MULHERES CORDELISTAS
A minha busca por cordéis é uma constante, mas quero contar que minha fase atual é procurar folhetos de cordel escrito por mulheres.
Tudo começou quando o professor João Arlindo dos Santos Neto me pediu para acompanhar o seu doutorando, Fabrício Alves da Universidade Federal do Pará em suas pesquisas na Biblioteca Central da Universidade Estadual de Londrina que possui um riquíssimo acervo de folhetos de cordel. Trata-se de uma das maiores coleções públicas e organizadas do mundo que recebe pesquisadores de vários países, em especial, da França.
Nessa oportunidade Fabrício fez um comentário que ficou gotejando na minha memória. “As mulheres cordelistas são invisíveis no mundo dos cordéis”. Na hora propus a escrita de um artigo a respeito disso que ainda não foi concretizado. Quem sabe depois da publicação dessa Coluna possamos providenciar isso (fica aqui um delicado puxão de orelha)
Desde então tenho, ainda de forma incipiente, realizado pesquisas e descubro fatos bem interessantes.
Então, fevereiro fui para o aniversário da minha sobrinha-neta em Fortaleza, comprei muitos folhetos e priorizei os escritos por mulheres. Encontrei algumas e fui ficando muito animada. Não satisfeita entrei na Biblioteca Pública Estadual do Ceará e descobri que nela, em agosto de 2024, foi inaugurada a Cordelteca. Não sei se isso aconteceu por acaso ou por atração... Só sei que foi assim eu atrás de folhetos e folhetos atrás de mim.
Como havia crianças me esperando para o almoço, só pude dar uma olhada rápida nos varais lindamente montados na Biblioteca. Fui ao balcão de atendimento e me informaram que a bibliotecária responsável estava em férias. O funcionário gentilmente anotou no papel o email dela.
Chegando em Londrina, esperei uns dias para não atrapalhar as férias da bibliotecária e enviei uma mensagem. O que eu queria saber era: nesse acervo composto por 1600 exemplares de cordéis há folhetos escrito por mulheres?
Passados alguns dias, Regina Célia Paiva da Silva me respondeu que sim e encaminhou a listagem com 80 nomes, isto é, há no cadastro da Biblioteca Pública Estadual do Ceará 80 mulheres que escrevem folhetos de cordel.
Confesso que o número me surpreendeu.
Estou pesquisando as biografias dessas mulheres e já é possível afirmar que a maioria são nordestinas, mas há também de outras regiões do Brasil.
Pesquisar folhetos de cordel é muito prazeroso e para não fugir da regra e num impulso ampliei a pesquisa para a área infantil. Fiquei muito feliz em encontrar no YouTube Cordéis e Canções para pequeninos corações com textos musicados. O que mais me encantou foi Bode Julião da cordelista Mari Bigio.
Bode Julião (Mari Bigio)
La? no Si?tio de vovo?
Tinha sapo e lagartixa
Tinha vaca, tinha porco
E um bode de barbicha
Tinha vaca, tinha porco
E um bode de barbicha
Era um bode diferente
Se portava como um ca?o
Batizei esse bodinho
O seu nome Julia?o
Batizei esse bodinho
O seu nome Julia?o
(Refra?o)
A?i que saudade
Que saudade bate no meu corac?a?o
A?i que saudade
Que saudade do meu Bode Julia?o (2x)
La? no Si?tio de Vovo?
Um barreiro de a?gua fria
E o bode na porteira
Trabalhando de vigia
E o bode na porteira
Trabalhando de vigia
Com um chocalho no pescoço
Avisava ao chegar perto
Dava um salto sobre o muro
Pra dizer “ta? tudo certo”
Dava um salto sobre o muro
Pra dizer ta? “tudo certo”
(Refra?o) (2x)
La? no Si?tio de Vovo?
Acendi uma fogueira
Pra lembrar de Julia?o
Meu bodinho de primeira
Julia?o ta? la? no ce?u
Julia?o virou estrela...
(Refra?o)
A?i que saudade
Que saudade bate no meu coração
A?i que saudade
Que saudade do meu Bode Julia?o
(2x)
O cordel é cantado tendo a sanfona como fundo musical. Maravilhoso! Assistir e ouvir é uma mistura de prazer e diversão. Deixo aqui o link: https://www.youtube.com/watch?v=vnst3kZ_HEg
Depois também o comentário que consta lá:
A canção Bode Julião é baseada numa história verdadeira, de um bodinho de estimação muito querido, divertido e cheio de personalidade! Ele partiu antes da hora, deixando muitas saudades. Essa música foi feita em sua homenagem, e também na intenção de abordar o tema da morte de forma leve e poética. A arte é um dos caminhos possíveis para ajudar as crianças a lidarem com emoções difíceis, perdas e frustrações. Adultos, ou melhor, crianças crescidas, também vão se emocionar com essa linda história em forma de canção!
Estou estupefata! A Mari Bigio é uma fada cantante, mas chega por hoje, paro por aqui, pois tenho que ouvir os demais cordéis, faça isso também!!
Sugestões de leitura:
BECE, Ascom. Biblioteca Pública Estadual do Ceará inaugura Cordelteca no dia no dia 28 de agosto. Disponível em: https://www.ceara.gov.br/2024/08/24/biblioteca-publica-estadual-do-ceara-inaugura-cordelteca-no-dia-28-de-agosto/#:~:text=O%20espa%C3%A7o%20dedicado%20ao%20cordel,de%20palestras%20e%20kits%20educativos. Acesso em: 21 jul. 2025.
BIGIO, Mari. Bode Julião. Youtube, 21 de abr. de 2022. 5min.24s. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=vnst3kZ_HEg. Acesso em: 20 de julho de 2025.