LITERATURA INFANTOJUVENIL


HÁ UMA LINGUAGEM ADEQUADA?

A palavra adequada significa aquilo que é bom e próprio para determinada situação, lugar ou objetivo.

 

Quem me conhece sabe como eu gosto de palavras e quanto me sinto atraída por elas, principalmente quando são comunicadas de forma oral.

 

Sempre defendi que palavras são como luvas, têm que caber com exatidão. Por isso, o máximo possível, eu lanço mão delas com carinho e dedicação.

 

Esse prazer em assuntar as palavras me faz mais exigente. Em consequência disso implico muito quando autores de literatura infantil usam uma linguagem pueril e empobrecida, palavras no diminutivo – uma borboletinha bonitinha sentou na cabecinha da menininha.

 

Implico também com escritores para adultos. Muitos deles querendo dar uma aparência erudita e séria (como se a seriedade de um texto pudesse ser medida apenas pela forma de escrevê-lo!), usam uma linguagem carrancuda, distante e em muitos casos artificial.

 

As instituições de ensino superior (melhor dizer universitário, pois dizer ensino superior dá um tom arrogante), em sua maioria, têm, em suas produções acadêmicas, como padrão o uso de uma linguagem formal.

 

Preciso contar que minha tese foi diferente: tive um orientador aberto, criativo, flexível, inovador e coerente (afinal escrever a respeito de oralidade me abriu a possibilidade de elaborar um texto num compasso quase oral).

 

Ele me deu carta branca (1) e encarei o desafio de usar uma linguagem diferente do que encontramos na maioria dos trabalhos acadêmicos. “Assim, construí meu texto na primeira pessoa do singular, utilizei citações científicas, textos literários, narração de experiências pessoais, metáforas, alegorias, sem ter, no entanto, a intenção de desrespeitar a seriedade de uma pesquisa e de um pesquisador.”

 

Você deve estar perguntando onde quero chegar com esse lenga-lenga?

 

Quero dizer que um texto, seja ele científico, literário, jornalístico, pessoal-afetivo vem carregado de energia do comunicador. Comunicador que deseja ver o seu texto sendo apropriado e re-escrito por outras pessoas.

 

Apesar de pensar assim, sei que há pesquisadores que não aprovam o formato que adotei, mas a vida continua... Outro dia... coincidência ou atração recebi o e-mail de uma ex-aluna contando que estava lendo a minha tese no site  da Unesp de Marilia. Nesse e-mail ela diz assim:

 

[...] recordo-me da energia que você transmitia e senti isso em sua tese. Geralmente ler textos científicos é tão maçante, mas lendo sua tese me senti confortável, aninhada, não sei se soa estranho, mas foi a sensação que tive. Se for possível, se de alguma forma não te incomodasse, gostaria muito de encontrá-la pessoalmente, trocar algumas ideias. (grifo meu)

 

Quem me conhece já deve ter imaginado a minha emoção e o meu contentamento, principalmente com a palavra “aninhada”. Nunca poderia imaginar que uma tese pudesse “aninhar” alguém. Senti que um dos meus objetivos foi alcançado.

 

Alguns dias depois estávamos: eu e ela, sentadas frente a frente falando com voz viva de nossos fazeres em prol da literatura. Isso resultou no texto escrito por ela que foi incluído na minha coluna no mês passado.

 

Parei e pensei existe sim uma linguagem adequada, mas deve ser aquela que o comunicador sinta desejo de usar.

 

Ou aquela que o comunicador acredita que irá “seduzir” o leitor de uma determinada faixa etária.

 

Pensando assim trouxe dois textos que elaborei e incluí em uma exposição, há muitos anos, montada por duas alunas na Biblioteca Pública de Londrina durante o estágio curricular. A exposição visava mostrar como os livros estavam sendo depredados e quanto os bibliotecários precisavam de ajuda. O texto tinha o objetivo de “puxar orelhas”, mas não optamos por uma linguagem moralista e sim humorada. A linguagem escolhida foi esta, espero que não tenha ofendido ninguém!

 

 

 

A VOLTA DOS LIVROS MORTOS

 

É meia noite no país dos livros em frangalhos...

 

Sem se separar deles, Frankenstein toma uma doce bebida com o Corcunda de Notre Dame, enquanto assistem o filme Fahrenheit 451.

Num canto da sala, a TV LOBO exibe um espetáculo com as mais tortuosas caveiras. Elas pertencem ao Corpo de Baile Municipal de Destruilândia.

Destruilândia é uma cidade povoada por vampiros, dráculas, múmias, caveiras, morcegos e outros monstros.

 

Por que Destruilândia?

 

Bem!!!

É meio dia!

E meio dia, tem sempre barriga vazia.

E barriga vazia é sinal de que alguém tem fome.

O povo de Destruilândia tem fome...

Ele não pode ver pessoas estragando livros.

Olham essas pessoas com curiosidade. Principalmente aquelas que tratam o livro de maneira nada especial.

O povo de Destruilândia tem fome, muita fome!

Fome de devorar aqueles seres estranhos que mutilam os livros, tratando-os de maneira nada especial.

Cuidado! O povo de Destruilândia tem fome! Um dia ele vai pegar você e...

Aí (com certeza), usará seus ossos para palitar os dentes.

Belos dentes! Belo sorriso! Principalmente quando dormem tranquilos com um monte de livros ao lado do travesseiro e sonham com a “Volta dos Livros Mortos”, que renascerão das mãos de uma pessoa monstruosamente interessada em conservá-los.

 

 

 

 

O SONHO DOS LIVROS VIVOS

 

Em fevereiro no país do Carnaval...

 

A biblioteca se enfeita e as estantes movem-se involuntariamente num samba ritmado.

O arlequim convida a colombina para ler um poema.

Marília diz para Dirceu que seus sonhos literários são coloridos e que ela tem medo dos monstros (do texto lá de cima).

Dirceu, sossegadamente sentado no galho de uma árvore faz bolhas de sabão.

- Fique tranquila Marília, eles só estão cumprindo sua missão!

Dirceu vê como um visionário veria. Vê cenas de um futuro bem próximo (afinal o tempo é relativo!).

Ele pressente que um dia os restauradores vão abandonar suas ferramentas e tranquilamente irão sentar em suas cadeiras de balanço e...

Ali então... tirarão um longo cochilo, se levantando apenas para tratar dos livros gastos pelo tempo e não mais mutilados pelas mãos dos seres infectados pelos vírus da destruição.

 

 

 

 

NOTAS

 

1 - Carta branca não é uma expressão preconceituosa, pois nada tem com cor (branco/preto), significa folha em branco para agir com liberdade.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.