LITERATURA INFANTOJUVENIL


RELER: GANHO OU PERCO TEMPO?

O que seria um leitor ideal? Por meio da oralidade eu converso com amigos de diferentes formações: Biblioteconomia, Letras, Pedagogia e Psicologia sobre esse assunto. Por meio de fontes escritas eu converso com Umberto Eco, dele tenho estudado o conceito de leitor-modelo, mas faço isso em passos lentos pela complexidade de suas reflexões. Até o momento compreendi que Eco acredita (uso a palavra acredita, pois ele foi para outra dimensão, mas suas obras estão espalhadas em diferentes países e línguas) na capacidade que o leitor tem de mover um texto e na interpretação construí-lo.

Eco acredita também na incompletude do texto, e, em consequência disso, almeja um “leitor-modelo” com uma atuação colaborativa e nada passiva diante de uma obra.

Coincidência ou não, outro dia, em uma conversa com minha irmã Solange, ela me falou do texto O leitor ideal de Mário Quintana. Gosto muito do desassossego que as conversas a respeito do ato de ler provoca em mim.

Fui reler e depois disso as pulgas que moram atrás das minhas orelhas começaram a saltitar e ainda estão por aqui. Assim saltitante fiquei e num instante misturo Umberto Eco com Mário Quintana e noto uma semelhança no pensar do pesquisador e do poeta. O primeiro destaca a contribuição crucial do leitor ao se apropriar de um texto; o segundo poeticamente também atribui ao leitor uma função imprescindível. Pensando em um cronista e utilizando de uma metáfora o poeta não culpa o autor caso o leitor não alcance a materialidade ou subjetividade do seu texto. Fala isso dessa forma:

O cronista escolheria a palavra do dia: “Árvore”, por exemplo, ou “Menina”. Escreveria essa palavra bem no meio da página, com espaço em branco para todos os lados, como um campo aberto para os devaneios do leitor. Imaginem só uma meninazinha solta no meio da página.

Sem mais nada. Até sem nome.

Sem cor de vestido nem de olhos. Sem se saber para onde ia...

[...]

E se o leitor nada conseguisse tirar dessa obra-prima, poderia o autor alegar, cavilosamente, que a culpa não era do cronista. [...] (1)

Gosto disso, pois me fez lembrar que certa vez escrevi para a revista Informação & Informação da Universidade Estadual de Londrina um editorial com o seguinte título: A responsabilidade de ser leitor. Dele destaco a frase “[...] se escrever exige uma dose de coragem, ler exige muito mais.” Em 2005 eu pensava assim e continuo pensando: a compreensão de um texto não depende de uma via única, isto é, o autor, mas também ou principalmente do leitor.

 

Depois desse longo preâmbulo e a literatura infantojuvenil que é temática da Coluna, quando será abordada?  

Agora. Quando começar a relatar a experiência de leitura da obra Sapato furado de Mário Quintana acontecida em dois momentos da minha vida. A primeira em 1994 e a segunda 2023.

Sempre fui muito ligada aos livros de Mário Quintana. Comprei, por exemplo o livro “Lili inventa o mundo” que tenho vergonha de mostrar para as crianças (talvez não deveria ter!!!), pois está tão “surrado” que não parece pertencer à uma pessoa adulta e bibliotecária.  Desde 1985 leio dois poemas em especial: A Porteirinha (muito divertido e aborda a queda do dente da criança aos sete anos) e o Poema do fim do ano (que imprimia e entregava como cartão de felicitações para um novo ano).

Minha admiração por esse poeta é tamanha que a primeira e única vez que fui à Porto Alegre inclui entre os passeios turísticos uma ida a Casa de Cultura Mário Quintana. Que lugar maravilhoso, na orla do Guaíba. Mas voltemos ao Sapato furado.

Em 1994 li essa obra publicada pela editora FTD. Fiquei muito encantada com os poemas e com a ilustração de Rubens Matuck que segundo consta no verso da folha de rosto para fazê-la foram usados papel de algodão arches francês e pincéis chineses. Alto nível!

Nessa primeira leitura o achei maravilhoso, pois o autor vai enrolando a gente e só faz referência aos sapatos na última página e no último texto. O leitor fica o tempo todo na expectativa, dá uma sensação de que o título tinha vindo do nada, pois não há sapato nenhum e só no final que é possível encontrá-lo. Pensei que poderia ser uma decisão da editora Ione Meloni Nassar, mas no verso da folha de rosto consta: “Organização: Mario Quintana” (curioso que é sem acento!). Outra informação é que a “Seleção dos textos é de Diogo de Oliveira Biazús (dez anos)”. Procurei na web não há referências a este nome, então fica a dúvida se não foi artimanhas do poeta, sendo um codinome.

Para degustação do leitor trago os dois últimos textos dessa obra:

Fantasma

Pobre-diabo marginal entre dois mundos.

Não usa sapatos.

Alegre miséria

Os teus sapatos parece que estão rindo!

Em 2023 li Sapato furado em uma publicação da editora Global. Fiquei também encantada, mas dessa vez o livro me arrebatou mais. A ilustração foi realizada pelo incrível André Neves. Fiquei impactada, pois a ilustração evidenciou um texto que eu teria notado em 1994, pois leio e coleciono obras infantis a respeito da morte, em especial, quando abordada de maneira divertida. Á época não havia enxergado essa preciosidade:

Coisas deste mundo

“Deixe de lado as coisas deste mundo”

- disse o padre ao moribundo.

O moribundo, então,

virou as costas para o padre.

Outros textos dessa obra fazem referência à defunto, túmulo, caixão, céu, diabo, fantasma e me passaram despercebido naquela oportunidade. Um deles transcrevo aqui pelo tom jocoso e que se alinha aos contos ou causos que tem a intenção de enganar a morte.

As três moças de Encruzilhada

Era uma vez três moças que moravam na florescente

cidade de Encruzilhada.

E, como eram três moças muito sérias, faltava-lhes o senso

de humor e tomavam ao pé da letra o nome da sua cidade

natal. E nunca sabiam aonde ir, o que responder...

Para acabar com essa dúvida atroz, depois de infindáveis

hesitações, resolveram o seguinte: a primeira sempre

diria sim, a segunda que não e a terceira responderia

com ar sonhador:

- Talvez...

Ora, um dia a Morte apareceu à primeira, e a moça

disse que sim.

A morte a levou.

No outro dia a Morte apareceu à segunda, e esta

disse que não.

- Como ousas contrariar-me? – eu sou a única Potestade do Céu e da Terra a quem ninguém pode dizer não.

E levou a moça.

Enfim, no terceiro dia, a Morte apresentou-se à última das

três – e a moça ficou olhando a cara da Morte e

finalmente suspirou:

- Talvez...

E a morte retirou-se, danada da vida!

Enfim, chego ao ponto desejado desde o começo desse texto: é possível ser leitor-ideal ou modelo como propagam Quintana e Eco? Será que comparando minha leitura de 1994 com a de 2023 eu fui uma leitora ideal ou modelo? Será que somos um misto de ideal ou modelo ou nem uma coisa nem outra, por dependermos das fases das nossas vidas? E talvez a pergunta mais difícil: o que o autor deve esperar de um leitor?

Depois disso tudo não sei responder essas indagações e volto ao título dessa coluna Reler: ganho ou perco tempo? Respondo: ganho sim! Quando leio, releio e diversifico minhas leituras... amplio as chances de ser uma leitora real com fortalezas e fragilidades. Nesse encadeamento sou, a cada leitura, outra leitora e, talvez, seja isso o que mais importa!

Porém, não consegui terminar assim: estava me sentindo insegura se enviaria ou não para o Infohome esse texto, então pedi uma avaliação da minha amiga Ana Lúcia Antunes de Oliveira Bicheri e enviei a seguinte pergunta: estou enrolando meu leitor ao apresentar reflexões inacabadas? A resposta foi a seguinte:

Oi Sueli, bom dia! Li seu texto ontem à noite, antes de deitar. Não sei se porque eu estava cansada e com sono, tive a impressão que ele está parecido com o texto que você falou (sobre mencionar os sapatos só no finalzinho). ????

Você trouxe sim a ideia de leitor ideal, leitor-modelo. Comentou (e concordo plenamente) que participamos, construímos uma interpretação de acordo com a fase em que nos encontramos ou o que já vivenciamos. Ao reler um texto podemos perceber novos pontos ou atualizar a interpretação. Penso que um autor expõe suas ideias, vivência, expectativas e pontos de vista. Já um leitor, concorda ou não com o autor à medida que o texto lhe faz sentido. Daí elaboro uma nova questão: Um leitor ideal ou modelo é aquele que analisa com conhecimento o texto de um autor, ou é aquele que, desconhecendo o tema em questão se apropria do texto para senti-lo e vivenciá-lo? Ou faz isso em uma mescla?

Relendo seu comentário... não me senti "enrolada", mas me senti parecida com você, com pulgas atrás das orelhas... e provocada a reler textos que já li durante minha vida.

EU GOSTEI!

Para terminar quero incluir uma pergunta brincante: o que você prefere um sapato furado ou um barco furado? Eu prefiro o primeiro, pois vem recheado de marioquintanices.

Sugestões de leitura:

QUINTANA, Mário. Porta giratória. São Paulo: Globo, 1988.

QUINTANA, Mário. Lili inventa o mundo. 3.ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983.

QUINTANA, Mário. Sapato furado. 2.ed. São Paulo: FTD, 1994.

QUINTANA, Mário. Sapato furado. São Paulo: Global, 2006.

NOTA

1 - Trago o link de uma gravação em Mp3 com o texto na íntegra e oralizado.

http://www.dominiopublico.gov.br/download/som/us000134.mp3


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.