LITERATURA INFANTOJUVENIL


GLORIA KIRINUS: UM DIA MARAVILHOSAMENTE IMPROVISADO

Conheci a escritora Glória Kirinus em 1987 no 2º Congresso Brasileiro de Literatura Infantil e Juvenil em Niterói – Rio de Janeiro, portanto são 37 anos de vínculo afetivo. Nesse período nos encontramos aqui, ali e acolá, mas nesse dia 14 de novembro, aqui em Londrina, o tempo de convivência foi mais duradouro. Não sei como ela aguentou minha tietagem. Foram dois almoços, um jantar e mais de 12 horas de conversa. Conversamos na Vila Triolé, na Livraria Ciranda, no Museu do Café, no Sesc Cadeião. Andamos de Uber e ganhamos carona da minha amiga-bibliotecária Isabel Maria Aguiar, que também virou fã dela. Porém, o que mais fizemos, foi andar... andar... andar gastando O sapato falador pelas ruas da cidade.

Com o desejo de encontrar O camelo e o camelô pra comprar umas bugigangas, encontramos a Tartalira Tortulira. Tartalira é uma tartaruga personagem criada pela Gloria, mas não é uma tartaruga comum. Tartalira é uma tartaruga que “espiava o mundo de fora com olhos de assombro”:

A Tartalira já era leitora

do ritmo do mundo.

E acomodava

sem pressa

as notas musicais

no verso pautado

da vida.

Era assim

a Tartalira...

Era esse seu jeito.

E seu talento

era lento, lento...

à prova de todas as fúrias

e dos maus ventos.

[...]

Ainda hoje

a Tartalira vai devagar

pelo caminho longo...

p a r a  p a r a n d o  p a r a

contemplar a vida.

E a cada volta do verso,

ela joga fora

um ano de prosa

com o amigo vento...

(Kirinus, 1999)

 

Tartalirando por Londrina soubemos que O galo cantou por engano, mas nós não. Nós falamos de tudo: literatura, morte, vida, dores, alegria, família, política, conquistas, projetos, sonhos, frustrações, amor, violência, viagens, encontros e desencontros.

Isso compensou o medo que tive de não conseguir encontrá-la, pois sabia que viria à Londrina, sabia que daria uma oficina palavreira exclusiva para palhaços, mas onde seria não conseguia descobrir. Foi uma saga. Desde o mês de setembro fui falando com palhaços de diferentes grupos da cidade... No começo descobri que não podia me inscrever e me conformei, pois afinal a minha fase de Palhaça Maluquinha em Londrina já ficou para trás. Mas sou teimosa e continuei investigando, foi quando, na véspera, André Demarchi, o “mágico” tirou a Glória da cartola e, enfim, pude passear com ela.

Depois de Sete quedas, sete anões e um dragão (palhaços me perdoem é só uma brincadeirinha!) foi fantástico estar com ela mais uma vez. Digo mais uma vez porque ela esteve em Londrina, primeiro no Sesc Aeroporto (1989) e depois na Livraria Maluquinha (1992). Em 1998, 2004 e 2006 a minha memória falhou e eu não me lembro quem a trouxe.

Dessa vez nossa primeira conversa foi a magia que a Glória tem vivido com os atos e gestos de improviso dos diferentes palhaços nas oficinas que ela ministra no Paraná a dentro. Contou que está lavrando o Projeto Trupe da Saúde. Projeto lindo esse! Falou que está sendo uma grande aprendizagem fazer lavradeiragem com palhaços pela espontaneidade e leveza como eles encarnam a palhaçaria.

Aqui em Londrina seu encontro foi, especificamente, com os Doutores da Alegria Projeto esse que quando não chove ou Quando chove a cântaros aliviam as dores e tristezas e encantam as crianças internadas nos hospitais. Lá os palhaços-doutores proferem: Te conto que me contaram e aí a simbiose acontece: palhaços perguntam, crianças respondem, crianças duvidam palhaços dão prova que rir é o melhor remédio. Assim como as Lâmpadas da lua os palhaços, que são seres especiais, curam seres especiais.

Conforme íamos circulando tive a sensação que Quando as montanhas conversam, as terras removem e pude voltar aos idos de 1990. Falei para Gloria das minhas lembranças do nascimento do Plantão Sorriso em Londrina. Isso remexeu o meu coração que ficou saudosista de passado, então entrei no link http://plantaosorriso.org.br/ e me atualizei sobre esse movimento maravilhoso. Que deleite!!! Uma série de atos criativos.

Se tivesse tempo e se voltasse no tempo deixaria a Aranha castanha & outras tramas me enrolar em sua teia. Leria mais, escreveria mais e, quem sabe, terminaria meus textos para crianças que estão inacabados. Aproveito e mando um recado para o proprietário de Infohome Sr. Almeida Júnior que trama textos infantis, mas que os deixa na gaveta.

Sobre o texto literário, em suas Oficinas a Gloria Kirinus inspira a gente a se lançar na escrita e avisa:

Aos que habitam estas tramas no cotidiano que me abisma.

A captura do fio ficcional, quem pode explicar?

Sou salteadora de palavras e silêncios, cuidado...

O próximo pode ser você!

                                    (Kirinus, 2002, p.3)

 

Nesse instante com o coração acelerado, a única certeza que tenho: é que em 2025 pegarei carona com O pai do catavento e participarei da Oficina Lavra Palavra que a Glória ministra na sua biblioteca-casa em Curitiba. Quem sabe a Glória me conta como foi o encontro entre A lhama e o cisne que pelo título parece inusitado. Como juntar uma lhama e um cisne? A poeta sabe o que faz e eu, nela confio.

Tietando a Glória Kirinus presencialmente e, agora virtualmente, me lembro da minha Coluna publicada em novembro de 2009 quando narro meu primeiro encontro com ela:

Estava eu misturada com muitas pessoas desejosas de aprender literatura infantojuvenil quando entra “[...] uma senhora elegante numa sala lotada procurando um lugar para sentar, espevitada como sou, subi no patamar de uma janela. Nem imaginava que naquele instante iria conhecer Glória Kirinus uma poeta peruana-brasileira [...].

Nesse tempo de convivência posso afirmar que Glória Kirinus é uma Cigamiga, mas também uma Formigarra. Tomo a liberdade de brincar com as palavras delas, pois amo amo amo tanto o livro que tem esse título. Eu já comprei e já presentei (crianças e adultos) tantas vezes que, nesse movimento, já não tenho mais a primeira edição. Ando fuçando nos sebos para comprar, enquanto isso tenho a edição atual que é publicada pela Editora Paulinas.

Difícil falar desse obra, então para ser fiel a importância dela me aproprio da análise que consta no Dicionário Crítico da Literatura Infantil e Juvenil: “Inteligente reinvenção da velha fábula da Cigarra e da Formiga, esta nova história rompe os limites maniqueístas que as separavam como seres diferentes e acaba descobrindo em cada uma algo pertencente à outra.” (Coelho, 2006, p.305)

Preciso contar ainda que a obra Cigamiga/Formigarra tem duas portas de entrada, a porta com a narrativa da cigarra e a outra com a narrativa da formiga. As duas personagens e narrativas se encontram no miolo do livro e isso permite que o leitor comece do lado que quiser. É uma espécie de livro 2 em 1. Conto também que o Academia Cena Hum Artes Cênicas de Curitiba adaptou para linguagem teatral essa obra e, com certeza, quando for à Curitiba quero assistir esse espetáculo.

Para encerrar agradeço a Gloria por querer ir na Livraria Ciranda (rever a Denise), por aceitar minhas sugestões improvisadas de ir ao Museu do Café e ao Sesc Cadeião. E pela oportunidade de conhecer a Vila Triolé Cultural, espaço que vergonhosamente eu não conhecia presencialmente.

 

Sugestões de leitura

COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil e juvenil brasileira. São

KIRINUS, Gloria. Aranha castanha & outras tramas. Curitiba: Nova Didática, 2002.

KIRINUS, Gloria. Cigamiga/Formigarra. São Paulo: Paulinas, 2013.

KIRINUS, Gloria. O camelo e o camelô. São Paulo: Paulinas, 1997.

KIRINUS, Gloria. O galo cantou por engano. São Paulo: DCL, 2014.

KIRINUS, Gloria. O galo cantou por engano (O galo cantou por engano). São Paulo: Paulinas, 1997; (livro bilingue).

KIRINUS, Gloria. O sapato falador. 2.ed. Rio de Janeiro: Editora Nórdica, 1985.

KIRINUS, Gloria. O pai do catavento. Belo Horizonte: Aletria, 2021.

KIRINUS, Gloria. Quando chove a cântaros (Cuando llueve a cântaros). São Paulo:

KIRINUS, Gloria. Sete quedas, sete anões e um dragão (Siete cascadas, siete enanos y um dragon). Curitiba: Editora Braga, 1997. (livro bilingue)

KIRINUS, Gloria. Se tivesse tempo. Rio de Janeiro: Editora Nórdica,1988.

KIRINUS, Gloria. Se tivesse tempo (Si tuviera tiempo). São Paulo: Larousse do Brasil, 2010.

KIRINUS, Gloria. Tartalira, Tortulira. São Paulo: Paulinas, 1999.

KIRINUS, Gloria. Te conto que me contaram (Te cuento que me contaran). São Paulo: Cortez, 2004. (livro bilingue)

KIRINUS, Gloria. Um antônimo em meu nome. São Paulo: Paulus, 2018.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.