LITERATURA INFANTOJUVENIL


VIAGENS: MUSEU, LIVRO, TELA, BIBLIOTECA, SEBO

Onde a pessoa bibliotecária vai, fareja o cheiro de informação.

Comecei 2025 com fome de viagem. Dia 01 de janeiro fui para Ribeirão Preto (SP) visitar o casal Marisa e Paulo, amigos de sempre. A Paula, filha deles, estava em Ribeirão em férias, só faltava a filha mais velha, Mariana, que estava trabalhando em São Paulo. Fiquei hospedada no hotel 5 estrelas, que é a casa deles. Uma casa que tem um quintal que o Paulo aproveita todo cadim de terra para plantar flores e frutos surpreendentes como o cacau típico do Nordeste; sem sombra de dúvida, sob pressão do anfitrião, degustei aquilo tudo. Sobrevivi! A Marisa trabalhou comigo na Sesc na década de 1980, hoje é bibliotecária de uma escola particular. É fácil imaginar que 50% das nossas conversas foram memórias de Londrina. Ela é bibliotecária-leitora ele juiz-leitor e as filhas, filhas-leitoras, resultado: Tem livros em todos os cômodos. Tem livros ainda em sacolas. Tem livro com marcadores no início, no meio e no fim. Ambiente típico de leitores vorazes e inquietos.

Em Ribeirão nossa agenda foi curta, mas deu tempo de conhecer a Biblioteca Pública Sinhá Junqueira e rever o admirável bibliotecário Ciro Monteiro que também é super-leitor. Essa Biblioteca começa encantando pela beleza do prédio, que foi construído em 1930. Nela acontece de tudo, incluindo Roda de Chorinho. Hoje ela é considerada uma das bibliotecas mais frequentadas do país. 

Em seguida demos uma esticadinha até Jardinópolis (cidade que está a 22km de Ribeirão Preto) e que tem uma programação cultural intensa fomentada por Alessandra Miranda Cilli. Uma mulher vibrante que faz “cirandar”, em diferentes linguagens a cultura por todos cantos dessa cidade. Ali acabei ganhando o livro Portinari, o menino de Brodósqui do João Baptista Cilli Filho, marido da Alessandra.

Para ampliar a minha felicidade me levaram ao Museu Casa de Portinari na cidade de Brodowski (28km de Ribeirão Preto), isto é, estive na casa onde Portinari nasceu em 29 de dezembro de 1903. Foi um sonho realizado e a emoção foi indescritível. O Museu Casa de Portinari que foi inaugurado em 14 de março de 1970 e “[...] é uma instituição da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo [...]. Abriga pinturas murais realizadas pelo pintor e seus amigos, nas técnicas de afresco e têmpera, com temas religiosos, bem como desenhos, objetos, objetos de uso pessoal, mobiliário, utensílios domésticos e objetos de trabalho do artista, entre outros.” 

A Praça onde está localizado o Museu recebe também o nome de Candido Portinari, nela tem a Capela de Santo Antônio que foi, em tempos remotos, a primeira matriz do Município. Atualmente há, em frente do Museu, uma larga calçada que propicia aos munícipes e turistas admirarem descontraidamente o espaço de muita cor, luz e vida. Na lojinha há diversos objetos com as obras de Portinari estampadas e isso aciona o bichinho do consumismo. Saí dela com dois livros: Candinho, um menino que gostava muito de brincar e desenhar (para jovens) e, o que mais me despertou a curiosidade, Carolina e o gato portinaresco (para crianças). 

Só para o leitor dessa Coluna ter noção, em 2023 o Blog do Instituto Credicitrus descrevia a sala-galeria do Museu da seguinte forma: “[...] foram instalados quatro projetores de alta resolução. Os equipamentos vão exibir, permanentemente e em ordem cronológica, nas paredes, as mais de 5.300 criações de Candido Portinari [...]”. 

Este foi o momento mais impactante, pois entrar na galeria multimídia e ver as obras projetadas nas paredes, nos leva a perceber a fertilidade e a magnitude do brasileiro Portinari. Mas também descobri que o pintor, lamentavelmente, morre aos 59 anos após intoxicação pelo chumbo existente nas tintas utilizadas por ele, em 06 de fevereiro de 1962.

Para finalizar a viagem, eu de carona com a família leitora (Marisa, Paula e Paulo), nos deslocamos para a cidade de São Paulo e lá Mariana, a menina que carreguei no colo há 20 e poucos anos, que hoje é advogada, mesmo estando de folga, nos proporcionou uma visita guiada nas dependências do Museu de Arte de São Paulo (MASP).  

Depois dessa imersão cultural nos primeiros dias do ano, preciso focar no objeto da minha Coluna: os livros infantis. Então é sobre Carolina e o gato portinaresco de Rita de Freitas e Portinholas de Ana Maria Machado que passo a conversar.

Carolina e o gato portinaresco seduz, desde a capa, pela bela ilustração de Gerson Watanuki que misturando, ora um tom marrom claro, ora escuro, cria um ambiente sombrio sem ser deprimente; pelo contrário é envolvente e misterioso. Os traços despertaram na Sueli-leitora a expectativa em seguir a protagonista Carolina, menina negra, que ao aprender na escola sobre a obra de Candinho, pede aos pais para levá-la ao Museu Casa Portinari. Enquanto seus pais planejam a viagem Carolina sonha com um gato com quem vive uma aventura na imaginação. Só posso contar que o diálogo entre ela e o gato acontece numa linguagem infantil bem divertida. O texto de Rita de Freitas também apresenta uma mistura, ora informações biográficas do pintor, ora informações estruturais do Museu. Há, por parte da autora, habilidade de trançar o real e o ficcional sem didatizar, sem ensinar modos de comportamento. Complementar ao texto há uma fita azul com marcador de páginas com cinco estrelas (não vou contar o significado, pois quero criar expectativa). No final do livro tem dois espaços de diversão: uma cruzadinha a ser preenchida e uma página vazia com a proposta do leitor/leitora fazer um mapa imaginário de uma visita ao Museu Casa. Foi nesse livro que aprendi que são 09 horas de exibição de obras de Portinari na galeria multimídia que me referi anteriormente. 

Em Portinholas Ana Maria Machado conta com a ajuda de sua filha Luísa Martins Baêta que fez, na infância, uma releitura de algumas obras de Portinari. Além disso, a autora inclui 20 trabalhos do próprio pintor. O livro foi escrito após a morte do pintor e em homenagem ao Centenário de seu nascimento, dessa forma ao constar “Ana Maria Machado & Candido Portinari” sinaliza respeitosamente a coautoria dele. Quanto ao texto, o leitor encontra uma escrita magnífica de Ana Maria Machado que demonstra uma aproximação afetiva da escritora com o artista. A forma utilizada é o diálogo realizado entre três personagens: uma filha, seu pai e sua mãe. Na última e penúltima página há uma espécie de catálogo das pinturas (título, técnica utilizada, dimensões em centímetros, ano e acervo a que pertence a obra no Brasil e no exterior).

Duas obras muito sensíveis.

Sugestões de leitura:

BIBLIOTECA Sinhá Junqueira tem recorde de público e é uma das mais visitadas do Brasil em 2024. https://www.r7.com/aclr/biblioteca-sinha-junqueira-tem-recorde-de-publico-e-e-uma-das-mais-visitadas-do-brasil-em-2024-07012025/.

FABBRI, Angelica. Candinho, um menino que gostava muito de brincar e de desenhar. Brodowski, 2021. (ilustração Dino Bernardi).

FITAS, Rita de. Carolina e o gato portinaresco. Ribeirão Preto: Editora da Autora, 2023. (ilustração de Gerson Watanuki)

INSTITUTO CREDICITRUS. Museu Casa de Portinari ganha galeria multimídia  com todas as obras do artista. https://institutocredicitrus.com.br/cultural/museu-casa-de-portinari-ganha-galeria-multimidia-com-todas-as-obras-do-artista/

MACHADO, Ana Maria. Portinholas. 2.ed. São Paulo: Mercuryo, 2009.

PORTINARI, Candido. Portinari, o menino de Brodósqui. 2.ed. São Paulo: O Boticário, 2001.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.