi não tem nada com nada. Tem sim, pois poesia de poeta bom, não diz tudo, QUASE diz. E se o leitor pode também QUASE dizer vira um QUASE autor.
QUASE termino sem dizer que Manoel de Barros, nesse livro e em outros livros de adulto, faz referência a um tal de Bernardo, que dizem ser o “alter ego” do autor. Como não tenho certeza fico na minha ignorãças. Sei, no entanto, que Manoel postou QUASE na última dobra desse livro que: “Nossa linguagem não tinha função explicativa, mas só brincativa.” Tem coisa melhor do que brincar com poesia!
Sugestões de leitura:
BARROS, Manoel. Escrito em versal de ave. São Paulo: Leya, 2011.
BARROS, Manoel. Exercícios de ser criança. Rio de Janeiro: Salamandra, 1999.