ARTIGOS E TEXTOS


POR UM PENSAMENTO AFRO-IBÉRICO-LATINOAMERICANO DA ARQUIVOLOGIA, DA BIBLIOTECONOMIA, DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO E DA MUSEOLOGIA

1. Introdução

O imperialismo sempre se valeu de formas e maneiras para se perpetuar e, em especial, ser aceito pelos que lhes são subordinados. No entanto, apesar do emprego da força para subjugar os dominados, muito mais eficaz é utilizar “aparelhos ideológicos de estado” (AIE), na concepção de Althusser (1983). Estes transformam as concepções dos países imperialistas, gestadas nos intestinos da dominação, em conceitos entendidos como naturais, como que oriundos da própria natureza.

Entre esses AIE, pois são vários, há a escola, a mídia, os equipamentos culturais, os equipamentos informacionais etc. Para nós, o interesse recai sobre estes últimos, ou seja, os equipamentos informacionais, embora seja importante alertar que não há como analisar a influência e a interferência deles sem pensar e considerar os outros AIE. A dominação não se concretiza apenas por um desses aparelhos, mas pela junção de vários deles, tanto dos aparelhos repressivos de estado, como dos aparelhos ideológicos.

Assim, o presente trabalho está voltado para a análise dos equipamentos informacionais como suporte, manutenção, disseminação e mediação da informação a partir dos interesses dos países imperialistas. Como e em que medida a interferência deles perpetua a dominação de maneira escamoteada e não claramente perceptível?

Muitos trabalhos pesquisam tipos específicos de equipamentos informacionais, mas partem do pressuposto de que são eles importantes para a disseminação da informação e da democratização da informação. No entanto, a maioria desses trabalhos apresentam um lado das ações daqueles equipamentos, sem questionar as implicações da falta de observar o outro lado, ou seja, as influências das escolhas da construção de um tipo de acervo e de formas de atividades desenvolvidas com a informação.

A informação, como qualquer outra manifestação da sociedade, é ambígua por natureza, tendo um lado que permite a formação e a transformação do sujeito, mas também tendo um outro lado, o da “fabricação informacional”. Este termo é uma adaptação de “fabricação cultural”, termo cunhado por José Teixeira Coelho Neto (2001). Apesar das diferenças entre os termos, eles se aproximam e a ideia presente no cronologicamente primeiro, pode ser empregada no outro.

Considerando a existência da manipulação e escamoteamento da busca de manipulação presente na produção da informação (mesmo que inconsciente), é preciso que se construa concepções e conceitos sobre ela, informação, a partir dos olhares dos dominados, se contrapondo à visão hegemônica (originada por poucos e aceita por muitos) que hoje e de há muito se impõe no âmbito da informação.

Dentro do até aqui exposto, e seguindo as ideias apresentadas, o objetivo geral do trabalho é: apontar o problema de um pensar único dentro das áreas da Arquivologia, Biblioteconomia, Ciência da Informação e da Museologia, oriundo de países dominantes e, a partir disso, a necessidade de fomentar estudos e debates sobre um “pensamento afro-ibérico-latinoamericano”, para essas áreas.

Os objetivos específicos buscam – 1 – discutir e analisar as concepções hegemônicas das áreas da Arquivologia, Biblioteconomia, Ciência da Informação e Museologia, propondo formas de construir conceitos mais afeitos aos países dominados 2 – entender a origem das concepções hegemônicas das áreas elencadas; 3 – analisar essas concepções a partir do olhar dos interesses dos países dominados; - 4 – propor conceitos diferenciados para que possam abranger os interesses, necessidades e desejos dos países não contemplados no entendimento das áreas aqui estudadas.

2. Referencial Teórico

O imperialismo sempre se valeu da força para manter seus domínios. No entanto, a força, o poder bélico não é a forma mais eficiente para que os países imperialistas se imponham e sujeitem os povos a seus interesses. Muito mais eficazes são os controles não visíveis e, consequentemente, não percebidos pelos dominados.

Althusser, em um texto clássico (1983), defendia a existência de Aparelhos de Estado, categorizados como Repressivos e Ideológicos. Afirmava ele que os Aparelhos Repressivos de Estado eram importantes e necessários para a existência dos impérios, mas compreendia que os Aparelhos Ideológicos de Estado, camuflados como sendo de interesse geral e intrinsicamente presentes nas necessidades, interesses e desejos de todos os seres humanos, implantavam ideias que os levavam a serem compreendidos como “naturais”.

Resumidamente, os Aparelhos Repressivos de Estado abarcam a polícia, o exército, as prisões, os tribunais, a justiça etc. Por seu lado, nos Aparelhos Ideológicos de Estado estão a escola, a religião, as mídias, o entretenimento, a cultura etc. É importante que se diga que, como tudo, os Aparelhos Ideológicos de Estado também são ambíguos, ou seja, podem servir como fonte de dominação, mas podem, de igual maneira, ser base e espaço de resistência.

Dentro do nosso interesse imediato, as bibliotecas, arquivos e museus, assim como todo “equipamento informacional” (termo que gosto de utilizar e é proveniente da área cultural), fazem parte, claro, dos Aparelhos Ideológicos de Estado. Dentro desse entendimento, eles reproduzem uma situação dada, hegemônica e dominadora, se constituindo em um espaço que colabora com a proposta de tornar “natural” o que é “cultural” e, assim, ser assimilada, aceita, internalizada e consciente ou inconscientemente reproduzida. Porém, esses equipamentos informacionais também podem se constituir em espaços de resistência. Isso pode ser visualizado, por exemplo, com o trabalho de bibliotecas que buscam constituir seu acervo com base não em produtos ou formas de reprodução e veiculação de informações presentes nas mídias comerciais, mas na disseminação de informações que não conseguem, por serem ignoradas ou boicotadas, se apresentar para o grande público.

No Brasil, durante os anos das décadas de 1960, 1970 e 1980, foram criados Centros de Documentação e Informação Populares, com o apoio de instâncias da Igreja Católica. Esses centros buscavam veicular e disseminar informações que atendessem aos interesses, necessidades e desejos da população, se diferenciando das bibliotecas públicas, totalmente mantidas pelo Estado, que tinham a preocupação, não explicitada, de reproduzir e manter uma determinada situação. Os centros atuavam diretamente com a população do espaço em que estavam localizados, buscavam a participação da comunidade, sustentavam com informação as ações desenvolvidas pelos movimentos organizados da sociedade, contratavam funcionários que tinham uma relação ativista, uma relação ideológica com a causa aceita e propagada pelos centros. Por se manifestarem contrários às bibliotecas públicas e formas oficiais, na época, de acesso a informação, que foi por nós denominada de “bibliotecas alternativas” (Almeida Junior, 1997). 

A ciência também pode e deve ser entendida como um Aparelho Ideológico de Estado. O entendimento de saber e conhecimento, por exemplo, retrata a ideia de que apenas a “ciência” produz “conhecimento” (e a palavra “conhecimento” tem um sentido determinado pela própria ciência) enquanto a população possui um “saber”, apenas, ou quase sempre, empírico, desconsiderado e menosprezado. A ciência traz em seu bojo, pessoas que passaram por um processo formal de educação, se destacando do resto do povo.

A dominação, no entanto, está presente não apenas na ciência, mas também, e com igual força, nas pesquisas. As investigações destinadas, por exemplo, para problemas presentes nos países pobres, como, no âmbito da medicina e da saúde pública, a malária e a febre amarela, não são motivo de interesse por parte das indústrias farmacêuticas. Há muito mais investimentos em cosméticos do que em remédios para aquelas doenças. Assim, as pesquisas ficam a cargo do poder público que pouco ou quase nada investem em ciência. Se as áreas da saúde, da tecnologia e algumas outras que, de alguma forma são consideradas como produtivas para o capital, recebem pouca atenção do setor público, menor ainda é essa atenção e apoio quando nos referimos às ciências sociais e humanas.

As bibliotecas, arquivos e museus são preservadores do conhecimento e da cultura dos “vencedores”. A história é contada pelos vencedores e os equipamentos informacionais citados são os espaços em que são mantidos e guardados documentos e materiais que retratam a “história oficial”. Apoiam, sem necessariamente ter consciência disso, a dominação que o conhecimento reproduzido determina.

As áreas a que estamos afeitos, como a Arquivologia, Biblioteconomia, Ciência da Informação (CI) e Museologia, incluídas como Aparelhos Ideológicos de Estado, dentro das concepções de Althusser, também reproduzem entendimentos que se aproximam, ou meramente reproduzem, ideias hegemônicas que não atendem, necessariamente e na maioria dos casos, os interesses das classes populares.

Tais áreas – nosso entendimento é de que a da Arquivologia, a Biblioteconomia, a Ciência da Informação e a Museologia são áreas distintas e não três delas subordinadas à CI –, por exemplo, seguem uma compreensão defendida e disseminada de que a língua da ciência é a inglesa. Assim, toda a produção científica oriunda de países com o inglês como língua mãe pode estar mais próximo da verdade ou ter um discurso, uma narrativa mais apropriada e representativa da ciência. Passa, tal produção científica, a ideia de que constrói os únicos pensamentos possíveis, reforçando a dominação através de formas e maneiras não explícitas.

A língua não é neutra, sendo inteiramente carregada de significados a partir da fala do enunciador e da própria elaboração e construção dela. Há palavras que existem em determinadas línguas, mas não em outras, pois, nestas últimas, elas são desnecessárias, nada representando. Outras palavras possuem significados muito mais fortes em algumas línguas do que em outras. Palavras como “escravidão”, “escravizados”, “escravização” etc., possuem entendimentos diferentes se presentes e utilizadas em países que escravizaram e em países que sofreram a escravidão.

Outras palavras trazem embutidas concepções de poder e de dominação. A palavra “americano” ou “americana” parece se referir apenas aos habitantes dos Estados Unidos da América. O sentido dessa palavra está voltado a designar todos os que vivem em qualquer país das Américas, seja ele da América do Sul, da América Central ou da América do Norte. No entanto, a maioria das pessoas tendem a utilizar “americano(a)” numa clara assimilação do significado oculto da palavra.

Como exemplo, podemos transcrever um pequeno trecho da palestra que Angela Davis proferiu em São Paulo, no ano de 2019. Ela denominou sua palestra de “A liberdade é uma luta constante” e foi publicado em uma coletânea de três palestras do evento “Democracia em colapso?”. O trecho aqui reproduzido é o seguinte:

Vocês devem saber que, por razões políticas, sempre critico a identidade ‘americana’ referente a nós que vivemos no lugar chamado, desde 1700, de Estados Unidos da América. Como se as pessoas que vivem nos Estados Unidos fossem as únicas, em todo o hemisfério, que representam as pessoas da região. Na realidade, se houvesse um país para representar todos os povos da região, este seria o Brasil e não os Estados Unidos. (Davis, 2023, p.27).

 

Seguindo esse entendimento, os conceitos, as concepções, as ideias, as posturas e até mesmo os objetos das áreas aqui analisadas, não refletem as discussões e debates presentes no mundo. Mais: são determinadas por compreensões e atendem a interesses baseados, predominantemente, na situação dos países de língua inglesa, em detrimento de problemas sociais, políticos, educacionais e culturais de países de outras línguas.

A informação, matéria prima das áreas aqui estudadas, também não é neutra. Um pesquisador brasileiro, José Teixeira Coelho Neto, aqui já apresentado, concebeu para a teoria da cultura, no âmbito da ação cultural, o termo “fabricação cultural” (2001). Venho propondo que utilizemos o termo “fabricação informacional”, como uma adaptação de “fabricação cultural”. Apesar das diferenças entre os termos, eles se aproximam e a ideia presente no cronologicamente primeiro, pode ser empregada no outro.

As instâncias associativas internacionais, seguem a situação exposta acima, constituindo suas ações a partir do que está de acordo com os fundamentos teóricos hegemônicos que, como vimos, são elaborados por uma parcela dos países do mundo – os dominadores. Boa parte dessas associações internacionais são apoiadas financeiramente por países ricos que, mesmo de maneira não explícita, exerce poder nos rumos das ações e trabalhos desenvolvidos por elas. Em alguns casos, o poder de “veto” é explícito e constantemente exercido.

Um exemplo dos empecilhos existentes para que vozes sejam desconsideradas é a não inclusão do português como língua oficial da IFLA (Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias). Se algumas, poucas, línguas são aceitas como as oficiais dessa Instituição, portanto representativas da “fala” mundial e com condições de abarcar todas as outras, são apenas elas que dão o caráter internacional da IFLA. Claro que esse caráter abrange também as possibilidades de representação, mas restringe toda participação no uso da língua “dos outros”, com toda a problemática que isso carrega como vimos, rapidamente, acima.

Várias podem ser as explicações dessa entidade para justificar a exclusão da língua portuguesa entre as consideradas e determinadas como oficiais mas, todas elas não atendem ao pleito de países que não são contemplados nas discussões das suas necessidades informacionais. Não basta, por exemplo, traduzir documentos se, neles, não há a representatividade e os significados das línguas excluídas do grupo das oficiais.

O pensar único não permite que a totalidade ou ao menos as várias necessidades, interesses e desejos tenham espaços para se fazerem conhecidas e consideradas na formulação de propostas das áreas.

Países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, no âmbito das áreas aqui estudadas, seguem os fundamentos teóricos e básicos formulados em outros locais que não os desses países. Implantam, assim, concepções que não representam necessidades e interesses específicos das suas regiões. Não há nem mesmo propostas de adaptação do que é concebido em outros espaços. E isso ocorre, principalmente, além da submissão aceita, assimilada e apropriada, pelo domínio ideológico.

Acompanhando todo o entendimento até aqui exposto, é importante que determinados conceitos que utilizamos na área também sigam a compreensão das culturas diferenciadas dos vários países. O termo “informação”, por exemplo, é polissêmico e deve se adequar a concepções mais amplas. O fato do termo ser polissêmico já implica em ajustes com as ideias com as quais ele está em relação. Por exemplo, concepções matemáticas, sistêmicas ou sociais exigem conceitos diferentes do termo “informação”.

Em igual medida, as ideias presentes na “mediação da informação” também seguem concepções mais gerais. É interessante notar que as discussões específicas sobre “mediação da informação” estão predominantemente localizadas em países de língua portuguesa. Entendemos que isso não se dá por acaso, uma vez que a concepção de mediação da informação traz um olhar não atrelado aos conceitos mais gerais – e aceitos – da Biblioteconomia e da Ciência da Informação, além de incluir vivências informacionais – e não apenas informacionais – presentes nos países que estão na origem das discussões, debates, estudos e investigações sobre o tema.

Os conceitos de “mediação da informação” e de “informação” com os quais trabalhamos aqui e os seguimos estão apresentados abaixo:

Toda ação de interferência – realizada em um processo, por um profissional da informação e na ambiência de equipamentos informacionais –, direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular ou plural; individual ou coletiva; visando a apropriação de informação que satisfaça, parcialmente e de maneira momentânea, uma necessidade informacional, gerando conflitos e novas necessidades informacionais. (Almeida Junior, 2015, p.25)

 

A informação, para mim, é uma construção, elaborada em um processo, constituída de ações, elementos, interferências, situações, interesses, embates e memórias, gerada pela explicitação de segmentos de conhecimentos e que, em um continuum, durante seu ciclo de vida, recebe significados e tende a criar conflitos nos conhecimentos e certezas supostamente constituídos. (Almeida Junior, 2019, não paginada)

 

Há uma relação estreita entre os dois conceitos, uma vez que a concepção de informação está ajustada às ideias mais amplas de mediação da informação. Ambas são consideradas como processo e têm o ser informacional (ou as várias formas como é ele entendido nos espaços informacionais, entre outros, como usuário, leitor, cliente, consulente, utente, prossumidor, interagente etc.) (1) como seu principal foco de interesse, além de entende-lo como um dos elementos constituintes da mediação. A informação, claramente apresentada no conceito, não é algo dado, nem objetivado, nem mesmo passível de ser manipulada como algo concreto. É ela, ao contrário, subjetiva, construída pelo conhecimento do produtor, com interferência de todos os personagens pelas quais interage e apropriada pelo ser informacional a partir de seu acervo de conhecimento e experiências.

Os trabalhos técnicos desenvolvidos pelos equipamentos informacionais, aqueles presentes nos serviços meio, abrangendo a organização, não trabalha, de fato, com a informação, uma vez que esta não é material, objetiva, passível de ser manipulada, como já dito anteriormente. Defendo que trabalhamos com a “protoinformação”, ou seja, uma “quase-informação”, uma “talvez-informação”, uma “quem sabe informação”, uma “informação em construção” e que as interferências na busca pela sua concretização (ela se materializa, embora não de maneira palpável, tangível, no momento da apropriação), uma vez que ela é um constructo, não são claramente perceptíveis

3. Procedimentos Metodológicos

As reflexões têm como base de sustentação textos teóricos visando alcançar os objetivos anteriormente destacados. Assim, a metodologia tem um caráter qualitativo e seguindo o método bibliográfico.

Os textos já são conhecidos do autor e foram lidos em momentos em que foram produzidos textos com temáticas próximas às de interesse de agora. Claro que o assunto que está sendo discutido neste momento tem especificidades diferentes das vezes anteriores em que foi estudado, mas também recorre aos mesmos fundamentos teóricos dos textos anteriores, obviamente com acréscimos. Dessa forma, as necessidades básicas para as análises neste momento, utilizam os mesmos materiais, mas com recortes que podem contribuir para as reflexões específicas dos objetivos de agora.

4. Resultados Parciais ou Finais

Considerando o exposto, é preciso que os países com os quais estamos interessados neste momento, ou seja, os situados na África, na Península Ibérica e na América Latina, subdesenvolvidos e em desenvolvimento, a partir dos seus pesquisadores e estudiosos das áreas da Arquivologia, Biblioteconomia, Ciência da Informação e Museologia, empreendam investigações e estudos objetivando criar um pensamento – com seus desdobramentos – específico que estou chamando de “pensamento afro-ibérico-latinoamericano”, entendendo que há muitos pontos em comum com os países dessa região.

Vários autores lidam com a busca de um conceito que seja reflexo de questionamentos, discussões e debates sobre as áreas da Arquivologia, da Biblioteconomia, da Ciência da Informação e da Museologia. Estudos se baseiam, por exemplo, nas ideias de Vannevar Bush ou de Paul Otlet para entender as origens da Ciência da Informação, reforçando conceitos que enfatizam a tecnologia ou que enfatizam olhares mais sociais. Há autores que recorrem a pesquisadores e pensadores brasileiros, entre eles Luis Augusto Milanesi (O que é Biblioteca?; Biblioteca), Johanna Smit (O que é documentação?) José Teixeira Coelho Neto (Dicionário crítico de política cultural; O que é Ação cultural), Jaime Robredo (Da Ciência da Informação revisitada aos sistemas humanos de informação), Carlos Alberto Araújo Ávila (Arquivologia, Biblioteconomia, Museologia e Ciência da Informação: o diálogo possível; O que é Ciência da Informação). Outros autores se valem de livros traduzidos, no Brasil, como Le Coadic (A Ciência da Informação) ou vários outros textos. Emprega-se, no Brasil, com muita frequência, autores como Capurro (2003), em especial sua concepção de paradigmas da área; Saracevic (1996) e Shera (1997) todos eles publicados em português e muito disseminados.

Assim como exposto na fundamentação teórica, é preciso ressaltar e reafirmar que nossos textos não são citados por autores de línguas diferentes das nossas, pois somos de países e falamos línguas consideradas secundárias, sem competência para refletir e propor algo novo que não tenha sido proposto por pesquisadores que se utilizam do inglês. Nem mesmo o que produzimos é publicado em revistas que não as dos nossos países e isso não por falta de qualidade ou por não vir como resultado de boas reflexões, mas apenas pela proveniência dos autores desses textos. A língua da ciência é a que fala e escreve o pesquisador, o estudioso, venha ele de onde vier. A língua da ciência é aquela que reflete o ambiente e o contexto onde foi produzida e não aquela que se diz universal, globalizada. A língua da ciência é aquela que se vale das concepções globais, mas que não perde e nem se esquece do localismo, das características, das especificidades, da cultura, do espaço que é seu objeto de estudo; é aquela que se vale da própria fala para disseminar seus olhares, suas explicações do mundo.

 

A fundamentação teórica procura dar sustentação à proposta, e o método tem um caráter ensaístico, com análises que se valem de ideias e concepções de autores das áreas.

Defendo a proposta de criação do pensamento afro-ibero-latinoamericano das áreas indicadas durante o texto, mesmo que não de maneira formalizada e dependente de órgãos nacionais ou internacionais.

A proposta, além das expostas nos objetivos, é incitar autores da área que têm origem nos países dominados, ou dentro da abrangência afro-ibero-latinoamericanos a produzirem textos e materiais que reproduzam os interesses, necessidades e desejos específicos dessas áreas para que, assim, possam surgir concepções que se contraponham às hegemônicas e dominantes.

Já existem ações isoladas, mas, sendo realizadas dentro de um coletivo, a partir de um grupo com propósitos comuns, essa empreitada poderá ser maior e mais eficaz, na medida em que haverá o apoio e o incentivo dos que integram esse grupo. É importante ressaltar que esse grupo não será formalizado, contando com a participação de interessados e que comunguem das mesmas necessidades.

Por fim, vou resgatar alguns termos (ou denominações) que idealizei acompanhados de seus conceitos e que acredito que possam colaborar com o início dos debates, estudos e pesquisas: Biblioteconomia guerrilheira; Bibliotecas guerrilheiras, Bibliotecário guerrilheiro; Biblioteconomia subversiva; Bibliotecas subversiva, Bibliotecário subversiva (Almeida Junior, 1997b); Biblioteconomia de resistência; Bibliotecas de resistência, Bibliotecário de resistência. Precisamos de uma Teologia da Libertação para as áreas, de uma Teoria da Libertação, para superarmos a dominação a que somos impostos.

5 Considerações Parciais ou Finais

Como dito no decorrer do texto, olhares diferenciados daqueles oriundos da visão hegemônica e dominante, sustentada por concepções que representam tão somente parcelas dos países do mundo, aqueles que possuem maneiras de impor seus pensares, precisam ser confrontados com outros olhares e entendimentos, na medida em que não há apenas uma forma de explicar, analisar e entender o mundo da informação. Esta é polissêmica e segue formas de compreensão vinculadas aos paradigmas das áreas a que está ela relacionada.

 

Referências

Almeida Junior, Oswaldo Francisco de. (1997) Bibliotecas públicas e bibliotecas alternativas. Londrina: Editora da UEL.

Almeida Júnior, O. F de. (2007). Leitura, mediação e apropriação da informação. In: Santos, J.P. (Org.). A leitura como prática pedagógica na formação do profissional da informação. (pp. 33-45). Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional.

Almeida Júnior, O. F de. (2015). Mediação da informação: um conceito atualizado. In: Bortolin, Sueli; Santos Neto, João Arlindo dos; SILVA, Rovilson José da (org.). Mediação oral da informação e da leitura. (pp. 9-32). Londrina: Abecin.

Almeida Junior, Oswaldo Francisco de. (2019). O que é informação? In: Almeida Junior, Oswaldo Francisco de. Infohome [Internet]. Marília: OFAJ. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=1177. Acesso em: 10 abr.2024.

Almeida Junior, Oswaldo Francisco de. (1997b) Sociedade e Biblioteconomia. São Paulo: Polis.

Althusser, Louis. (1983). Aparelhos ideológicos de estado. Rio de Janeiro: Graal.

Araújo, Carlos Alberto Ávila. (2014). Arquivologia, Biblioteconomia, Museologia e Ciência da Informação: o diálogo possível. Brasília: Briquet de Lemos Livros.

Araújo, Carlos Alberto Ávila. (2018). O que é Ciência da Informação. Belo Horizonte: KMA.

Capurro, Rafael. (2003). Epistemologia e Ciência da Informação. Belo Horizonte: V encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação

Coelho Neto, José Teixeira. (2001). O que é Ação cultural. São Paulo: Brasiliense.

Coelho Neto, José Teixeira. (1997). Dicionário crítico de política cultural. São Paulo: Iluminuras.

Davis, Angela. (2023). Democracia para quem? In: Democracia para quem? Ensaios de resistência. São Paulo: Boitempo.

Le Coadic, Yves-Francois. (1996). A Ciência da Informação. Brasília: Briquet e Lemos/Livros.

Milanesi, Luis Augusto. (1983). O que é biblioteca. São Paulo: Brasiliense.

Milanesi, Luis Augusto. (2002). Biblioteca. Cotia: Ateliê Editorial.

Robredo, Jaime. (2003). Da Ciência da Informação revisitada aos sistemas humanos de informação. Brasília: Thesaurus Editora.

Saracevic, T. (1996) Ciência da informação: origem, evolução e relações. Perspectivas Em Ciência Da Informação, 1(1).

Shera, Jesse. (1977). Epistemologia social, semântica geral e biblioteconomia. Ciência da Informação, 6(1).

Smit, Johanna W. O que é documentação. (1986). São Paulo: Brasiliense.

Notas

  1. O termo leitor, pouco utilizado atualmente, parece-nos o mais adequado, quando a leitura é entendida em seu sentido lato, ou seja, a leitura do texto escrito, da imagem fixa, da imagem em movimento e do som, pois defendemos a ideia de que a apropriação da informação apenas se dá a partir da leitura (Almeida Junior, 2007).

Apresentado originalmente em: XIV Encontro EDICIC 2024

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Junior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.