LITERATURA INFANTOJUVENIL


MINHAS RETICÊNCIAS E A COMPLEXIDADE DE LER GUIMARÃES ROSA

Outro dia estava muito reticente... o que estamos vivendo no Brasil não é apenas uma pandemia. Há um desserviço político oferecido aos cidadãos que está nos intoxicando.

A imunologia pode salvar vidas em um processo de dessensibilização, aplicando antígenos para, aos poucos, diminuir a sensibilidade alérgica do indivíduo. No entanto, estou com uma sensação que se não nos dessensibilizarmos, teremos cada vez náuseas... náuseas. Estou reticente... estou reticente... e o que me salva é acreditar que a literatura é o antídoto!

Se reticência é um sinal gráfico que representa a interrupção de um discurso, de uma fala, de uma denúncia, de uma defesa, de uma confissão, de um desabafo, de um grito; resta-nos o oposto: discursar, falar, denunciar, defender, confessar, desabafar e gritar. As opções são muitas e as formas de fazer isso, também. Então opto por escrever de mim e escrever do viver...

Escrever, por exemplo, quanto os meus conhecimentos ainda são parcos para compreender Guimarães Rosa. No texto “A terceira margem do rio” muito do que ele fala, a gente descobre. E se o que o autor encobre, a gente descobre com a música de Caetano Veloso.

Oco de pau que diz:
Eu sou madeira, beira
Boa, dá vau, tristriz
Risca certeira
Meio a meio o rio ri
Silencioso sério
Nosso pai não diz, diz:
Risca terceira
Água da palavra
Água parada pura
Água da palavra
Água de rosa dura
Proa da palavra
Duro silêncio, nosso pai
Margem da palavra
Entre as escuras duas
Margens da palavra
Clareira, luz madura
Rosa da palavra
Puro silêncio, nosso pai

Meio a meio o rio ri
Por entre as árvores da vida
O rio riu, ri
Por sob a risca da canoa
O rio viu, vi
O que ninguém jamais olvida
Ouvi ouvi ouvi
A voz das águas
Asa da palavra
Asa parada agora
Casa da palavra
Onde o silêncio mora
Brasa da palavra
A hora clara, nosso pai

Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra
Rio, pau enorme, nosso pai

Asa da palavra
Asa parada agora
Casa da palavra
Onde o silêncio mora
Brasa da palavra
A hora clara, nosso pai

Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra
Rio, pau enorme, nosso pai

Meio a meio o rio ri
Por entre as árvores da vida
O rio riu, ri
Por sob a risca da canoa
O rio viu, vi
O que ninguém jamais olvida
Ouvi ouvi ouvi
A voz das águas

Asa da palavra
Asa parada agora
Casa da palavra
Onde o silêncio mora
Brasa da palavra
A hora clara, nosso pai

Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra
Rio, pau enorme, nosso pai

Ou não! O Caetano descobre e encobre... eu reticência eu.

Fiz essa introdução para falar do livro infantil de Guimarães Rosa - “Fita verde no cabelo: nova velha estória” que é classificada infantojuvenil. Pretendo aqui fazer uma écfrase (aprendi a poucos dias que essa palavra significa descrição minuciosa de algo). Apesar de estar reticente da boca para fora, da boca para dentro estou como a Belonísia (livro “Torto arado” de Itamar Vieira Junior) cheia de comunicações reticentes e não reticentes.

Então vamos lá: meu exemplar do livro “Fita verde no cabelo: nova velha estória” mede 23cm por 16cm, portanto, mais alto do que gordo. Tem o título original “Fita verde no cabelo” e seu copyright está registrado nos nomes de Vilma Guimarães Rosa e Agnes Guimarães Rosa do Amaral (filhas de Guimarães Rosa). A coordenação editorial dele é de Glória Pondé. Glória Pondé faleceu em 2006, mas nos deixou muitos textos e reflexões a respeito da literatura infantil e juvenil. Na minha memória está registrado, em especial, o período em que ela participou da equipe de criação de dois projetos que objetivaram a formação de leitores, sendo eles: a Ciranda de Livros (Fundação Roberto Marinho e Hoechst do Brasil) e, posteriormente, o Proler. A respeito do livro “Fita verde no cabelo: nova velha estória” ela escreveu na quarta capa:

[...] apresenta uma nova leitura de Chapeuzinho Vermelho, história em que a personagem experimenta sentimentos como a alegria, o desejo, o medo e a solidão. Guimarães Rosa mostra a trajetória de fantasias de uma menina, até o confronto com a morte de sua avó, quando “mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez”. O conto, rico por si mesmo, escrito com um ritmo e uma forma de apresentação de cenas e imagens que muito o aproximam da poesia, encanta o público de qualquer idade.

O livro é composto de 30 páginas, o papel do miolo é rioprint 50g e, o da capa, cartão supremo 250g. A ilustração do livro é de Roger Melo, que dispensaria comentários, pois é um escritor e ilustrador brasileiro, premiado nacional e internacionalmente que além de dominar a escrita das palavras e dos traços é de uma simpatia cativante. Preciso contar que tenho o whatsApp dele e que volta e meia uso para, de maneira breve, tecer um elogio de uma das suas obras. Fiz isso alguns meses atrás com o livro “Clarice” que ele publicou pela Editora Global. Maravilhoso! Roger optou pela ilustração, na maioria das páginas, nas cores preto-branco, realizando uma exceção, em seis páginas, quando de leve usa um verde entristecido.

Aprendi que ilustração não complementa um texto e sim conversa com ele. Nem sempre o autor troca ideias com o seu ilustrador. No caso dessa obra, isso seria impossível, quando Guimarães Rosa em 1967, Roger Mello só tinha 2 anos, mas a sutileza do ilustrador realça a sensibilidade do escritor.

Nas últimas páginas do livro há uma listagem de obras de Guimarães Rosa publicadas pela Editora Nova Fronteira e uma breve biografia do autor com o seguinte relato curioso: o autor foi eleito como membro da Academia Brasileira de Letras em 1963, só assumiu dia 16 de novembro de 1967, mas “Três dias depois, Guimarães Rosa morreu de enfarte.”

Não descreverei o enredo da obra, limito-me a informar que há nele trechos que insinuam o conto de fada tradicional de Chapeuzinho vermelho, porém com o foco da finitude da vida, a avó da menina de fita verde no cabelo. Aproveito para fazer uma brincadeira popular, então eu pergunto:

- “Está pronto, seu loooobo?” “Está pronto seu loooobo para ler um livro que aborda o tema morte?”

Não saberei sua resposta, mas minha resposta seria:

- Sim estou, devo estar e preciso que as crianças leiam este livro, em especial, após tantas perdas na pandemia da COVID19.

Sugestões de leitura:

ROSA, João Guimarães. Fita verde no cabelo: nova velha estória. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

THIMÓTEO, Saulo Gomes. Um professor lê. Disponível em:  https://umprofessorle.com.br/2018/11/16/fita-verde-no-cabelo/


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.