ARTIGOS E TEXTOS


NOVAS TECNOLOGIAS: E A POPULAÇÃO?

1 INTRODUÇÃO

Seria prova de insanidade não reconhecer os avanços tecnológicos. Qualquer pessoa, sem esforços, pode perceber as alterações que estão, vertiginosamente, ocorrendo ao seu redor. As sofisticações dos aparelhos eletrônicos; as facilidades oferecidas para os clientes dos bancos; a possibilidade de gravações, não só sonoras mas também visuais; o uso cada vez maior de microcomputadores no comércio, na indústria e, mesmo, nas residências; os novos brinquedos infantis que interagem com a criança a partir de comandos desencadeados em programas de televisão; os aparelhos utilizados pelo setor da saúde, que possibilitam maior rapidez, confiabilidade e segurança nos diagnósticos, enfim, todo um aparato que interfere no cotidiano das pessoas.

Todo esse desenvolvimento tecnológico, no entanto, atende a um diminuto e restrito público, capacitado, principalmente pela sua condição econômica, a se utilizar das facilidades e comodidades que tais avanços propiciam. Como veremos mais adiante, não é apenas a capacidade de se utilizar das novas tecnologias que torna seu público restrito, mas, como observam AYALA & AYALA (2:p.56-7) "Na sociedade capitalista (...) a desigualdade econômica engendra a desigualdade de acesso aos outros bens produzidos pela sociedade, inclusive a cultura. Deste modo, os dominados economicamente também o são política e culturalmente." Obviamente, a informação não foge desse contexto.

Quem pode negar as alterações e mudanças ocorridas em todas as áreas do conhecimento humano, ocasionadas pelas novas tecnologias? No caso da Biblioteconomia, que nos interessa particularmente, tais transformações também foram profundas e marcantes, ou melhor, tais transformações são e estão sendo profundas e marcantes.

Nossa preocupação não está relacionada com o desenvolvimento da tecnologia em si, mas com sua utilização e, principalmente, para que grupo social está ela dirigida. Tal questão não é nova, sendo resgatada "A cada impacto provocado por novas tecnologias da comunicação. (...) Assim foi com o rádio, com a televisão, com as histórias em quadrinhos e agora com o computador. A pergunta é sempre a mesma: qual é o resultado da ação destes meios sobre as pessoas?" (CAMARGO-3:p.67). Além disso, o uso dessas tecnologias traria, de fato, como resultado "a maior possibilidade de acesso ao patrimônio cultural da humanidade (democracia cultural)? Ou mais um artifício cinicamente utilizado pelas classes dominantes para, sob a embalagem de uma falsa melhoria, perpetuar os mecanismos de desigualdade entre as classes sociais?" (CAMARGO-3:p.67).

2 TECNOLOGIA PARA O POVO?

A descoberta de novas tecnologias, ou mesmo simples aperfeiçoamentos são precedidos, obviamente, de grandes investimentos por conta de imprescindíveis pesquisas e, talvez mais importante, por informações atualizadas e confiáveis. Os custos implicados com essas pesquisas, devem, de uma ou outra forma, ser transformados em lucros. Seria inocência de nossa parte acreditarmos que o bem da sociedade é o objetivo prioritário das instituições que desenvolvem pesquisas. Exceções existem - e muitas - mas, na maioria, os objetivos estão prioritariamente vinculados ao lucro.

As entidades subordinadas ao Estado ou a organismos internacionais, mesmo com objetivos predominantemente sociais, acabam por trabalhar e atuar, não com os determinantes prioritários das empresas particulares, mas norteadas para pequenas parcelas da sociedade, embora seus ideários proclamem o contrário.

Analisando as "grandes descobertas da humanidade" podemos perceber que a sua maior parte ainda não está introduzida no cotidiano do cidadão comum. Exemplos não faltam: o avião, embora conhecido há quase um século, continua sendo utilizado apenas por aqueles que podem pagar o exorbitante preço de suas passagens. É bem verdade que outros usos estão sendo feitos do avião com um cunho mais social: como meio de transporte para os correios; sua participação em salvamentos e resgates; como meio de comunicação e integração em regiões de difícil acesso, etc.

Outro exemplo seria o automóvel. Quantos entre a população possuem, hoje, condições de adquirir um carro? Poucos seria uma resposta bastante otimista. Essa mesma resposta está adequada para idêntica pergunta em relação ao telefone, à máquina de lavar roupa, ao freezer, ao forno micro-ondas, aos aparelhos de som, ao videocassete, ao vídeo disco, ao microcomputador e outras tantas parafernálias.

Uma situação comum, entendida como interessante por analistas político-sociais ou como natural por conservadores retrógrados, pode possibilitar uma melhor visualização do distanciamento entre novas tecnologias e população: aqueles que, de fato, tornam reais essa aparelhagem, vendendo sua força de trabalho para a indústria, não podem adquirir aquilo que ajudam a construir. A maioria dos trabalhadores das montadoras automobilísticas retornam para casa de ônibus - às vezes até mesmo a pé. O salário que recebem em troca de um extenuante mês de trabalho, permite, quando muito, a aquisição do mínimo necessário para sua sobrevivência ou para a reposição das energias de forma a estar constantemente apto a desempenhar as tarefas que lhe são destinadas. Então, aquele que fabrica todo esse aparato tecnológico, não pode fazer uso dele.

A televisão deve ser analisada isoladamente, pois possui características que a distingue de outros aparelhos. Por estar hoje muito difundida e servir como, praticamente, única forma de lazer da maioria da população, a televisão é entendida como "popular" ou, no mínimo, como "instrumento de entretenimento ao alcance das classes populares". Não resta dúvida de que a população encontra na televisão uma forma (talvez a única) de suprir a sua carência de divertimento e lazer. Os bens culturais estão distantes dos seus interesses, intencionalmente assim mantidos pelas classes dominantes. Assim, restam poucas alternativas, normalmente menosprezadas pela ideologia hegemônica, com que podem contar as classes populares como formas de lazer. A televisão pode ser, então, um instrumento de dominação, utilizado, mesmo que não explicitamente, para passar a idéia de que os interesses das classes que detêm o poder são os que devem ser considerados como naturais e verdadeiros. Concordando com essa versão - profundamente difundida - aceitaríamos a impossibilidade de mudanças e seríamos levados, obrigatoriamente, a uma submissa e estática resignação. Acreditamos que, ambígua mas realisticamente, a população absorve sim o que lhe é oferecido, mas, também, determina significados próprios - mais próximos às suas experiências, relacionamentos sociais e à sua cultura - diferentes dos propostos inicialmente pelas classes dominantes. A população não absorve e aceita, simplesmente, o que lhe é imposto e oferecido pela televisão. Ela resiste, uma "Resistência que tanto pode ser difusa - como na irreverência do humor anônimo que percorre as ruas, nos ditos populares, nos grafitis espalhados pelos muros das cidades - quanto localizada em ações coletivas ou grupais. Não nos referimos às ações deliberadas de resistência (...), mas a práticas dotadas de uma lógica que as transforma em atos de resistência." (CHAUI-4:p.63).

Ainda em relação à televisão, devemos salientar a própria linguagem por ela desenvolvida, que privilegia o consumo - tônica das propostas culturais das classes dominantes - em detrimento da produção. Quando sabemos do número exageradamente alto de analfabetos e semi-analfabetos da população brasileira (o IBGE acaba de anunciar que, ao contrário do que vinha ocorrendo, durante os anos de 86-87 houve um acréscimo no percentual de analfabetos no Brasil); quando reconhecemos que o tempo que o trabalhador tem para si é extremamente pequeno, pois quase todo ele gasto com o trabalho e com o transporte, principalmente; quando reconhecemos no veículo televisão a mais importante "mídia", necessária, inclusive, para o próprio desenvolvimento do sistema capitalista; quando aceitamos que a ideologia veiculada pelos programas televisivos busca uma homogeneização na tentativa de se transformar na ideologia de todos, quando esses itens, além de outros, estão claros e identificados, podemos entender o largo uso e a grande penetração de uma tecnologia como a televisão.

Outros exemplos poderiam ser apresentados, mas acreditamos que aqueles até o momento abordados, são suficientes para o que pretendemos mostrar.

Desnecessário concluir que as "grandes descobertas", que o avanço tecnológico, embora afirmando que objetivam o "bem estar da população", estão direcionados e apenas atendem aos interesses de uma pequena parcela, de um ínfimo grupo que, coincidentemente, é formado pelos que detêm o poder.

3 BIBLIOTECONOMIA E TECNOLOGIA. E O POVO?

Se afirmamos que a tecnologia está distanciada da maioria da população, não podemos agora, acreditar que apenas na Biblioteca essa relação seja mais estreita. Estaríamos contrariando nossas posições anteriores, além, é óbvio, da própria realidade.

Como bibliotecários, gostaríamos que a Biblioteca fosse, realmente, um lugar onde a tecnologia, ou melhor ainda, a informação - razão final para o uso dessas tecnologias - estivesse a disposição de todos, atendendo e satisfazendo, democraticamente, necessidades individuais ou mesmo coletivas. "Pero hoy vemos que, a pesar de los avances técnicos considerables como el desarrollo de las computadoras y el progreso espectacular de las telecomunicaciones, la información en los países capitalistas no está al alcance del pueblo ni está organizada para un uso popular." (DEPALLENS-5:p.8). Entre o idealizar e o realizar, temos um fosso tão grande quanto entre as tecnologias e o povo: infelizmente essa idéia não passa de mero desejo. O que ocorre na Biblioteca, como é possível sentir no texto citado, em nada destoa ou se diferencia do que ocorre na sociedade.

Nós possibilitamos à população o direito de entrar em nossas Bibliotecas - afinal, as portas estão abertas - de utilizar seus espaços - basta querer - mas, infelizmente, nada podemos fazer se a maioria da população não tem o instrumental adequado para fazer uso dela. Essa responsabilidade não podemos assumir. Não é nossa obrigação alfabetizar pessoas. Quando a população aprender a ler, ela encontrará, com toda a certeza, profissionais bibliotecários dispostos a ajudá-la na procura de informações. Nosso acervo estará, como sempre esteve, à disposição deles. Mais, não podemos fazer.

Quem nunca ouviu frases parecidas ou de idêntico teor, vindas de colegas bibliotecários? Parece ser essa a idéia que norteia os trabalhos nas bibliotecas: somos democráticos o suficiente para atendermos qualquer pessoa, sem distinção de credo, raça, cor ou ideologia política, que esteja interessada em se utilizar de nossos trabalhos, mas que saiba, no mínimo, ler. Isso não significa, nem pode significar que o trabalho do bibliotecário é neutro, esvaziado de conteúdo ideológico, ao contrário, "O bibliotecário não é apolítico, neutro, imparcial. Como pode se considerar imparcial se os materiais do seu acervo são parciais? Como pode o bibliotecário se considerar imparcial se a própria localização da biblioteca onde trabalha serviu a interesses políticos e não exprime a real necessidade da comunidade? Como pode o bibliotecário se considerar imparcial se aqueles que mais necessitam da biblioteca estão impossibilitados de fazerem uso dela? O ideológico para o bibliotecário parece inexistir." (ALMEIDA JUNIOR-1:p.4). Parece que a informação é concebida de forma desvinculada da estrutura e das relações sociais, pairando acima dos conflitos de classes.

Com o uso crescente, proliferando-se cada vez mais, das novas tecnologias nas bibliotecas, a forma e o número de exigências tendem a aumentar. Queremos ser otimistas para acreditar que alguns dos instrumentos tecnológicos que estarão à disposição dos nossos usuários, possam diminuir ou ao menos, minimizar tais exigências. No entanto, a situação atual e as perspectivas nela fundamentadas, levam-nos a outros caminhos.

Somos levados a crer que as novas tecnologias são empregadas como mais uma forma de opressão sobre as classes populares. Dessa maneira, nosso otimismo não se baseia na realidade, sendo, inclusive, por demais ingênuo. Estaremos nos enganando se acreditarmos que as classes dominantes, generosamente, irão compartilhar e dividir, irmanamente, o poder que detêm. Ou as classes populares lutam por isso, ou tudo continuará como hoje.

As bibliotecas que hoje se utilizam do aparato tecnológico para o trabalho com a informação, são, evidentemente, as especializadas. O objetivo de qualquer empresa é, como dissemos em parágrafo anterior, o lucro. Outros objetivos podem existir, mas, em essência, esse é o primordial. Negar tal evidência é atestar completa incapacidade para observar, analisar e entender a realidade. Ora, a obtenção de lucros exige um conhecimento constante das tecnologias do setor. Estas, por sua vez, são conseguidas através de pesquisas que necessitam de informações atualizadas, rápidas e adequadas. O trabalho do bibliotecário está voltado para esse último ponto. Assim, as bibliotecas especializadas não podem prescindir de informações, pois, sem elas as pesquisas praticamente inexistem, levando à obsolescência das tecnologias e, conseqüentemente, à falta de lucro ou, horror dos horrores, ao déficit e à falência.

A exemplo do que ocorre na área cultural, as bibliotecas públicas não podem contar com qualquer nova aparelhagem. Os espaços oferecidos para seu funcionamento já são considerados como suficientes, quando não, exagerados. Bibliotecas há, que utilizam como espaço dependências totalmente inadequadas. Em São Paulo, por exemplo, existe biblioteca que está alojada em um prédio cujo último inquilino era um açougue. Muitas bibliotecas públicas são obrigadas a fazer uso de caixas de sapato pois inexistem mobiliários que comportem as necessárias "fichinhas". Sem contar que os profissionais bibliotecários, com curso superior, reconhecidos como profissionais liberais, são constantemente obrigados a limpar (com vassoura, esfregão, espanador, pano de pó e tudo a que têm direito) as dependências onde trabalham. Em outras bibliotecas, onde o número de funcionários é maior, o bibliotecário não precisa fazer uso dos seus dotes de faxineiro, mas, em função do acúmulo de trabalho, ele acaba por delegar a outras pessoas, o atendimento de seus usuários. Necessário outros exemplos?

As bibliotecas públicas, aquelas que trabalham diretamente com a população, não se utilizam, assim, dos avanços tecnológicos para melhor atender seus consulentes, pois sua função não é instrumentalizar a população para que esta possa fazer frente aos ditames da classe dominante. Ao contrário, deve ela servir como um aparelho ideológico do Estado, preservando e reproduzindo as condições atuais.

As bibliotecas poderiam estar contribuindo com as classes populares, fortalecendo seus mecanismos de defesa: oferecendo condições para um aumento do seu grau de consciência; possibilitando a aquisição de instrumentos que possam ser utilizados como armas contra a opressão. Muitas outras contribuições poderiam ser arroladas, que auxiliariam na resistência cultural das classes populares.

4 A RESISTÊNCIA DO POVO

A resignação popular ante a impossibilidade de fazer uso dos novos avanços tecnológicos pode ser real apenas nos discursos acadêmicos. Essa resignação, dizem, redundaria na aceitação de sua inferioridade ante o "progresso" determinado por aqueles que freqüentaram as universidades ou, mesmo, por aqueles que detêm os meios de produção. O próximo passo seria o conformismo com a situação vigente, inclusive aceitando, acatando e assimilando os interesses das classes dominantes.

Essa visão não nos parece correta. Fundamentando-se na total incapacidade de análise, percepção, mobilização e reação do povo, tal idéia tem como propósito alimentar e abalizar, teórica e cientificamente, as diferenças tidas como naturais entre os que dominam e os que são subjugados. A divisão social do trabalho; a propriedade privada; os meios de produção nas mãos de poucos; a frenética, desenfreada e anti-ética busca do lucro; a existência de países desenvolvidos e subdesenvolvidos, enfim, toda uma gama de diferenças já por demais conhecidas, seriam aceitas e consideradas naturais por toda a população, democraticamente estruturadas e apoiadas em leis elaboradas por e para todos.

A crença na incapacidade da população em participar da determinação de seu próprio destino, não passa de uma vã tentativa, por parte das classes dominantes, de respaldar ou mesmo justificar suas interferências e manipulações sobre as classes populares, no afã incontido de consolidar seus domínios. Entretanto, o povo possui seus mecanismos de resistência e, mesmo que inconscientemente, deles faz uso para preservar sua identidade (1) (embora seja este um campo por demais escorregadio), sua expressão, seus valores, seu imaginário, enfim, sua cultura.

Alguns pretendem ressuscitar teses antigas e retrógradas que deveriam permanecer soterradas e esquecidas entre as cinzas de um fascismo ainda não totalmente morto; teses que reconhecem a supremacia de algumas raças, teses que invocam a superioridade de alguns sobre muitos, teses que, calcadas em um abstrato e subjetivo conceito de civilização e progresso, permitem que as culturas que não se utilizam dos avanços tecnológicos sejam apontadas e tratadas como inferiores.

Os conceitos que engendram tais posturas, se materializam, também, quando as classes populares são afastadas dos benefícios das novas tecnologias. As implicações econômicas, sob as quais estão subordinados os avanços tecnológicos - já que as empresas investem nessa área pressupondo um rápido e multiplicado retorno - tendem a determinar e colaborar na justificativa de tal situação. A quantidade de dinheiro empregado nas pesquisas não permite que o produto daí derivado tenha uma utilização efetivamente social, embora as empresas e instituições tentem fazer supor que as implicações sociais de toda aquela parafernália tecnológica são indiretas e serão sentidas e usufruídas por todos num curto espaço de tempo. Além disso, como oferecer maquinário moderno para os que deles não sabem fazer uso? E mais: oferecer para os dominados um dos instrumentos que os dominantes utilizam para subjugá-los?

As informações (e não só as novas tecnologias) utilizadas e disseminadas pela biblioteca, não estão voltadas, nem mesmo preocupadas com a população. Não há, ou ainda está muito incipiente, espaços ou áreas de estudo, dentro da Biblioteconomia, interessados no vínculo informação/população. O seguinte texto de DEPALLENS (5:p.9) corrobora com essa afirmação: "...podemos decir que, a pesar de los tremendos recursos económicos y técnicos del mundo industrializado occidental, no se ha desarrollado una Ciencia de la Información a favor del pueblo, a su alcance y producida con su directa participación. La información acumulada y detalladamente procesada sirve prioritariamente a una élite tecnocrática, a investigadores, en su mayoría desligados del pueblo y a alunos autodidactas muy motivados. Esa información la guardan y la transmiten los centros de documentación y las redes estatales o privadas de información, de uso eminentemente restringido.".

As novas tecnologias ajudam a ampliar o fosso entre os que têm informações - e que, por conseguinte, determinam e ditam os destinos, os rumos e a história - e os que apenas produzem o que é consignado pelos anteriores, numa verdadeira dicotomia entre teoria e prática, num claro e unívoco exemplo de que a divisão social do trabalho é produto das relações e dos conflitos entre classes sociais e em que o jogo do poder se faz determinante e presente.

5 O QUE HÁ MAIS PARA SE DIZER?

Realmente, o que há mais para se dizer? Muitos estarão advogando, embora acreditando que nada lucrarão com isso, em favor das novas tecnologias, evidenciando e ressaltando seus pontos positivos e, até mesmo, sustentando que não é o momento e a hora adequada para que seus efeitos atinjam a população. Tempo haverá em que os resultados das experiências do uso desses avanços serão repassados para todos, implicando, necessariamente, na transferência dos seus benefícios que incidirão sobre a vida da população, tornando-a mais simples, fácil e prazerosa. É evidente, no entanto, que a sociedade deve pagar um pequeno tributo - ínfimo se comparado com os benefícios recebidos - uma vez que nem tudo é como gostaríamos que fosse.

Devido a necessidade de padronização, exigência feita pela automação, a linguagem padrão utilizada será aquela constante nos manuais acadêmicos e que, por estranha coincidência, é também aquela que rege todo o aparato legal, as investigações econômicas, científicas, etc. Aqueles que não podem dela fazer uso, por absoluta falta de conhecimento - que por sua vez é decorrência da impossibilidade de freqüência à escola, acesso à educação e informação, tudo isso determinado pela estrutura social - continuarão nesse estado, com o agravante de que, agora, obedecendo aos ditames provocados por possíveis benefícios e regalias advindos das novas tecnologias.

Enquanto a caravana passa os profissionais de bibliotecas públicas apenas observam, como se nada daquilo lhes dissesse respeito, agarrando-se às obsoletas tecnologias que a caravana benevolamente oferece como prova de seu interesse pelas questões sociais. Os bibliotecários, embora se considerem os verdadeiros intermediários entre o usuário e a informação, têm uma estranha concepção daqueles a quem devem prestar seus serviços: consideram o seu público apenas os que já possuem uma iniciação mínima, ou seja, uma pequena e reduzida parcela da população que, talvez, representa exatamente o segmento que deles menos necessita. Os que não têm acesso as informações, continuarão dessa maneira, pois desconhecem a linguagem oficial, nada sabem sobre os intrincados mecanismos dos programas automatizados, não manipulam as relações das linguagens documentárias, da indexação, do acesso a base de dados, das telecomunicações, etc., etc., etc.

As formas com que se apresentam as novas tecnologias não estão, nem são destinadas à maioria da população. O conteúdo, a informação, menos ainda. O intermediário entre essas informações e os interesses e as demandas por elas - o bibliotecário - está alheio a todo esse processo, acreditando que o velho mandamento que diz que a informação deve ser oferecida na hora certa, no momento certo e para o usuário certo é apenas um preceito técnico que se esgota no próprio espaço da biblioteca, espaço esse que é desprovido de qualquer instrumental tecnológico e despido de qualquer interesse social. A insistência em trabalhar apenas com determinados tipos de suportes informacionais - aqueles que registram a informação escrita - implica considerar natural a exclusão das novas tecnologias do interesse e da própria necessidade da biblioteca. "As múltiplas possibilidades informativas abrem um novo espaço de atuação para a biblioteca que não se tornando receptiva a elas poderá colaborar para a separação entre a informação escrita e as demais."(MILANESI-6:p.224). Na verdade, essa separação já existe e é constantemente alimentada pelo descaso com que informações diferentes da escrita são tratadas pelos bibliotecários.

Como pode a biblioteca querer ser reconhecida socialmente pela maioria da população se está atuando, burlescamente, apenas como mantenedora e reprodutora das relações sociais existentes?

A revolução que a biblioteca se diz protagonista, não passa de um mero espanar de pó - que paira no ar por pouco tempo e volta a se depositar nos velhos e mesmos lugares.

BIBLIOGRAFIA

1 - ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Participação política do bibliotecário ou Por uma biblioteconomia guerrilheira. In: JORNADA SUL-RIOGRANDENSE DE BIBLIOTECONOMIA E DOCUMENTAÇÅO, 10., 1988, Porto Alegre. Anais. (no prelo).

2 - AYALA, Marcos, AYALA, Maria Ignez Novais. Cultura popular no Brasil. São Paulo : Ática, 1987.

3 - CAMARGO, Luiz Octávio de Lima. Novas tecnologias de comunicação: democracia cultural ou ideologia da modernização?. In: FADUL, Anamaria, org. Novas tecnologias de comunicação: impactos políticos, culturais e sócio-econômicos. São Paulo : Summus, 1986.

4 - CHAUI, Marilena. Conformismo e resistência: aspectos da cultura popular no Brasil. São Paulo : Brasiliense, 1986.

5 - DEPALLENS, Jacques. La bibliotecologia necesita de una revolucion cultural. Revista Interamericana de Bibliotecologia. Medellin, v.10, n.1, p.7-14, ene./jun. 1987.

6 - MILANESI, Luis Augusto. Ordenar para desordenar. São Paulo : Brasiliense, 1986.

7 - ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. São Paulo : Brasiliense, 1988.

NOTA

(1) “Sabemos hoje que a discussão sobre a 'autenticidade' do nacional, e portanto da identidade, é na verdade uma construção simbólica, uma referência em relação à qual se discutem diversos problemas. Na verdade não existe uma única identidade, mas uma história da 'ideologia da cultura brasileira', que varia ao longo dos anos e segundo os interesses políticos dos grupos que a elaboram." (ORTIZ- 7:p.183).

 

(Publicado originalmente em: Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, São Paulo, v. 22, n.1/2, p.92-104, jan./jun. 1989. 
As normas e a grafia são as da época. 
Publicado posteriormente em: ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo Francisco de. Sociedade e Biblioteconomia. São Paulo: Polis, 1997)

Autor: Oswaldo Francisco de Almeida Junior

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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.