LITERATURA INFANTOJUVENIL


PLANTAS E ANIMAIS QUE QUERO TER

Outro dia li no site do YouTube que durante o isolamento da COVID 19, dezoito milhões de pessoas buscaram nessa plataforma postagem a respeito de jardinagem. Isso me fez lembrar que já tive ideias nesse sentido, mas elas eram exóticas. Desejei cultivar plantas carnívoras, já quis “empestear” o quintal com dente-de-leão, sem dizer na vontade de ter um lago, mesmo que artificial, para colocar uma enorme vitória régia.

Confesso que quando quis plantas carnívoras, eu não era tão criança assim. Mas eu queria, pois achava fascinante e jurava que ficaria, caso necessário, horas para ver exatamente o momento em que a planta comeria uma mosca. Construí tudo isso na minha imaginação e no decorrer do meu autodidatismo sobre a literatura infantil, quase não encontrei livros infantis com essas plantas.

Acho que me distanciei desses desejos e só voltei a pensar neles durante o período de isolamento. Pode parecer um pensamento mórbido, algo como desejos não realizados antes de morrer. Ruim falar nisso, mas quem não temeu a “indesejada” baforando o vírus da COVID 19 no seu cangote?

Melhor mudar de assunto e falar de livros. Na Coluna desse mês vou sugerir um livro publicado pela Callis que quero ler. O título dele é: A planta carnívora de Leo de autoria de Christiane Mazzotta com ilustração de Claudia Souza. Por curiosidade li a resenha do livro no site da Amazon.com.br e me deu um formigamento, pois me identifiquei com o Léo. “Léo é um menino como todos os outros. Mas, em vez de ter um bicho de estimação, possui uma incrível planta carnívora, que seu pai, botânico, trouxe da Austrália.”

 

 

A palavra Austrália instigou a minha imaginação. Na minha mente as plantas carnívoras e os seus vasos saracoteavam com a trepidação de muitos cangurus saltando pelas cidades australianas. Aviso que, por não andarem em bandos, não há coletivo de canguru. No entanto, lembrei que há mais ou menos quatro anos assisti uma reportagem que afirmava ter tanto canguru na Austrália que oficialmente era autorizado o seu abate. Muito triste exterminar um animal tão dócil. Óbvio que me lembrei do meu ídolo Ziraldo e do livro - Meu amigo, o canguru que eu recomendo a leitura.

Voltando às plantas: minha infância em Londrina, com tantos terrenos baldios, foi regada de dente-de-leão. Na época eu não sabia que se chamava dente-de-leão, quando aprendi, apesar de engraçado, não concordei com o nome, pois uma planta tão delicada não poderia ser dente-de-leão que é, em geral, um animal rude e com bafo fedorento. Como nossa mente é uma caixinha surpreendente, de repente, lembrei-me que, para colher essa flor, era um empurra-empurra danado, todos queríamos pegar o máximo possível para soprar e ficar olhando ela se dissolver no ar. Aprendi depois de adulta que a planta dente-de-leão nasce em um tom amarelo bem forte e fica “grisalha” e frágil ao envelhecer. Descobri que por se desmanchar com tanta facilidade e com apenas um sopro ela é também chamada de flor do sopro. Se olharmos com atenção, podemos ver que cada semente que sai dela parece minúsculos paraquedas que são levados pelo vento. Li outro dia que no Nordeste ela é chamada de “esperança” e em Portugal de vovô-careca ou papai-careca. Não imaginava também que ela é da família da serralha comestível (que temperávamos com vinagre e sal). No entanto, há um lado ruim dessa memória, quando os meninos encapetados pediam para uma criança menor colocar o talo da flor na boca e em seguida puxavam bem rápido para encher a boca da vítima com “penugem” que, muitas vezes a sufocava e ela saia tossindo. Não me lembro de alguém ter feito isso comigo (provavelmente sim, era um alvo fácil). Porém, essa experiência me faz concluir que na cabecinha infantil não há só pureza. A diferença é que essas “maldades” davam raiva, mas a raiva passava rapidinho.

E a vitória-régia? Esse sim é um desejo utópico, primeiro não é em qualquer clima que essa planta sobrevive. Segundo eu imaginava uma vitória régia em um tamanho suficiente para que eu pudesse ficar em pé dentro dela. O negócio foi imaginar... quem sabe um dia vou para as terras amazônicas ver uma de perto, pois beleza assim, melhor ver pessoalmente.

Esse desejo de viajar aflorou na pandemia quando li a lenda do surgimento da vitória-régia no livro Lendas de frutas e árvores do Brasil de Adriano Messias com ilustração de Marcia Misawa. Uma lenda com muito lirismo e encantamento.

 

 

Para aqueles que acompanham essa Coluna, lembro que o Adriano Messias colaborou conosco em janeiro de 2010 apresentando suas considerações a respeito da leitura e do pré-leitor. Ele tem um Canal no YouTube (youtube.com.br/user/adrianoescritorsp) e aborda a literatura em geral, com uma tendência aos contos de assombração.

Agora se me perguntarem qual animal, além do canguru e da girafa quero ter?

Respondo com a capa do livro cartonado, colorido e lindo que ganhei na década de 1980 de uma mulher educadérrima chamada Isis Valéria Gomes que comandava a área editorial da Editora Melhoramentos que convidou eu, Marisa e Silvia (que fomos bibliotecárias do Sesc de Londrina) para um chá na casa dela.

 

 

Preciso registrar que Isis Valéria Gomes, além de editora é autora de uma coleção de livros de pano publicado pela Appel Editora que era composto de corpo, cabeça e membros de personagens que, na medida em que se narrava a história se transformavam em menina, coelho, cachorro etc. e encantavam as crianças e os adultos. Que me entristeço ao lembrar que eu não os tenho mais (eles se perderam de mim) e, por mais que eu procure, não consigo comprá-los.

Enfim, chega de digressão, volto ao ponto que estava dizendo que gostaria de ter uma família de beija-flor na minha janela. Tenho muita admiração por esse tranquilo animal. Admiração tamanha que na década de 1980 escrevi uma história e se você quiser ler está lá na Infohomezinha...

Sugestões de leitura:

MESSIAS, Adriano. Comentários sobre o pré-leitor e a educação do ato de ler. Infohome, janeiro 2010. Disponível em: https://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=496.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.