SAUDADE DE VÔ E PAI
Há muitos dias estou tentado terminar uma Coluna falando da minha admiração pela escritora e pelas obras de Lygia Bojunga Nunes, mais conhecida como Lygia Bojunga, mas meu texto me parece raso, incompleto, insignificante, manco. Os livros dela são profundos e instigantes e merecem algo mais trabalhado, mais tecido... Estou descontente, talvez a solução deva ser um texto escrito com mais mãos. Então adio!
Mudo de foco pra contar de um livro quase-sem texto que me foi apresentado pela magnífica mediadora de livros que já atuou em várias livrarias de Londrina e hoje atua na Loja Ciranda – brinquedos e livros para crianças. O nome dela é Leide e ela é a trabalhadora do livro que assessora a Denise Gentil proprietária desse espaço encantador. Leide é uma mulher de estatura pequena. Ela fala: deixa eu dar volta no balcão, pois não alcanço abraçar você. Pequena, mas muito sedutora, não tem varinha mágica, mas por conhecer os desejos e as paixões da sua clientela, fotografa e manda pelo whatsApp as novidades. Difícil resistir!!
Ontem fui buscar o livro indicado por ela.
O título dele é “As mãos do meu pai”, foi publicado numa parceria Editora Boitatá (São Paulo) e Editora Pé de Estrelas (Lagoa dos gatos – Pernambuco). Pé de Estrelas eu não conhecia e aproveito para dizer que a gente acaba não tendo contado com editoras geograficamente mais distantes da gente e perdemos muito com isso.
Muita emoção!
No livro há apenas a frase “As mãos de meu pai são grandes”, que aparece quase no final. São 33 páginas com narrativa visual. A obra foi feita prioritariamente em cor pastel bege e algumas imagens na cor verde-folha e amarelo-ouro.
Essa obra recebeu o prêmio Bologna Ragazzi em 2022. Seu autor é coreano e se chama Choi Deok-kyu. Segundo consta na penúltima página ele se formou na Universidade Nacional de Seul. Ali consta também o seguinte comentário:
Neste livro revelo uma história guardada comigo há bastante tempo. Quando me tornei pai, segurei a mão do meu filho: minúscula, era a coisa mais importante do mundo. Tempos antes, meu pai deve ter sentido algo parecido. Hoje eu queria segurar a mão do meu pai mais uma vez – suas mãos enrugadas, com a pele fina – e sentir o calor que transmitem. Queria lembrar o amor daquelas mãos grandes: as mãos grandes do meu pai.
A narrativa apresentada no livro são os cuidados cotidianos do personagem pai-filho-filho pai, fazendo a transição do papel de pai quando cuida do seu bebê e de filho quando cuida de seu pai. As páginas intercalam essas funções de uma forma sensível. A narrativa imagética nos faz perceber que, em muitos casos, o comportamento inicial da infância é o mesmo da fase final do adulto. Por exemplo: o banho, o corte das unhas, a alimentação colaborativa com colheres especiais, a amarração dos calçados, o abotoamento das roupas, o uso do carrinho e da cadeira de roda (esta referência aparece apenas insinuada como uma possibilidade ou não no futuro, para isso ele utilizou traços finos e desbotados na última página).
Vale destacar ainda que há um envoltório móvel de papel com maior gramatura que circula o livro e que é feito no formato de duas mãos sobrepostas. Muito lindo! Muita emoção!!
Explico a emoção, vivenciei todas essas ações, tanto com meu avô Nicolau, quanto com meu pai José. Deu saudade!!!!
DEOK-KYU, Choi. As mãos do meu pai. São Paulo: Boitatá, 2024.