LITERATURA INFANTOJUVENIL


QUANDO A RAIVA CRESCE

 

Coluna dedicada à Denise Gentil (Ciranda Arte e Educação/Londrina)

 

O dia 14 de janeiro de 2015 foi marcado pela tragédia no jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris. Em poucos minutos, este atentado que matou mais de 10 pessoas estava estampado em jornais nas grandes capitais ou numa minúscula cidade num distante país. A triste notícia espalhou-se como um rastilho de pólvora bombardeando nossas cabeças e nossos corações.

 

O escritor e cartunista Ziraldo, angustiado pergunta indignado – “que civilização é essa?”

 

Movimentos e homenagens pululam em diversas cidades do Mundo e o sentimento é de indignação, mas também de medo. Eu só consegui dizer: precisamos desarmar as almas e os corações.

 

Até agora as pessoas envolvidas, que também são reféns de uma história herdada, são muito jovens. Aprenderam uma intolerância doida, esquizofrênica. Aprenderam a ter uma raiva burra. Digo burra porque ontem conheci um livro infantil na livraria Ciranda (Rua Jorge Velho, 48 - Londrina), que dizia isso.

 

Sempre quando posso, passo por lá para saber novidades! Confesso que quando eu fico algumas horas entre os livros nessa Livraria, além de informação e lazer, sinto muita emoção, um sentimento saudosista do que eu vivia numa Livraria que tive há 20 anos e que se chamava Maluquinha.

 

Voltando ao assunto, conversa vai, conversa vem, ela me apresentou o livro – A Raiva. Um livro publicado pela Editora Pequena Zahar no ano passado, dos autores Blandina Franco e José Carlos Lollo.

 

O livro já conquista o leitor pela capa que é branca com as letras do título em preto, demonstrando certa corrosão, com o pingo do i em vermelho-sangue.

 

Li aceleradamente. A corrosão da capa me seduziu, mas lendo o texto fiquei deslumbrada e só soube dizer: - Nossa que atual este livro, vou comprar!

 

O que aborda o livro?

 

Resposta: De uma coisa boba chamada raiva, que nasce pequena, mas vai ruminando e com o passar do tempo vai ficando grande. Ela, a raiva, é burra e vaidosa. Até que um dia “[...] não era mais uma raivinha à toa. Era uma fúria. Uma cólera! Uma ira!” Infelizmente prestes a explodir e explode.

 

Pouco mais de três meses depois, 29 de abril, no Paraná, professores e demais servidores públicos, num protesto legítimo tentam impedir que o dinheiro depositado ano a ano e que poderiam garantir tranquilidade em suas aposentadorias, fossem sacados pelo governador Beto Richa, foram recebidos com balas de borracha, spray de pimenta e bombas. Assim, a praça legislativa paranaense foi transformada em um espaço bélico, onde policiais posicionados na terra e no ar passam a tratar os cidadãos como inimigos, Neste dia, palavras como massacre - violência desmedida - dor – tristeza – decepção e raiva foram incrustadas na calçada curitibana.

 

Eu não estava lá na praça sangrenta, portanto não há zunidos de balas nos meus ouvidos, mas permanece uma enorme indignação na minha alma, principalmente porque sei que, apesar dos brados que continuam ecoando, a Educação está morrendo à míngua, a Universidade em que eu estudei e que agora trabalho, está sendo dia a dia sucateada.

 

Para abrandar nossas angústias, apresento aqui o livro “Correspondência” do escritor Bartolomeu Campos Queirós e da ilustradora Angela Lago. O exemplar que eu tenho foi publicado pelo Governo de Minas Gerais em 1986 e a informação que tenho é que está esgotado. Então lá vai o texto na íntegra:

 

 

As palavras sabem muito mais longe.

 

 

 

Querido Mateus

Palavras que amamos tanto, há muitos anos, dormem em dicionário. Hoje tirei do sono três palavras para dar de presente a você: Livre, Terra e Irmão.

Quando escritas, lê-se poesia; se faladas, são melodia: somadas, fazem novo dia.

Com saudade, despede a

Ana

 

 

 

Maria, amiga minha

Recebi carta de Ana. Carta pequena, mas grande em amor. Veio de longe, com três palavras de presente. No silêncio entre as palavras, eu li seu coração muito livre. Ao me falar de nossa terra, me chamou de Irmão.

Acordei três outras palavras para enviar a você: Pátria, Trabalho e Justiça. Prometa-me não deixá-las dormir de novo.

Com saudade, despede o

Mateus

 

 

 

Amigo Marcos

Eu já lhe falei do meu carinho pelas palavras. Mateus me escreveu. Dentro do envelope estavam três palavras escolhidas. Disse-me que Pátria, Trabalho e Justiça não podem ficar esquecidas. Guardei, com cuidado, no coração o seu presente. Sinto vontade de gritá-las. Sei que a terra inteira vai gostar de ouvi-las.

Não vou acordar palavras para dar de presente a você. Peço sua ajuda para fazer dormir palavras que há muito andam acordadas: Fome, Opressão e Violência.

Todo o carinho da

Maria

 

 

 

Marta, amiga querida

Quando o dia amanhece, vejo o sol entrar por debaixo da porta. Hoje, junto com sua luz chegou uma carta. Trouxe notícias de Maria, que me pedia um favor: ajudar a fazer dormir palavras que há muito nos machucam. Ao levar as palavras para o sono, descobri outras que estavam acordando.

Abri as páginas do dicionário. Elas voaram céu adentro: Paz, Esperança e Respeito. Penso que muito em breve nós vamos ler estas palavras no rosto de cada um.

Com a amizade de sempre.

Marcos

 

 

 

Caro Lucas

A chuva, nesta amanhã, lavou os campos. Ao abrir a janela, vi uma fita colorida abraçando o mundo. Tomei do arco-íris três cores para você: Verde, Amarelo e Azul.

Não sei se o carteiro vai descobrir meu presente. Estou lhe enviando o Brasil. Abra a carta e deixe a liberdade voar sobre nós.

Sua amiga

Marta

 

 

 

Sara, amada

Como são fortes as palavras! Elas dizem coisas que só o coração escuta. Se escritas sobre papel claro, ficam mais iluminadas e eternas. Sei que as palavras podem abrir novo caminho.

Procurei dentro de mim alguma palavra dormindo. Só encontrei uma: Igualdade. Ela nos permite viver as diferenças.

Até muito em breve,

Lucas

 

 

 

Meu caro João

Um dia todos nós vamos receber uma carta. Ela chegará como um sonho, nos acordando para nossos Direitos e Deveres. Todas as palavras serão conhecidas. Será uma carta clara como os nossos desejos. Passaremos a morar em um país correspondido.

Mando ainda três palavras para nossa correspondência: Eleitor, Expressão e Escola.

Sua amiga,

Sara

 

 

 

Caríssima Ana

No princípio você deu palavras de presente a Mateus. Ele acordou outras e multiplicou as cartas. Agora muitas palavras moram acordadas em nosso sonho.

É tempo de escolher quem saiba somar nossas palavras em uma grande carta, Carta Maior (1), feita de pequenas cartas.

Que esses nossos representantes sejam Justos, Próximos e Verdadeiros. E que sejamos atentos, para não ficar uma só palavra esquecida.

Assim, as palavras vão sair do nosso sonho para viver entre nós – sempre.

Com muito amor,

João

 

 

Depois deste texto só posso dizer: quem não faz nada contra a opressão, o preconceito, a intolerância e a raiva, também tem cheiro de pólvora nas mãos.

 

Sugestão de leitura:

 

QUEIRÓS, Bartolomeu Campos. Correspondência. Belo Horizonte: Governo de Minas Gerais, 1986.

 

Nota

1 - O autor refere-se na época a Constituinte.


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SUELI BORTOLIN

Doutora e Mestre em Ciência da Informação pela UNESP/ Marília. Professora do Departamento de Ciências da Informação do CECA/UEL - Ex-Presidente e Ex-Secretária da ONG Mundoquelê.