DORES DE ABRIL: ROSEANA E ZIRALDO
As mídias impressas e digitais noticiaram:
05 de abril 2024 – poeta Roseana Murray foi atacada por três pitbulls em Saquarema, no Rio de Janeiro, e tem um braço dilacerado.
06 de abril 2024 – morre no Rio de Janeiro o escritor e ilustrador Ziraldo Alves Pinto
Desde 1998, quando a editora Miguilim me deu o livro Classificados poéticos da poeta Roseana Murray virei sua fã. Sempre me interessei por poesia para criança. Creio que são como gotas, que além de embelezar o mundo, potencializam a sensibilidade. Essa editora Miguilim tem sede em Belo Horizonte. Amei os textos de Roseana e amei as ilustrações de Paula Saldanha.
Essa autora tem aproximadamente 100 livros publicados, mas tristemente só tenho, por enquanto, 15 títulos.
Senti muita tristeza quando soube do ataque agressivo desses cães raivosos. Me senti assustada também, mas faço um exercício de não generalização para confiar nessa raça.
Desde 1981, quando iniciei minha carreira como bibliotecária do Sesc em Londrina, me esforcei em propiciar aos leitores o encontro presencial com escritores. Obviamente que não havia neutralidade da minha parte e me empenhava em captar recursos para trazer à Londrina aqueles que as obras tocavam meu coração, seja pela criatividade, delicadeza, humor, sensibilidade que nelas existiam.
Em geral, conhecer os escritores pessoalmente é muito impactante positivamente, e as enormes filas em feiras e bienais do livro comprovam isso. Pode acontecer do impacto ser negativo também. Minha orientadora do mestrado (que já não está nesta dimensão) contava que era criança quando conheceu Monteiro Lobato em uma reunião literária. Ela empolgada se aproximou, mas ele só tinha olhos para os adultos. Foi frustrante!
Conheci Roseana pessoalmente aqui em Londrina quando “me ofereci” para almoçar com ela e com o professor Cleber Fabiano da Fatum Educação (empresa de Curitiba focada na formação de contadores de histórias). Imaginem a leveza e delicadeza da conversa: literatura infantil, poesia infantil, subjetividade, afeto, imaginário e emoção.
Para mim sempre foi um momento mágico e eu queria que as crianças também vivenciassem essa emoção. Curti tanto conhecer autores de pertinho que narrei isso em um texto dessa Coluna em novembro de 2009 intitulado Meus encontros amorosos com escritores. Nela relatei que conheci vários autores pessoalmente, entre eles meu ídolo Ziraldo. Contei que fiquei, em agosto 1986, 45 minutos na fila da Bienal Internacional de São Paulo para pegar seu autógrafo.
Tive muitos outros encontros com Ziraldo em minha Londrina ou fora dela. Minha mania de tietar sempre me deu muita alegria, mas também recebia quase-bullying daqueles que achavam meu comportamento uma criancice. Digo quase-bullying, pois nunca me preocupei com isso. Uma super-fã se preocupa sim em estar constantemente “armada” de argumentos para exaltar seu ídolo.
Certa vez, estava eu preocupada com o clima em Londrina, pois tinha medo que o avião em que o Ziraldo estava não conseguisse descer, em virtude de muita chuva, quando um rapaz, que se denominava ilustrador, se aproximou e diz: “não sei porque você gosta tanto do Ziraldo, os traços dele nem são tão bonitos assim!”. Fiquei furiosa e me distanciei daquele projeto de desenhista.
Esse mês Roseana foi ferida e um dos medos do livro Tantos medos e outras coragens foi testado e ficou provado o quanto ela é admirada e amada. Digo isso porque nele, a autora abordando os medos humanos diz:
E o medo de que não gostem
mais da gente,
depois de tanto tempo
sem se ver,
ou que tenham esquecido
o nosso nome.
As notícias sobre essa tragédia circularam muito rápido por todas as formas de comunicação. Alguém teve a iniciativa de criar um grupo no whatsApp e nele fomos acompanhando a recuperação física, emocional e espiritual de Roseana Murray. Foi um conforto, mas também ficou explícito a admiração dos amigos e fãs com a força, resiliência e o poder de superação dessa mulher. No grupo a comparam com Fênix, fizeram homenagens, dedicaram músicas, flores e muito amor.
Roseana sobreviveu!!
Um dia após a tragédia foi a vez de Ziraldo nos dar um susto. Ziraldo mudou de planeta e como me disse a poeta Glória Kirinus em mensagem também no WhatsApp - ele foi para o planeta lilás.
Foi um fim de semana dolorido! Recebi mensagens de parentes e amigos, uma espécie de rede que me consolou. Alguns chorando, outros mandando fotos ao lado dele ou recebendo autógrafos. Os ex-alunos agradecendo a oportunidade de conhecê-lo na Viagem Cultural à Bienal de São Paulo e as fotos e tietagens coletivas.
Termino esse texto curto e triste com a certeza de que a Roseana vai escrever muitos outros livros para embelezar as nossas vidas e que vou continuar falando e divulgando Ziraldo para todo o sempre.